~ MAREU ~
Minha mãe piscou, como se a resposta tivesse passado por ela rápido demais para ser compreendida de primeira.
— Não… não pode?
Eu balancei a cabeça.
— Não. Porque não tem nada pra ser perdoado.
Os dois me olharam em silêncio, e eu senti que precisava terminar aquela frase com cuidado.
— Vocês tentaram fazer o melhor por mim. Do jeito de vocês. Eu só… gostaria que, no futuro, vocês acreditassem mais em mim quanto a fazer minhas próprias escolhas. Porque… eu sei que eu vou quebrar a cara. Mas talvez eu precise disso.
Meu pai soltou um riso baixo pelo nariz, aquele tipo de concordância cansada de homem que já tinha apanhado muito da própria vida.
— Com toda certeza. Quebrar a cara ensina mais do que qualquer vida perfeita.
Assenti.
Fazia sentido ele dizer aquilo. Mais agora do que nunca.
— Como o senhor está lidando com isso?
Ele entendeu na hora de que “isso” eu estava falando.
Do vício.
Da ruína lenta e humilhante de ter sido um homem admirado e respeitado, e depois ter visto o próprio nome circular como boato sujo em boca de gente que adorava assistir desgraça de perto.
Meu pai respirou fundo antes de responder.
— Aprendendo a controlar. Um dia de cada vez.
Assenti devagar.
Não era uma frase milagrosa, mas era honesta.
— E… financeiramente? — perguntei, mais hesitante.
Minha mãe e meu pai trocaram um olhar rápido. Eu conhecia aquele olhar. O de casais que já tinham passado vergonha juntos o bastante para desenvolver uma linguagem própria de pequenos desastres.
Enquanto esperava a resposta, meu cérebro já estava fazendo contas sozinho. Eu tinha algum dinheiro guardado. O que recebi como babá. O primeiro salário que Logan me pagou quando aquele noivado ainda era contrato e insanidade corporativa. Depois que passamos da fase “fingindo muito mal” para “claramente apaixonados”, eu fiz Logan rasgar o contrato. Mas o dinheiro daquele início tinha ficado.
Não era muito.
Mas talvez pudesse ajudar.
Ou pelo menos amenizar alguma coisa.
Minha mãe foi a primeira a responder.
— Os boatos fizeram parecer que foi muito pior do que realmente foi.
Meu pai completou:
— Não estamos falidos, mas… estamos nos reestruturando.
Minha mãe mexeu no guardanapo à frente dela, num gesto tão pequeno que quase passou despercebido.
— O baque foi mais… na reputação.
Assenti devagar.
Agora eu entendia perfeitamente por que minha mãe olhava ao redor como se qualquer pessoa ali pudesse, a qualquer momento, tratá-la como um nada.
— As pessoas vão esquecer isso assim que tiverem um próximo escândalo pra falar mal — eu disse.
Meu pai riu baixo.
Minha mãe, surpreendentemente, também.
— É assim que funciona o nosso mundo.
— Infelizmente, sim — ela concordou.
Eu sorri discreta.
Então olhei para os dois e perguntei:
— E, por falar em nosso mundo… vocês querem conhecer a Olívia e o Liam? E, claro, o Logan além do contrato?
A expressão da minha mãe suavizou primeiro.
Meu pai assentiu quase no mesmo instante.
— Queremos, sim.
Levantei da cadeira.
— Então vem.
Caminhamos os três de volta ao centro da festa, e eu me dei conta, no meio do trajeto, de que talvez aquele fosse um dos momentos mais estranhos e improváveis da minha vida: eu estava levando meus pais para conhecer oficialmente a família que construí no erro mais certo da minha existência.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...