~ PAULA ~
Paris à noite tinha um talento irritante para ficar bonita até quando eu estava de mau humor.
Talvez fosse por isso que eu gostasse tanto dali. Porque a cidade parecia entender uma verdade básica da vida: beleza e crueldade funcionam muito bem juntas.
O bar escolhido para aquela noite ficava numa rua elegante demais para turistas idiotas e discreta o bastante para encontros que não deviam ser vistos. Luz baixa, piano ao vivo, taças caras, gente fingindo desinteresse umas pelas outras enquanto calculava patrimônio alheio com o canto do olho. Meu tipo de ambiente.
Rômulo, no entanto, destoava um pouco.
Não pela roupa — ele sabia se vestir bem —, mas pela energia. Havia homens que entravam em lugares como aquele já se achando parte do cenário. Logan Novak era um deles. Rômulo, não. Rômulo ainda entrava como quem queria provar alguma coisa.
E talvez quisesse mesmo.
Ergui minha taça e sorri.
— Um brinde.
Ele ergueu a dele também, desconfiado.
— Ao quê?
Inclinei a cabeça.
— A Logan estar perdendo todos os contratos.
Rômulo soltou uma risada curta pelo nariz antes de beber.
— Você realmente o odeia, não é?
Girei a taça entre os dedos.
— Ele me trocou por aquelazinha. O que você esperava?
Rômulo encostou as costas na cadeira, me olhando por cima do copo.
— Ainda assim, você está aqui na França, atrás de um plano para tê-lo de volta.
O tom dele tinha ciúme. Não muito escondido. Não muito bonito.
Eu sorri.
— Você está com ciúmes?
Ele demorou meio segundo demais para responder, o que era praticamente uma confissão.
— Eu estou cansado dos seus planinhos.
Ah. Então era esse o humor da noite.
Rômulo se inclinou na minha direção, apoiando um braço na mesa. Depois se aproximou mais, até a boca roçar meu pescoço num beijo morno e calculado. Ele sabia usar o corpo. Sabia criar a ilusão de intimidade. Era por isso que ainda estava na minha vida: porque, entre outras limitações mais graves, sabia ser conveniente.
— Escuta — murmurou perto da minha pele. — Por que você não esquece o Novak, hein? Faz alguma coisa por você. Por nós. Vamos nos assumir e pronto.
Eu ri.
Não porque fosse engraçado. Porque era fofo.
Levantei a mão e toquei o rosto dele como quem elogia um cachorro especialmente obediente.
— Você é uma gracinha.
O maxilar dele endureceu.
— Não me trata assim.
— Assim como?
— Como se eu fosse um brinquedo.
Eu ergui uma sobrancelha.
— E você acha mesmo que pode me dar o que eu espero que Logan me dê? Por favor…
Rômulo soltou o ar devagar, irritado, mas insistiu.
— Posso te dar muito. Posso te dar dinheiro, sexo, amor…
Dessa vez eu ri de verdade.
— Amor?
Ele se calou. A própria palavra pareceu envergonhá-lo assim que saiu.
Inclinei-me para a frente, apoiando os cotovelos na mesa, olhando diretamente para ele.
— Sério, Rômulo? Você está mesmo falando de amor?
O rubor de irritação subiu pelo rosto dele. Não era só vergonha. Era humilhação. E, pior para ele, eu sabia disso.
— Qual é a graça? — ele perguntou, mais seco.
— A graça é que você ainda acha que eu funciono como as outras mulheres.
— E você funciona como o quê?
Sorri sem pressa.
— Como alguém que sabe exatamente o que quer.
Ele me observou em silêncio.
A música do piano continuava ao fundo. A garçonete passou perto da nossa mesa. Duas pessoas riram no balcão. Paris seguia linda e indiferente, como se não houvesse um homem diante de mim tentando entender por que continuava se oferecendo a uma mulher que não o respeitava nem um pouco.
Resolvi ser generosa e explicar.
— Entenda, querido. Eu não sou uma mulher movida por amor. — Dei um gole no vinho. — Eu sou uma mulher movida por dinheiro e poder. E você… — deixei o olhar descer por ele e voltar, lenta — você não chega aos pés de Logan Novak nesse sentido.
Ele ficou imóvel.
Atingido.
— E é por isso que eu preciso dele — concluí.
A palavra preciso não era exagero. Logan não era apenas um homem rico. Era posição. Sobrenome. Acesso. Projeção. Consolidação. Casar com ele não significava “ser bem-casada”. Significava me sentar em um lugar de onde quase ninguém me tiraria depois.
Rômulo engoliu o resto da bebida de uma vez só.
— Então é isso? — perguntou, ríspido. — Eu sou só uma distração enquanto você corre atrás dele?
— Não seja dramático.
— Dramático?
— Sim. Homem magoado sempre acha que está fazendo Shakespeare quando, na verdade, está só fazendo papel de bobo.
Ele riu sem humor.
— E ainda assim você me mantém por perto.
Aproximei minha taça da dele sem tocar.
— Porque eu gosto de ter opções.
A primeira sequência era inútil. Os dois de mãos dadas. Os dois saindo de um restaurante. Os dois sorrindo num píer. Os dois trocando carinhos num ângulo bonito demais, quase romântico. Depois mais imagens em Côte d'Azur. Mais toques. Mais proximidade. Mais aquele ar de casal feliz que dava vontade de vomitar.
Havia material ali, claro. Muito material.
Mas eu precisava de alguma coisa realmente útil.
Continuei passando.
Uma série noturna chamou minha atenção por alguns segundos. Logan e Mareu se beijando em Mônaco, próximos demais, íntimos demais. Porém a luz era ruim. O rosto dela mal aparecia em algumas. Em outras, o ângulo favorecia Logan mais do que a mim interessava.
Sussurrei, irritada:
— Isso não me serve de nada…
— Isso o quê? — Rômulo perguntou.
Ignorei outra vez, mas ele já estava se inclinando, curioso, até aproximar o rosto do meu celular.
Continuei passando.
Restaurante. Marina. Hotel. Mais marina.
Então parei.
E, dessa vez, ri.
Baixo no começo. Depois com gosto.
— Isso aqui, sim, é bom.
A sequência seguinte mostrava Logan e Mareu numa lancha em alto-mar.
Não apenas abraçados.
Não apenas se beijando.
Completamente íntimos.
Explícitos o bastante para destruir reputações, gerar manchetes, escândalo, julgamento moral, humilhação pública. O tipo de material que não precisava nem de legenda. Bastava existir.
Meu sorriso aumentou.
— Como ele conseguiu isso? — murmurei para mim mesma. — Drone?
Passei para a foto seguinte. Depois para outra. E outra.
Não importava.
A origem importava menos do que o resultado.
Rômulo estava pálido ao meu lado agora.
— Paula… o que exatamente é isso?
Virei a tela um pouco mais para ele ver melhor.
— Ué. Exatamente o que você está vendo. Um ensaio pornô da sua namoradinha.
— Tá, mas… — ele franziu a testa, desconfortável, irritado, talvez até enojado. — Pra que você quer isso? O que vai fazer com isso?
Eu o encarei por um segundo, saboreando a resposta antes mesmo de dizê-la.
Depois sorri.
— Acabar com a reputação de Maria Eugênia Valença, é claro.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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