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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 216

~ MAREU ~

Enquanto Logan saía para ir até a casa da mãe, eu tentei me distrair.

Tentei mesmo.

Mas era difícil, porque a minha vida tinha desenvolvido uma habilidade muito específica de funcionar como aqueles pratos de circo que ficam girando em varetas: quando um finalmente estabilizava, outro começava a bambear perigosamente do lado.

Olívia estava bem. Melhor que bem, na verdade. A carta da Laura tinha aberto uma porta que nenhuma de nós duas sabia direito como empurrar sozinha, e agora aquela parte da nossa história parecia, pela primeira vez, respirável.

Eu e Logan também estávamos bem.

Ridiculamente bem.

Num nível constrangedor de bem, se eu fosse parar para pensar em tudo o que tinha acontecido na lancha. O que, aliás, eu preferia não fazer porque ainda existiam fotos por aí de mim abocanhando coisas que não eram exatamente… um sorvete.

Sim, era ruim pensar que isso podia arruinar a minha reputação. Mas, sendo completamente honesta, eu precisava manter uma reputação limpa para quem, exatamente? Meu círculo social tinha sido reduzido de forma impressionante nos últimos meses. E, sabendo que Logan e Clara nunca me julgariam, com quem mais eu realmente me importava?

A resposta veio rápido demais.

Olívia.

Porque essas coisas sempre chegavam até criança de algum jeito, não chegavam? Numa mãe venenosa do grupo da escola. Numa irmã mais velha de coleguinha que via demais, entendia de menos e repetia tudo com gosto. E, no caso da minha vida, eu conseguia pensar exatamente em qual coleguinha levaria a fofoca para a sala de aula como se estivesse distribuindo brindes.

Ou na irmã da coleguinha.

Cruzei o saguão do hotel tentando não pensar nisso, caminhando em direção ao spa mais por falta do que fazer do que por um real compromisso com o autocuidado. Meu autocuidado, naquele momento, consistia basicamente em não surtar antes do almoço.

Foi então que eu parei no meio do caminho.

Franzi os olhos.

Inclinei um pouco a cabeça.

Não.

Não podia ser.

Mas era.

— Ei… — murmurei para mim mesma, semicerrando os olhos como se isso ajudasse no trabalho investigativo. — Eu conheço esses cabelos loiros hidratados com Kérastase.

A mulher à minha frente seguia em direção ao salão de café com um andar apressado, bonito e discretamente culpado. Um andar que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo.

Comecei a segui-la na ponta dos pés.

Não que precisasse. Havia dezenas de pessoas fazendo barulho naquele saguão, carrinhos passando, vozes em francês, xícaras tilintando. Mas andar na ponta dos pés me conferia um poder muito específico.

O de detetive disfarçada em ação.

Ela entrou no salão de café sem olhar para trás e foi direto até uma mesa no canto.

Uma mesa onde um homem a esperava.

E então ela se inclinou e o beijou.

Eu parei tão abruptamente que quase perdi o próprio equilíbrio de tanta satisfação moral.

Porque o homem era Henrique Alencar.

— CLARA RIBEIRO, VOCÊ FOI PEGA!

Clara deu um pulo tão grande da mesa que quase caiu. Henrique, por outro lado, nem tentou disfarçar o sorriso divertido.

— Mareu! — Clara arregalou os olhos.

— Ah, meu Deus, o que você tá fazendo em Paris? — comecei a falar já no meu modo normal de surto verbal, que era basicamente um atropelamento elegante de sílabas. — Quero dizer, tá óbvio o que você tá fazendo em Paris. Beijando o Henrique. Você tá dormindo com o Henrique? Quero dizer… literalmente, no mesmo quarto. Não que eu não vá perguntar sobre sexo também…

Sem pedir licença a ninguém, puxei uma cadeira e me sentei à mesa, ignorando completamente a cara alarmada da Clara e o sorriso cada vez mais satisfeito do Henrique.

— Vocês tão namorando? Que legal! A gente pode sair de casal! Eu e Logan, você e Henrique! Já pensou quando a gente for casar? Pode até ser um casamento duplo e…

— MAREU! — Clara gritou.

Eu me calei na mesma hora.

Um talento pouco valorizado meu: eu sabia parar quando Clara usava aquele tom específico de “mais uma palavra e eu te mato com uma colher de sobremesa”.

Ela respirou fundo, ajeitou o cabelo e tentou parecer uma mulher adulta no controle da própria vida amorosa. Tentou. Não foi um esforço muito bem-sucedido, mas eu valorizei a iniciativa.

— É. É… a gente tá… — então ela olhou para Henrique, e o rosto suavizou num sorriso pequeno, involuntário. — Juntos.

Eu levei a mão ao peito.

— Meu Deus. Eu sabia.

— Você não sabia de nada — Clara rebateu.

Clara deu de ombros, mas o sorriso entregou tudo antes que a boca abrisse.

— E então… não nos desgrudamos mais.

Eu bati as palmas uma vez, incapaz de conter a felicidade alheia como se fosse assunto meu.

— Owwwnnn! Que romântico!

Foi quando uma voz infantil, absolutamente seca, entrou na conversa:

— Digno de um dorama ruim.

Todos nós viramos.

Olívia estava parada na ponta da mesa com uma bandeja nas mãos, Samira ao lado dela com a expressão resignada de quem já desistiu de controlar o itinerário social daquela criança, e Liam no carrinho, mastigando a própria mão como se fosse a atividade mais séria do planeta.

Eu comecei a rir antes mesmo de Olívia terminar.

Ela se aproximou da mesa com a tranquilidade de quem tinha sido convidada para opinar sobre a vida sentimental dos adultos presentes, embora ninguém tivesse feito isso.

— Eu não canso de dizer — ela continuou, sentando-se com a bandeja na mesa —, adultos são estranhos. Vocês dois eram tão óbvios quanto Mareu e papai. Parabéns por aceitarem o óbvio.

Henrique riu, Clara ficou vermelha e eu apoiei o queixo na mão, completamente encantada com a petulância daquela mini senhora de seis anos e três quartos.

Olívia abriu o guardanapo com a paciência de uma executiva preparando uma reunião.

— Vocês adultos complicam tudo.

E eu ri.

Ri porque era verdade.

Porque a vida, no fundo, era muito mais simples quando a gente permitia que fosse. Quando parava de transformar amor em estratégia, medo em regra, desejo em labirinto. Quando aceitava o que já estava na nossa cara desde o começo.

Olhei para Clara e Henrique sorrindo um para o outro como adolescentes tardios tentando fingir maturidade. Olhei para Olívia comendo como se tivesse acabado de resolver um problema diplomático internacional. Olhei para Liam, inteiramente feliz porque existiam dedos no mundo.

Talvez a vida fosse isso.

Uma bagunça constante.

Mas, de vez em quando, uma bagunça boa.

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