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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 23

~ LOGAN ~

Eu estava no escritório antes do prédio inteiro lembrar que existia.

Aquela hora em que o ar-condicionado ainda não decidiu se vai congelar ou só humilhar, em que os corredores têm cheiro de café recém passado, e em que ninguém ousa falar alto porque as paredes de vidro fazem parecer que tudo é audiência.

Eu gosto desse horário por um motivo simples: ele obedece.

As folhas estavam alinhadas na minha mesa como um exército: relatórios, aprovações, contratos, uma proposta de parceria com números grandes o suficiente para virar manchete — e pequenos o suficiente para virar problema se alguém respirasse errado. Eu riscava, assinava, organizava. Eu não pensava.

A porta abriu sem que batesse.

Eu não levantei a cabeça. Não precisei.

Só uma pessoa entrava no meu escritório assim.

Henrique Alencar atravessou a sala e se jogou na poltrona à minha frente do jeito mais ofensivo possível para um ambiente que custava caríssimo por metro quadrado.

— Acabei de ver a tal babá chegando pra passar no RH e… — ele assobiou, longo, indecente, como se estivesse avaliando um carro esportivo.

Eu continuei lendo a linha que estava lendo.

— Nem pensar.

— Nem pensar o quê? — Henrique perguntou, com aquela felicidade irritante de quem nasceu sem medo de consequências.

— Em qualquer coisa que você esteja pensando em fazer com a minha funcionária.

— “Minha funcionária” — ele repetiu, saboreando a frase como quem encontra um ponto fraco numa armadura. — Você ouviu o que você disse?

Eu coloquei a caneta exatamente paralela à borda do papel. Respirei, devagar.

— Me dá um bom motivo — Henrique insistiu, encostando a cabeça no encosto da poltrona. — Só um. Porque, tecnicamente, eu não fiz nada. Eu só… apreciei à distância.

Eu finalmente empilhei as folhas com cuidado, como se o mundo dependesse daquela organização e levantei o olhar.

— Te dou três. Primeiro: eu estou mandando. Segundo: Olívia finalmente se dá bem com uma babá e eu não vou deixar que ela peça demissão porque o babaca do meu melhor amigo decidiu transformar a sala de RH num bar. Terceiro: eu estou mandando.

Henrique piscou.

— Você usou “eu estou mandando” duas vezes.

— Eu estou muito acostumado a mandar — eu disse, sem a menor ironia.

— Isso explica muita coisa e não explica nada. — Henrique inclinou o corpo pra frente. — E explica, também, por que você ainda não reparou…

— Henrique.

— …porque não deve ser fácil uma mulher daquelas andando pra cima e pra baixo na sua casa e você sem… — ele fez um gesto amplo com as mãos, como se estivesse desenhando algo no ar — perceber.

Eu fiquei imóvel por fora. Por dentro, alguma coisa irritantemente humana gritava.

Eu tinha percebido.

Eu tinha percebido no dia em que ela apareceu molhada até os ossos no meu quarto. Eu tinha percebido no jeito como ela respondia Olívia como se fosse a única adulta naquela casa que não tinha medo de contrariar uma criança. Eu tinha percebido no silêncio entre uma frase e outra no teatro, quando a luz bateu no rosto dela e eu pensei, por um segundo indecente demais, que eu odiava a palavra “viúvo” porque ela vinha com uma coleção de deveres — e nenhum deles incluía sentir nada.

— Você sabe que eu não penso nisso — eu disse, seco, olhando por cima dele como se ele fosse uma planilha.

Henrique riu, baixinho.

— Claro. Há oito meses.

O número entrou como uma lâmina.

Oito meses.

Oito meses desde que Laura morreu e eu aprendi que “seguir em frente” é uma frase que as pessoas usam quando não precisam segurar um mundo inteiro com as duas mãos.

— Eu entendo, Logan — ele disse, mais baixo. — Eu entendo mesmo. Mas… a Laura não ia querer te ver assim.

Eu voltei a mexer nos papéis só pra ter alguma coisa pra fazer com as mãos.

— Não fala por ela.

— Eu não sou paranoico. Eu sou precavido. Aquela mulher já me humilhou o suficiente — eu disse, com calma controlada. — Fugiu de um casamento comigo como quem foge de… — eu procurei uma imagem que não fosse infantil. — Como quem foge de um incêndio.

Henrique soltou um assobio baixo.

— Você fala como se tivesse sido um romance.

— Eu falo como se tivesse sido um problema — eu corrigi. — E eu não quero mais problemas. Eu não quero essa história voltando pra minha porta. Eu não quero alguém usando isso contra mim. Eu não quero… — eu parei antes de dizer a parte verdadeira: eu não quero sentir que eu perdi o controle de novo.

Henrique me observou por um segundo, mais sério.

— Tá. Então vamos aos fatos. — Ele descruzou as pernas, profissional. — Eu chequei o nome. Nada. Ela não estava naquele teatro em nenhuma lista.

Eu tamborilei o dedo na mesa, devagar.

— Ela pode ter ido como acompanhante. Não estar em lista não prova nada.

Henrique ergueu as duas mãos, rendido.

— Ou você ouviu o que achou que ouviu e tá deixando isso crescer na sua cabeça. Você tava num teatro lotado, Logan. As pessoas falam nomes o tempo todo.

Henrique se levantou, ajeitando a gravata torta sem realmente ajeitar.

— E, sinceramente? — ele disse, já voltando ao humor. — Se eu fosse ela, eu também não chegaria nem perto de você. Você tem uma aura que grita “processo judicial”.

Eu estreitei os olhos.

— Sai do meu escritório.

Henrique riu, já andando até a porta.

— Tá bom, chefe. Só não desconta seu trauma na babá. Ela é gata demais para sofrer com seu mau humor.

Ele abriu a porta, mas antes de sair, olhou por cima do ombro com aquela cara de quem guarda sempre uma última carta.

— Fica tranquilo — ele disse, casual demais. — Maria Eugênia Valença… não tá nem perto de você.

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