~ MAREU ~
Por alguns segundos, as palavras do Logan simplesmente não fizeram sentido.
Elas entraram pelos meus ouvidos, passaram pelo meu cérebro e não encontraram onde pousar, como se tivessem sido ditas em um idioma que eu não conhecia, ou em um planeta onde bebês pudessem ser devolvidos com a nota fiscal e uma desculpa educada.
Pisquei.
Uma vez.
Duas.
Tentei organizar a frase dentro da minha cabeça.
Eu não posso ser pai novamente.
Eu não quero ser pai novamente.
Olhei para ele como se a minha expressão, sozinha, pudesse obrigá-lo a se explicar melhor.
— Como assim não quer? — perguntei, enfim. — Ele ou ela já está dentro de mim. Não tem muito o que fazer agora.
Mas Logan continuava naquele estado estranho, quase febril sem febre, como se o corpo dele estivesse na cadeira ao lado da cama e a mente tivesse voltado correndo para algum lugar de um ano atrás.
— Não posso — ele repetiu. — Não posso, Mareu. Não… não. Olívia e Liam já são o suficiente. Já era. Eu… eu preciso pensar. Preciso pensar em alguma coisa. Preciso dar um jeito. Preciso…
Ele falava em pedaços.
Frases soltas.
Sem lógica completa.
Sem começo, meio e fim.
Como se cada pensamento dele batesse num muro antes de se formar direito. Como se estivesse tentando sair correndo de dentro da própria cabeça e não encontrasse saída.
A raiva começou a subir em mim devagar.
Não uma raiva limpa, justificada em frase de efeito. Uma raiva feia, confusa, ferida.
— Logan.
Ele não respondeu.
— LOGAN!
Aí sim ele ergueu os olhos.
Mas foi de um jeito tão desconectado que, por um segundo, pareceu mesmo ter esquecido que eu estava ali. Como se só agora estivesse lembrando que não era uma conversa com fantasmas, com memórias, com culpas antigas — era comigo.
Eu, numa cama de hospital.
Eu, com sangue.
Eu, com um bebê dentro de mim.
Senti a raiva crescer mais.
— O que exatamente você está sugerindo? — perguntei.
Ele me olhou sem responder.
Então repeti, agora sentindo a voz mais firme, mais afiada:
— O que você está sugerindo?
Mas Logan não conseguiu dizer.
E eu entendi por quê.
No fundo, entendi na hora.
Ele estava assustado.
Assustado demais.
Talvez num nível que eu ainda nem conseguisse medir.
Mas não era aquele tipo de homem.
Não era o tipo de homem que ia mandar uma mulher “dar um jeito” sozinha. Não era o tipo de homem que ia me culpar como se gravidez fosse obra individual feminina. Não era o tipo de homem que ia na esquina comprar cigarro e desaparecer da minha vida com a covardia escondida no bolso.
Não.
Esse não era o Logan.
Mas, ainda assim, eu nunca tinha visto Logan Novak naquele estado.
Ele se levantou de repente.
— Preciso respirar.
E saiu.
Só isso.
Sem me tocar.
Sem olhar para trás.
Sem pedir um minuto.
Sem prometer voltar.
A porta se fechou, e eu fiquei ali, sozinha, com a sensação de que o ar tinha sido arrancado do quarto junto com ele.
Olhei para a parede.
Para o soro.
— Existem alguns cenários possíveis. Isso pode surgir espontaneamente, pode estar associado ao processo de implantação e também pode acontecer depois de esforço ou de um trauma físico.
Fiquei imóvel.
Completamente imóvel.
Aquela última parte ficou ecoando dentro da minha cabeça como uma taça quebrando em câmera lenta.
— Trauma físico tipo… um atropelamento?
O médico me olhou diretamente antes de responder.
— Sim. É plausível. Eu não consigo te afirmar com honestidade absoluta que foi exatamente isso, porque a medicina nem sempre funciona de forma tão linear. Mas um impacto como esse pode, sim, estar associado ao aparecimento ou ao agravamento de um hematoma subcoriônico.
O ar fugiu do meu peito de novo.
— Eu vou perder esse bebê?
A pergunta saiu baixa. Sem aquela camada de ironia que eu costumava jogar entre mim e o medo. Só medo puro.
O médico balançou a cabeça devagar.
— Não é assim que a gente lê esse quadro. Um hematoma subcoriônico não significa automaticamente perda gestacional. O que ele significa é que essa gestação precisa ser acompanhada com atenção.
Franzi a testa.
— Acompanhada como? — Minha voz saiu mais fina agora. — Porque “acompanhar” parece uma palavra que médico usa quando não quer me contar que deu tudo errado.
— Não deu tudo errado — ele respondeu, firme. — O que vamos fazer é monitorar. Ver o tamanho desse hematoma, observar se ele aumenta, diminui ou se o corpo reabsorve esse sangue com o tempo. Também vamos acompanhar o bebê, os batimentos, a evolução da gestação e qualquer sintoma que você tenha, como dor ou sangramento.
Respirei com cuidado.
— Então ainda pode ficar tudo bem?
— A maioria dos casos evoluem bem, principalmente quando a gestação é acompanhada de perto. O mais importante, agora, é entender que existe um ponto de atenção, não uma sentença.
Eu deixei a cabeça cair levemente contra o travesseiro.
— Ponto de atenção. Que jeito delicado de dizer que meu corpo resolveu transformar a gravidez numa experiência de alto risco.
— Eu prefiro dizer que seu corpo está nos obrigando a ter mais cuidado. E cuidado, nesse momento, é exatamente o que pode fazer a diferença.
Assenti.
Mas, quando ele saiu, eu continuei olhando para a porta por alguns segundos, sem realmente vê-la.
Ótimo.
Paula podia estar presa agora.
Podia estar longe dali.
Mas, ainda assim, continuava atravessando a minha vida com a fúria das pessoas que nunca aceitam perder.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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