~ MAREU ~
Catharina Novak entrou na sala da mansão como se tivesse acabado de vencer uma guerra social de salto alto e batom intacto.
O que, considerando o ambiente em que ela circulava, podia muito bem ter acontecido.
Eu estava largada no sofá com um bloco de anotações no colo, fingindo que estava organizando ideias para o casamento, na verdade, estava só escrevendo possíveis nomes de doramas para serem assistidos e desviando de qualquer pensamento que envolvesse bebê, hematoma subcoriônico ou Logan me olhando como se eu fosse explodir a qualquer momento.
Cath nem se deu ao trabalho de sentar primeiro.
Foi direto até a mesinha de centro, abriu a bolsa e começou a jogar cartões sobre o mármore como quem distribuía cartas num cassino muito elegante.
— Inclusive, peguei uns contatos pra você.
Ergui as sobrancelhas.
— “Inclusive”? Eu perdi alguma introdução?
— O vestido foi um sucesso — ela respondeu, como se isso fosse óbvio e eu estivesse atrasada mentalmente. — Todo mundo quer desesperadamente um vestido “Mareu Novak”.
Repeti a expressão devagar, mais para sentir o gosto daquilo do que por necessidade de confirmação.
— Mareu Novak?
Cath finalmente se sentou na poltrona diante de mim, cruzando as pernas com a calma de quem acabara de cometer um pequeno crime de branding e não tinha o menor remorso.
— Ah, bem… você sabe. Só “Mareu” não ia vender. Mas a noiva de Logan Novak…
Inclinei a cabeça.
— Sobrenome é tudo.
Ela deu de ombros.
— Deu certo.
Olhei para os cartões espalhados diante de mim.
Nomes conhecidos. Sobrenomes ainda mais conhecidos. Mulheres que passavam a vida tentando parecer naturais em vestidos que custavam mais do que um carro popular. Meu coração deu um pulo meio ridículo dentro do peito.
Não porque eu duvidasse da minha costura.
Eu sabia costurar.
Sabia cair, levantar, refazer, ajustar, salvar tecido condenado e barra impossível. Sabia olhar um corpo e imaginar linha, caimento, corte e estrutura. O que eu ainda não sabia direito era como reagir ao fato de que isso podia, de repente, virar alguma coisa maior do que um talento útil e silencioso.
Cath puxou três cartões dos outros e os colocou mais perto de mim.
— E por falar em sobrenome, eu começaria por essas três. Mas especialmente pela Kara Milani.
Eu arregalei os olhos.
— Kara Milani quer um vestido meu?
Cath assentiu, satisfeita com a reação.
— Uhum.
— Kara Milani, tipo… Kara Milani “Milani”?
— Há muitas outras?
Olhei de novo para o cartão como se ele pudesse evaporar se eu piscasse demais.
— Imagina o marketing gratuito que isso não vai gerar — Cath continuou.
— Eu vou ligar pra ela agora!
Já peguei o celular no impulso. Abri a tela. Olhei o contato no cartão. Respirei.
Parei.
— Ou amanhã — corrigi, largando o telefone de volta no sofá. — Hoje é domingo e talvez seja melhor não atrapalhar Kara Milani no domingo. Vai que ela tá comendo trufas negras australianas no banho ou algo assim.
Cath sorriu.
— Amanhã é uma boa ideia.
Encostei a cabeça no sofá e ri sozinha, sem conseguir esconder a animação.
— Meu Deus.
Ela observou meu surto com um divertimento frio, bem Catharina, até que eu me recompus minimamente e estreitei os olhos para ela.
— Agora me distraia, porque você me deixou ansiosa. Como foi o date com o Henri?
Cath bufou.
Sem delicadeza.
Sem glamour.
Sem qualquer resquício da mulher que, segundos antes, distribuía contatos premium na minha mesa como se fosse a fada madrinha com networking.
— Ele me deu o bolo. Você acredita?
— O quê?
— Exatamente isso que você ouviu. Depois ele me ligou pra pedir desculpas. Quero dizer, o cara é um gentleman, mas é um gentleman que conheceu uma brasileira e, de repente, passou a achar muito menos interessante seguir os planos de casamento dos pais.
Eu a encarei por dois segundos.
— E aí? Você teve que encarar o casamento sozinha e ainda sendo julgada pela sua mãe?
Cath fez uma careta, mas não da forma que eu esperava.
— Mamãe até que foi… solidária.
Eu quase me engasguei com o próprio ar.
— Estranho.
— Um pouco.
Ela pegou um dos cartões da mesa e começou a girá-lo entre os dedos.
Tinha alguma coisa ali. Um brilho suspeito. Um certo ar de quem estava tentando parecer irritada quando, no fundo, queria muito contar alguma coisa.
Eu conhecia esse sintoma.
— Cath.
— Hm?
— Você está escondendo informação.
Ela me olhou por cima do cartão.
— Estou?
— Está. E muito mal.
Suspirando como se estivesse prestes a fazer uma confissão à polícia, ela largou o cartão de volta na mesa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...