~ MAREU ~
Voltar para casa naquela noite teve um gosto estranho de fim de festa e começo de outra coisa.
A mansão Novak já não parecia mais a mesma quando cruzamos a porta principal. Não porque tivesse mudado de verdade — continuava imensa, silenciosa demais quando as crianças não estavam correndo, impecável mesmo depois de receber uma festa inteira de um ano de idade com parque nos jardins, banda infantil e açúcar suficiente para acelerar uma pequena cidade. Mas alguma coisa em mim tinha mudado.
Ou melhor: alguma coisa dentro de mim.
Grávida.
A palavra ainda vinha e voltava como uma bolinha de pingue-pongue batendo nas paredes da minha cabeça. Às vezes parecia absurda. Às vezes parecia engraçada. Às vezes parecia tão grande que eu mal conseguia respirar quando pensava nela por mais de cinco segundos.
Quando entramos no quarto, tudo já estava minimamente em ordem. O caos do aniversário do Liam tinha sido varrido da casa com a eficiência sobrenatural da equipe Novak. Restavam alguns arranjos florais nos corredores, um ou outro balão fugitivo e aquele cheiro de festa acabando.
Eu tirei os sapatos antes de chegar à cama e praticamente caí sentada nela, soltando um suspiro que era metade exaustão, metade alívio por não estar mais num hospital ouvindo palavras assustadoras terminadas em “-ônico”.
Logan fechou a porta atrás de nós e eu já vi que ele estava entrando num modo novo de preocupação. Mais atento. Mais elétrico. Mais perigosamente organizado.
Isso era, ao mesmo tempo, bonito e ameaçador.
Eu tinha acabado de me deitar melhor no colchão quando ouvi uma batidinha na porta.
Antes que qualquer um de nós respondesse, ela se abriu.
Olívia entrou com a expressão de quem carregava um tesouro diplomático de valor inestimável.
— Eu salvei os brigadeiros — anunciou.
Eu me sentei mais direito na mesma hora.
— Você o quê?
Ela foi até a cama, subiu com a naturalidade de quem claramente considerava aquele espaço tão dela quanto nosso e começou a despejar um monte de docinhos em cima do edredom.
Brigadeiro. Beijinho. Dois cajuzinhos meio deformados. Uma trufa que já tinha perdido a batalha contra a própria embalagem.
Fiquei olhando aquilo como se estivesse vendo ouro bruto.
— Hermione Granger enfeitiçou essa bolsa?
Olívia franziu a testa.
— O quê?
Levei a mão ao peito.
— Meu Deus. A gente precisa te fazer assistir Harry Potter.
Olívia largou a bolsa num canto e se acomodou ao meu lado.
Ela olhou para o pai.
Depois para mim.
Depois de volta para o pai.
E perguntou, da forma mais simples do mundo:
— Então, Mareu está grávida?
Eu soltei um:
— O quê?
Não um “o quê?” elegante.
Um “O QUÊ?” esgoelado, indignado, pego no flagra pelo próprio útero.
Olívia, no entanto, não se intimidou nem um pouco com o meu colapso vocal.
Muito pelo contrário. Endireitou-se e começou a listar, nos dedos, como uma promotora mirim apresentando provas robustas ao tribunal.
— Enjoo pela manhã. Sensibilidade a cheiros. Desespero por chocolate…
— Desespero por chocolate eu sempre tive — cortei.
— E papai com uma cara de “não sei como vou contar isso pra Liv”.
Virei o rosto para Logan.
Ele, para meu absoluto horror, estava rindo.
— E qual seria o jeito certo de contar? — ele perguntou à filha.
— Simples e direto.
Logan assentiu.
— Certo.
Então olhou para ela, muito sério, mas com aquele brilho quente no olhar que sempre aparecia quando era com os filhos.
— Mareu está grávida. Você vai ter mais um irmãozinho ou irmãzinha.
Eu prendi a respiração.
Mesmo sabendo que a Olívia provavelmente já tinha deduzido tudo sozinha há horas, havia alguma coisa diferente em dizer aquilo para ela com todas as letras.
Olívia ficou em silêncio por um segundo.
Depois sorriu.
E se jogou em cima de mim num abraço que eu quase não consegui segurar de tão surpresa.
— Ei! Cuidado com a grávida! — reclamei, mais por reflexo do que por necessidade.
Mas eu já estava rindo.
Ela então se afastou só o suficiente para colocar o ouvido na minha barriga, com toda a solenidade de uma especialista em acústica fetal.
— E ligeiramente criminosa.
— Herdado de você.
— Que orgulho.
Logan guardou o celular devagar, derrotado pela nossa rede organizada de delinquência açucarada.
— Vocês duas são impossíveis.
— Mas felizes — respondi, enfiando metade do brigadeiro na boca antes que ele reconsiderasse.
Olívia continuava ao meu lado, agora mais relaxada, um joelho dobrado na cama, os olhos indo de mim para a minha barriga e da minha barriga para o pai como se estivesse, em tempo real, reorganizando o próprio universo para encaixar mais uma pessoa.
Não havia drama ali.
Não havia crise.
Só… aceitação com um leve tom de “isso era óbvio”.
E talvez fosse isso que tornava tudo tão bonito.
Eu puxei a cintura dela para mais perto e a derrubei de leve sobre a cama.
— Ei! — ela protestou, já rindo.
Então comecei a fazer cócegas nela.
Olívia explodiu numa gargalhada tão verdadeira, tão inteira, que eu senti alguma coisa em mim afrouxar.
Ela tentava se esquivar, me empurrava com mãos pequenas e indignadas, ria sem conseguir manter a pose de mini adulta por mais de meio segundo.
— Para! Para! Isso é abuso de autoridade!
Eu ri tanto que meus olhos marejaram de novo, e quando finalmente parei, ela estava ofegante, esparramada no colchão ao meu lado, com o cabelo completamente destruído e um sorriso enorme no rosto.
Foi só então que olhei para Logan.
Ele estava parado perto da cama, os braços cruzados, observando nós duas com um sorriso no rosto.
Eu devolvi o olhar.
E, sem saber exatamente se era por causa da gravidez, do susto, do chocolate, da Olívia ou do jeito como ele nos via naquele instante, senti o coração apertar daquele jeito bom e quase dolorido.
Talvez família começasse assim.
Não com grandes discursos.
Não com a notícia perfeita.
Não com um plano impecável.
Mas com uma criança tirando brigadeiros de uma bolsa, um homem exagerando no cuidado e uma mulher deitada na cama, rindo tanto que por um momento até o medo perdia espaço.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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