~ MAREU ~
Depois disso, a festa continuou do jeito que festas infantis importantes continuam: como se ninguém no mundo tivesse o direito de desacelerar.
Cortaram o bolo. Tiraram mais fotos. Distribuíram docinhos. Liam recebeu presentes demais para alguém que ainda achava que a maior conquista da vida era conseguir morder o próprio pé. Logan foi puxado para três conversas diferentes ao mesmo tempo, todas supostamente rápidas, nenhuma realmente importante. E eu fiz o que fazia de melhor naquele tipo de caos: sorri, beijei, participei, fingi.
Fingir bem é um talento subestimado.
Principalmente quando a dor vai crescendo em silêncio.
A fisgada que eu tinha sentido na frente do bolo não voltou com força total de imediato. Veio em ondas menores, mais traiçoeiras. Um incômodo surdo, ali embaixo, que eu fui empurrando para o fundo da cabeça como quem empurra bagunça para dentro de um armário antes de visita chegar. Eu já estava acostumada a não parar por qualquer coisa. Meu corpo podia reclamar o quanto quisesse; a minha tendência natural sempre foi dizer “depois a gente conversa”.
E, sinceramente, eu não ia estragar o aniversário de um ano do Liam porque meu corpo decidiu querer atenção em horário social.
Foi nesse espírito de negação madura e profundamente irresponsável que continuei circulando pela festa.
Até que Liam, sentado no colo da Samira com um pedaço de bolo nas mãos, decidiu que me amava o suficiente para me transformar em tela interativa.
Eu me abaixei para dar um beijo na cabeça dele e, no instante seguinte, ele enfiou a mão inteira na cobertura, abriu um sorriso banguela e espalhou o açúcar no meu rosto com uma felicidade ofensiva. Primeiro na bochecha. Depois no queixo. Depois, num segundo movimento de puro sadismo infantil, no cabelo.
Eu congelei por meio segundo.
Todo mundo em volta começou a rir.
Inclusive eu.
— William Novak! — exclamei, ainda rindo, limpando o chantilly do olho. — Isso foi uma agressão estética.
Liam respondeu com um gritinho satisfeito e tentou repetir o movimento.
Logan virou a cabeça a tempo de ver o final da cena e começou a rir também, aquele riso baixo e lindo que eu já conseguia reconhecer mesmo no meio de vinte pessoas falando.
— Você mereceu isso — ele disse.
— Por quê?
— Porque estava com cara de quem ia roubar o brigadeiro dele também.
— Eu jamais roubaria doce de um bebê.
Olívia, que passava naquele momento com a própria bolsinha de assaltante infantil pendurada no ombro, murmurou:
— Mentira.
Ignorei-a com a dignidade possível para alguém com cobertura de bolo no cabelo e agarrei a mão da Clara quando ela passou perto.
— Vem comigo.
Ela olhou para a minha cara e tentou não rir.
— Meu Deus. Você tá parecendo uma sobremesa mal resolvida.
— Obrigada. É exatamente por isso que você vai me ajudar a retocar a maquiagem.
Puxei Clara comigo em direção à escadaria, aproveitando a desculpa perfeita para me afastar um pouco da festa sem levantar suspeita. Subimos até o quarto que agora era meu e do Logan e, assim que a porta se fechou atrás de nós, meu sorriso escorregou.
Fui direto para a cômoda.
Abri a gaveta de cima, onde já existia um pequeno arsenal de remédios. Peguei uma cartela, destaquei um comprimido e o engoli com água antes que Clara terminasse de fechar a porta.
Ela me observava em silêncio.
— O que foi isso?
Balancei a cabeça, como se o gesto por si só pudesse apagar a preocupação do rosto dela.
— Nada. Só uma dorzinha… aqui.
Levei a mão à parte baixa do abdômen, meio sem vontade de dramatizar até para a minha melhor amiga.
Clara cruzou os braços.
— E desde quando você vem tendo essa “dorzinha”?
Desviei os olhos.
— Não sei.
— Mareu.
— Não é nada. O remédio faz passar.
Clara me encarou por mais tempo do que eu gostaria.
— Vou avisar o Logan.
— Não. Eu não quero alarmar ninguém. E nem estragar o aniversário do Liam. Vai passar.
Clara soltou o ar devagar, claramente nada convencida.
Eu já conhecia aquele olhar. O de “você está mentindo mal e eu estou anotando isso para usar contra você depois”.
— Só preciso de dez minutos — acrescentei.
Fui até a cama e me deitei por cima da colcha, fechando os olhos por um instante.
A posição horizontal ajudou um pouco. Ou talvez eu só quisesse acreditar nisso. O quarto estava silencioso comparado ao caos lá fora, embora ainda desse para ouvir, filtrados pelas janelas, os ecos distantes da música infantil e das crianças sendo crianças.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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