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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 22

Eu corri pro meu quarto como se o corredor da mansão tivesse câmeras e Logan Novak fosse o tipo de homem que demite por telepatia. Fechei a porta e encostei as costas nela, respirando como se eu tivesse acabado de fugir de um crime.

“Passe na sede da Novak. Leve seus documentos. Vou efetivar você.”

Meu coração ainda estava naquela parte boa.

“E a sua carteira de trabalho.”

Meu coração morreu ali mesmo.

Eu puxei o celular com a urgência de alguém que acabou de descobrir que existe prova surpresa na segunda-feira. Clara. Clara precisava existir no mundo exatamente pra momentos como esse.

Liguei.

E quando ela atendeu eu despejei tudo de uma vez, atropelando as palavras.

— Mareu? — a voz dela veio com sono e desconfiança. — Você matou alguém?

— Pior. Eu preciso de uma carteira de trabalho.

Silêncio do outro lado.

— …uma o quê?

— Uma carteira. De trabalho — repeti, mais devagar, como se fosse o nome de um animal raro. — Pra amanhã. Com urgência.

Clara soltou um som estranho que eu demorei meio segundo pra reconhecer como riso contido.

— Onde eu compro isso? — continuei, atropelando. — Qual é o tamanho? Cor? Precisa ser elegante? Quero dizer… é carteira de trabalho de babá. Deve ser discreta. Mas eles são os Novak, Clara. Eu não posso aparecer com qualquer coisa.

A risada dela explodiu.

— Clara!

— Desculpa — ela tentou, falhando miseravelmente. — Desculpa. É que… Mareu, pelo amor de Deus.

— Eu tô falando sério! — Eu andava em círculos no quarto, puxando o cabelo. — Tem que ser de marca? Chanel? Prada? Eu não sei. Eles são bilionários. Precisa ser Hermès? Onde raios eu consigo uma carteira de trabalho Hermès em um domingo?

Clara quase engasgou rindo.

— Mareu, para.

— Eu não posso parar! — eu sibilei. — O senhor Novak disse que vai me efetivar amanhã. Que eu tenho que passar no RH e levar meus documentos… e a carteira de trabalho. Eu não tenho isso. Eu nunca… — a frase ficou presa na garganta. Eu nunca precisei ter.

Clara respirou fundo, finalmente tentando virar gente.

— Tá. Ouve. Quando ele falou “carteira de trabalho”, ele não estava falando de uma carteira de couro.

— Não?

— Não. Carteira de Trabalho é um documento. Hoje é digital. Você faz em minutos.

Eu pisquei.

— Digital?

— Sim. Você baixa o aplicativo “Carteira de Trabalho Digital” ou entra pelo gov.br. Você precisa de conta no gov.br. Aí entra com CPF e senha e pronto.

— Em minutos? — eu repeti, porque “governo” e “minutos” não combinavam.

— Em minutos. E, antes que você pergunte: não tem Hermès. E é de graça — ela riu, agora com carinho. — E parabéns. Efetivação é coisa grande, Mareu.

A palavra “parabéns” bateu num lugar estranho. Eu queria comemorar, mas tudo o que eu conseguia sentir era pânico com etiqueta.

— Obrigada — respondi baixo. — Quer almoçar comigo amanhã depois que eu passar lá?

— Quero. Me manda mensagem quando sair. E não se preocupa, vai dar certo.

Desliguei com a sensação incômoda de que “vai dar certo” era uma frase perigosa pra alguém como eu.

Sentei na cama e abri a loja de aplicativos. Digitei “carteira de trabalho” e apareceram três opções com nomes parecidos e ícones suspeitos. Duas tinham avaliações do tipo “não abre” e “rouba dados”.

— Ótimo — murmurei. — Começou o golpe.

Procurei com calma “Carteira de Trabalho Digital”, baixei e abri.

A tela pediu login.

“Entrar com gov.br.”

Eu encarei como se fosse uma piada interna do universo.

CPF eu sabia. Digitei. Fácil.

Senha.

Eu congelei.

Tentei a primeira que veio à cabeça. Erro. Tentei a segunda. Erro. Tentei a terceira, aquela que eu achava muito inteligente quando tinha doze anos. Erro.

O aplicativo me avisou, educadíssimo, que eu tinha falhado como cidadã.

Recuperar senha.

Cliquei.

“Enviaremos um código para o número final *****-**27.”

Eu arregalei os olhos.

— Que número é esse? — sussurrei, sentindo suor frio. Eu não lembrava de nenhum final 27.

Tentei outra opção: e-mail.

O e-mail estava parcialmente oculto, mas o domínio eu reconheci. Um daqueles provedores antigos, do tempo em que minha mãe ainda “organizava” a minha existência.

Eu cliquei mesmo assim.

“Código enviado.”

Eu esperei.

Nada.

Eu tentei recuperar o e-mail.

O sistema me respondeu: “tente novamente em 30 minutos”.

Trinta minutos.

Eu joguei o celular na cama com cuidado — porque até o drama, naquela casa, precisava ser contido — e encarei o teto.

E foi aí que a ideia me acertou como uma verdade humilhante.

Eu precisava de ajuda de alguém mais experiente.

Mais inteligente.

Alguém que cobrava seu salário em barras de chocolate.

— Não leu direito.

— Eu li em pânico — eu corrigi.

Ela me olhou de lado, avaliando minha capacidade.

— Você não lembra sua senha?

— Eu lembro várias. Só não lembro a certa.

— Então cria outra.

— Eu tô tentando.

Olívia clicou em recuperar e viu o número final 27.

— Esse telefone é seu?

— Não.

— Por que tá aí?

— Porque o universo me odeia.

Ela ignorou e foi no e-mail.

— Esse e-mail é seu?

— É. Só…

— ... não lembra a senha — completou por mim.

Ela segurou uma risada e continuou como uma profissional.

— Tá. A gente vai resolver. Mas você precisa parar de ficar nervosa e fazer exatamente o que eu mandar.

Eu obedeci.

Eu recuperei o que dava pra recuperar. Eu respondi perguntas. Eu tentei lembrar dados que eu não precisava lembrar desde sempre. Eu segui instruções de uma criança como se ela fosse um manual.

Em algum momento — depois de uma sequência humilhante de telas — nós conseguimos finalizar todos os processos.

A tela carregou.

Eu senti um alívio tão grande que quase ri.

— Viu? — Olívia disse, orgulhosa. — Era fácil.

— Fácil pra você — eu murmurei.

Ela me entregou o celular de volta como se estivesse concluindo um serviço.

— Agora abre e vê se tá tudo certo.

Eu abri. Rolei. Conferi nome, CPF, data de nascimento… tudo ali.

Até meus olhos baterem numa linha.

Data de emissão: hoje.

Eu arregalei os olhos.

— Ah, merda.

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