~ MAREU ~
— Quer que eu vá com você?
Olhei para os meus pais do outro lado do jardim.
Eles estavam visivelmente deslocados entre arranjos impecáveis, garçons elegantes, animadores infantis e a naturalidade ofensiva com que gente rica parece saber segurar taça e conversar sobre nada enquanto observa tudo. Minha mãe tinha a postura ereta de sempre, mas o olhar estava diferente. Menos afiado. Mais cauteloso. Meu pai parecia menor do que eu lembrava, embora talvez fosse apenas a distância de quem deixou de ser gigante na vida da filha há tempo demais.
Voltei os olhos para Logan.
— Quero muito.
A sinceridade saiu sem esforço. Porque eu queria. Queria muito que ele estivesse comigo, que segurasse a minha mão, que desse um jeito de existir entre mim e qualquer frase mais dura que pudesse vir daquela conversa.
Mas respirei fundo.
— Mas preciso fazer isso sozinha primeiro.
Logan apertou minha mão em confirmação, entendendo antes mesmo de eu explicar melhor. Era uma das coisas mais bonitas nele: às vezes, entendia meu coração antes de eu ter terminado de apresentá-lo para mim mesma.
— Vou te socorrer em dez minutos — disse, com aquela calma prática de quem transformava até apoio emocional em plano operacional. — Se precisar de mim antes, é só… improvisar.
Eu sorri.
— Certo. O código vai ser… começar a pular em um pé só.
Logan virou o rosto para mim, confuso.
— Sério?
Pisquei devagar, ofendida.
— Sério, Logan? Eu sou tão esquisita assim pra você não saber quando eu tô brincando ou quando tô falando sério?
Ele ficou instantaneamente sem graça.
— Não, não, quer dizer…
— É claro que eu tô falando sério!
Comecei a me afastar, mantendo a expressão a mais solene possível por três passos inteiros. Então olhei por cima do ombro e soltei uma risadinha de “tô brincando”, dessas impossíveis de segurar, que fez Logan sorrir visivelmente aliviado por ter uma namorada pelo menos parcialmente normal.
Aproximei-me devagar da mesa dos meus pais.
Cada passo parecia ter som demais.
O jardim seguia vibrando ao redor da festa do Liam — música infantil, crianças correndo, taças tilintando, vozes se cruzando — e, ainda assim, aquele pequeno caminho até eles parecia cercado de silêncio.
Parei diante da mesa.
— Oi.
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
— Vocês vieram.
Minha mãe foi a primeira a responder.
— Obrigada pelo convite.
Ela olhou em volta ao falar, e aquilo me chamou atenção imediatamente. Não era o olhar de sempre, o famoso “estou analisando tudo com superioridade e julgando discretamente a pobreza estética alheia”. Não. Era outra coisa. Quase o oposto. Como se ela estivesse com medo de ser julgada pelo ambiente.
— Vem — eu disse. — Tem uma mesa melhor pra vocês.
Era meio mentira, porque todas as mesas eram impecáveis, mas havia uma mais reservada, de onde eles poderiam assistir ao Liam sem parecerem expostos ao zoológico social inteiro da alta sociedade curiosa.
Conduzi os dois até lá e me sentei com eles.
Quase imediatamente, um garçom apareceu trazendo petiscos e refrigerante. Mini sanduíches delicados, copinhos de suco servidos como se fossem coquetéis e salgadinhos gourmet que, no fundo, continuavam sendo salgadinhos, só que mais caros.
Minha mãe observou a mesa antes de olhar para mim.
— Então… o menino fazendo um ano… você realmente trabalhou de babá dele?
Eu peguei um guardanapo só para ter o que fazer com as mãos.
— Sim. Dele e da irmã dele.
Ela franziu a testa como se ainda estivesse tentando conciliar a imagem.
— Mas… você não sabia nem como trocar uma fralda.
Dei de ombros.
— Acredite, você aprende qualquer coisa com o YouTube.
Fiz uma pausa.
— Mas não teria dado no mesmo.
Meu pai não desviou os olhos do meu rosto.
— Como você disse, pai, o mundo me fez evoluir. O mundo me fez entender essa família, entender o meu coração, entender… o amor puro.
Senti a garganta apertar um pouco, mas continuei.
— Talvez, se eu tivesse me casado com o Logan naquela época, a gente nunca tivesse se apaixonado de verdade. Eu nunca tivesse tocado o coração da Olívia e… nunca tivesse levado jato de xixi na cara do Liam.
Minha mãe piscou.
Meu pai arregalou os olhos.
Eu assenti, muito séria.
— Isso muda uma pessoa, sabe? Jato de xixi na cara.
Os dois riram.
E, por um segundo, foi estranho ouvir meus pais rindo comigo. Como se ainda soubéssemos existir na mesma frase.
Minha mãe então se inclinou um pouco na minha direção.
Não muito. Mas o suficiente para sair da posição de espectadora e entrar na de alguém que finalmente tinha coragem de pedir.
— Você nos perdoa?
Olhei para ela.
Depois para o meu pai.
Depois para as minhas próprias mãos sobre a mesa.
Respirei fundo.
E respondi com a única verdade que eu tinha:
— Eu não posso fazer isso.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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