~ MAREU ~
Em algum ponto entre a chegada dos meus pais, o bolo em formato de carrinho e a constatação de que Olívia tinha roubado mais brigadeiros do que qualquer adulto funcional deveria permitir, eu consegui escapar por alguns minutos para o canto mais tranquilo da varanda lateral.
Não para descansar.
Descansar, naquela família, era um conceito teórico.
Mas para respirar um pouco e observar a festa de longe, como se ela pertencesse a outra pessoa e eu tivesse sido convidada só para admirar. O jardim seguia bonito demais para ser verdade, todo aceso em luz dourada de fim de tarde, crianças correndo entre brinquedos infláveis, animadores desesperados e garçons tentando equilibrar bandejas com uma dignidade que ninguém ali estava realmente respeitando.
Clara apareceu ao meu lado com uma taça de espumante e a cara de quem tinha acabado de sair de uma conversa suspeitamente feliz.
Eu estreitei os olhos.
— Então…
Ela revirou os olhos antes mesmo de eu terminar.
— Como anda o relacionamento com Henrique?
Clara fingiu pensar por um segundo, olhando para a festa como se a resposta estivesse escrita em algum arranjo de flores.
— Melhor do que eu imaginava.
Eu sorri.
— Isso significa muito ou pouco?
Ela deu um passo mais perto e abaixou a voz, como se fosse me contar um segredo de Estado.
— Ele é romântico.
Eu virei o rosto para ela tão rápido que quase torci o pescoço.
— O quê?
Clara assentiu, ainda em tom de conspiração.
— Romântico.
Fiquei encarando a cara dela por dois segundos inteiros antes de conseguir ter qualquer outra reação.
— Dá pra imaginar que Henrique Alencar é um cara romântico?
— Não dá — respondi.
— E talvez seja exatamente por isso que fica pior.
— Pior?
— No bom sentido.
— Ah, graças a Deus. Já achei que ele tava te escrevendo poesia ruim.
Clara fez uma careta.
— Credo. Não. Ainda.
— “Ainda”? — repeti, escandalizada. — Então você já considera essa possibilidade?
Ela tomou um gole do espumante como quem precisava de apoio químico para lidar comigo.
— Nós vamos tirar férias juntos mês que vem.
Eu arregalei os olhos.
— Uuuuhhh. E já decidiram pra onde vão?
Clara sorriu, aquele sorriso pequeno, levemente incrédulo, de quem ainda estava se acostumando com a própria felicidade.
— Essa é a parte mais romântica.
Aproximei-me mais dela.
— Meu Deus, ele vai te levar pra Itália? Grécia? Tóquio? Fernando de Noronha? Uma cabana com lareira e vinho caro? Fala logo antes que eu desmaie de curiosidade.
Clara me encarou por um segundo, saboreando o efeito.
— Melhor! São Paulo!
— São... Paulo? — quase me engasguei tentando esconder minha decepção.
— Henrique me conseguiu um wild card pra um W35 em São Paulo. Se eu não passar vergonha… talvez isso vire alguma coisa.
Pisquei.
Depois abri um sorriso tão grande que meu rosto quase doeu.
— Passar vergonha? Clara, você arrasa no tênis! Isso é seu primeiro passo para as Olimpíadas.
Ela riu na mesma hora.
— Não vamos exagerar.
— Eu nunca exagero em nada.
Clara me lançou um olhar que, sozinho, refutava essa frase inteira.
— Mas… sim — ela admitiu. — Eu gostaria de voltar a competir.
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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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