~ MAREU ~
Eu acordei devagar, como se estivesse voltando de muito longe.
Primeiro, veio a sensação. O corpo pesado. A cabeça lenta. A boca seca. Uma dormência esquisita na ponta dos dedos e aquele gosto metálico de susto antigo que sempre ficava depois que a realidade decidia dar uma paulada na pessoa.
Depois, o resto começou a entrar em foco.
A luz branca demais.
O teto sem graça.
O bipe discreto de algum aparelho.
O hospital.
Pisquei algumas vezes, ainda tentando me situar, e então virei o rosto.
Logan estava sentado numa cadeira ao lado da cama.
De imediato, a primeira coisa que me atingiu não foi alívio.
Foi culpa.
— Droga! — soltei, a voz mais rouca do que eu queria. — Eu estraguei o aniversário do Liam?
A reação dele não foi a que eu esperava.
Nada de “claro que não”, nada de beijo na testa, nada de “fica calma”. Logan estava completamente sério. Tenso num nível que fazia parecer que cada músculo do corpo dele tinha sido puxado com arame.
— Droga, Mareu — ele devolveu, a voz baixa e dura. — Desde quando você está sentindo isso?
Demorei meio segundo para entender a pergunta.
— Eu…
— Eu disse pra gente vir ao hospital depois do acidente, não disse? — Ele passou a mão pelo rosto, claramente segurando coisas demais ao mesmo tempo. — Mas você é teimosa.
Franzi a testa.
A vontade imediata foi retrucar.
Porque, honestamente, eu tinha desmaiado, estava numa cama de hospital, provavelmente com o cabelo parecendo um passarinho morto, e ele me vinha com bronca? Aquilo me pareceu profundamente ofensivo para a vítima da situação.
— Eu realmente achei que não precisasse — respondi.
Logan soltou um ar quase sem som, como se estivesse irritado demais para respirar normalmente.
— Tem sangue escorrendo pela sua perna e você realmente não achou que médico era uma boa ideia?
— Ei! — rebati na hora. — Não tinha acontecido isso antes e… e…
Parei no meio da frase.
Porque a bronca já estava subindo inteira pela minha garganta. Eu já estava pronta para mandar Logan parar de agir como um idiota controlador justamente quando eu precisava de carinho, apoio, mimo, afeto e talvez uma sobremesa. Mas então a data me atravessou.
Um ano atrás.
Naquele mesmo dia.
Talvez naquele mesmo hospital.
Talvez naquele mesmo corredor branco, ou um muito parecido.
O Liam nascendo.
A Laura morrendo.
E Logan, muito possivelmente, preso para sempre dentro de alguma versão daquele medo.
A minha irritação murchou na hora.
Olhei melhor para ele.
Não era raiva.
Ou não era só raiva.
Era pânico.
Meu peito apertou.
— Logan… — chamei mais baixo. — Eu tô bem. Vou ficar bem. Tô no hospital agora. Obrigada por ter me trazido.
Ele me olhou, mas ainda havia um atraso estranho no modo como processava as palavras. Como se metade dele estivesse comigo naquela cama e a outra metade ainda estivesse correndo de algum passado que eu não podia alcançar.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...