~ MAREU ~
Caída no chão, eu assisti o carro acelerar e ir embora.
Foi isso o que mais me chocou nos primeiros segundos. Não a dor. Não o susto. Nem o fato de eu estar largada no asfalto com uma bolsa aberta ao meu lado e o vestido da Catharina provavelmente salvo por um milagre divino que, claramente, não tinha se estendido ao resto do meu corpo.
Foi a fuga.
Ninguém desceu. Ninguém abriu a porta correndo para fingir desespero. Ninguém sequer diminuiu de verdade depois do impacto. O carro simplesmente acelerou, virou mais à frente e desapareceu como se eu fosse só um inconveniente no caminho.
Ao redor, vozes começaram a brotar.
Primeiro uma. Depois duas. Depois várias.
O mundo foi voltando em pedaços, aos poucos, no meio de um zumbido estranho dentro da minha cabeça.
— Meu Deus, moça, você está bem?
— Viram a placa?
— Não, tava coberta!
— Ele avançou o sinal vermelho!
— Devia estar bêbado!
— Que absurdo, alguém chama ajuda!
Eu continuava no chão, tentando respirar sem mexer muito, porque toda vez que eu respirava fundo uma dor aguda me cortava a barriga, a perna e toda a lateral esquerda do corpo. Era como se eu tivesse sido desmontada e remontada por alguém com muita raiva e nenhum conhecimento de anatomia.
Fechei os olhos por um segundo.
Péssima ideia.
O chão pareceu girar.
Abri de novo.
— A sorte dela foi que foi de raspão — alguém comentou, acima de mim. — Pegou de lado. Se fosse em cheio…
A frase morreu no ar, o que foi ótimo, porque eu realmente não precisava que um estranho completasse em voz alta o final daquela hipótese.
Outra voz veio mais perto, feminina, aflita:
— Posso te levar ao hospital.
— Melhor chamar uma ambulância — alguém rebateu na mesma hora.
Hospital.
Ambulância.
As palavras entraram na minha cabeça e imediatamente encontraram resistência. Não lógica. Instintiva. Uma recusa quase infantil e completamente irracional a ser jogada numa maca, cutucada por médicos, presa em exames, luz branca e cheiro de antisséptico por Deus sabe quantas horas.
Tentei me sentar.
Arrependi-me no mesmo segundo.
Uma pontada violenta atravessou meu abdômen e eu soltei um som ridículo, meio engasgado, meio gemido, que não ajudou em nada a minha imagem pública de mulher forte e espirituosa.
Duas pessoas se abaixaram para me ajudar.
— Calma, calma…
— Não se levanta rápido.
— Moça, você bateu a cabeça?
— Acho que não — eu disse, embora honestamente não confiasse muito na minha avaliação.
Fiquei sentada por um momento, respirando curto, tentando organizar a dor em regiões específicas do mapa corporal. Barriga. Perna. Quadril. Braço. Ombro. Toda a lateral esquerda parecia em greve.
Mas eu estava consciente.
Falando.
Respirando.
Então, na lógica absolutamente impecável da minha cabeça naquele instante, isso significava que eu estava bem.
Ou pelo menos bem o suficiente para tomar decisões ruins.
— Eu tô bem — murmurei, mesmo sem soar nem remotamente convincente. — Obrigada.
— Você não tá com cara de quem tá bem — um senhor observou, com a sinceridade ofensiva da terceira idade.
— É só a minha cara normal.
Ninguém riu, o que considerei grosseiro.
Com ajuda, consegui ficar de pé. O mundo oscilou um pouco, meu joelho quase cedeu e por um segundo achei que fosse beijar o asfalto de novo, mas me estabilizei. Ou algo perto disso.
— Hospital — a mulher insistiu. — Por favor.
Balancei a cabeça.
— Não. Não… eu tô bem. De verdade. Só preciso… — respirei com cuidado — só preciso ir pra casa.
Ou, no caso, para a casa da Catharina. Ainda estava perto. Perto o suficiente para eu me convencer de que caminhar até lá era uma escolha racional e não um ato final de teimosia suicida.
Agradeci às pessoas ao redor, recuperei minha bolsa, pedi desculpas a ninguém em particular por ter sido atropelada e comecei a voltar, devagar, em direção à casa da Cath.
Foi um trajeto curto.
Também foi, sem exagero, uma das caminhadas mais longas da minha vida.
Quando a porta do apartamento da Catharina finalmente se abriu, eu já devia estar com uma aparência bastante próxima da morte elegante.
Cath me olhou.
E congelou.
— Ah, meu Deus, o que aconteceu com você?
Eu entrei apoiando a mão no batente como uma heroína de guerra voltando do fronte e respondi, com toda a objetividade que a situação merecia:
Minha voz saiu rouca, fraca e um pouco ressentida com a vida.
— Como se eu tivesse sido atropelada por um carro.
Um canto da boca dele quase mexeu.
— Você foi, pelo que soube.
— Então faz total sentido o jeito como eu me sinto.
Tentei rir da minha própria piada.
Doeu.
— Não recomendo — murmurei.
Os dedos dele apertaram os meus com cuidado.
— Vamos ao médico.
Fechei os olhos por um instante.
Lá estava. O hospital. De novo. A insistência lógica. Sensata. Correta. Insuportável.
— Não. Foi só de raspão. Eu tô bem. — Respirei devagar para a frase não sair entrecortada demais. — Realmente só quero ir pra casa e dormir por uns três dias.
— Eu não sei, Mareu. — A voz dele baixou ainda mais. — A gente precisa verificar se não houve nenhum dano interno mais sério e…
— Logan. — Abri os olhos e olhei direto para ele. — Sinceramente, eu não vou aguentar o dia inteiro no hospital. Só… me leva pra casa. E eu prometo que, amanhã, se eu não estiver me sentindo bem, nós vamos, tá?
Eu fiz um X com os dedos indicadores, beijei dos dois lados em seguida e ergui as mãos um pouquinho, mesmo com o esforço me arrancando uma careta.
— Prometo prometidinho.
Ele me observou longamente.
Aquilo significava duas coisas: um, ele achava a minha proposta absurda. Dois, ele estava calculando se me enfrentar naquele momento valia mais a pena do que me monitorar em casa com o rigor de uma central de inteligência.
No fim, soltou o ar pelo nariz.
— Você me enlouquece.
— Eu sei.
Logan balançou a cabeça, mas se levantou para me ajudar. Passou um braço pelas minhas costas com cuidado, apoiou minha cintura e foi me erguendo devagar, como se eu fosse feita de vidro mal colado.
Foi nesse momento que ouvi o barulho de uma mensagem chegando no meu celular.
Automático, virei o rosto para onde minha bolsa estava sobre a cômoda. Logan também ouviu, mas estava ocupado demais tentando me pôr de pé sem me quebrar mais.
— Pega pra mim? — pedi.
Ele alcançou a bolsa, me entregou o aparelho e eu abri a mensagem ainda apoiada nele, meio torta, meio dolorida, esperando qualquer coisa banal.
Não era.
Da próxima vez não vai ser de raspão. Você sabe o que fazer.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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