~ MAREU ~
Os dias foram passando.
Não com pressa. Não com calma também. Foram passando daquele jeito estranho que o tempo passa quando muita coisa muda de uma vez e, ainda assim, a vida insiste em continuar pedindo café da manhã, reuniões, roupa lavada, criança querendo dorama e bilionário querendo te beijar no meio do corredor como se não existisse equipe de funcionários traumatizada o suficiente naquela casa.
A barriga começou a aparecer antes que eu me sentisse pronta para isso.
Um volume novo, uma curva suave e muito particular, dessas que fazem o espelho parecer saber uma coisa antes da sua cabeça aceitar. Eu ainda me pegava colocando a mão ali às vezes, meio sem pensar, e travando por dois segundos ao lembrar que havia mesmo uma pessoa crescendo dentro de mim. Uma pessoa pequena, insistente e já profundamente inconveniente no melhor sentido possível.
Logan tinha ficado ainda pior.
Ou melhor, dependendo do ponto de vista.
Mais atento. Mais presente. Mais propenso a me encarar com ar grave se eu subisse escadas rápido demais, ficasse muito tempo em pé ou respirasse com uma intensidade que ele julgasse suspeita. Não chegava a ser insuportável o tempo todo, mas havia momentos em que eu me sentia um projeto de alto risco financiado por uma holding internacional e não uma mulher tentando existir em paz.
Ao mesmo tempo, era bonito.
Porque ele estava ali.
Em cada consulta.
Em cada remédio.
Em cada copo d’água empurrado para a minha mão como se hidratação fosse um tratado de paz.
Então, quase sem perceber, a vigésima semana chegou.
E com ela, a consulta em que, teoricamente, descobriríamos o sexo do bebê.
— Você está nervoso? — perguntei, sentada no banco do carro enquanto ajustava a alça do vestido sobre a barriga ainda relativamente discreta.
Logan, ao volante, soltou um riso curto.
— Você está perguntando isso porque quer saber sobre mim ou porque não quer admitir que está nervosa?
— Os dois.
Ele me lançou aquele olhar lateral insuportável de homem bonito demais para ter tanta tranquilidade.
— Um pouco.
— Um pouco? — repeti, ofendida. — Eu estou a um passo de vomitar de ansiedade, e você vem me dizer um pouco?
— Você está grávida. Tudo seu vem com mais intensidade agora.
A clínica tinha cheiro de lugar limpo demais e caro demais, o que eu suponho ser o mínimo esperado quando você vai pagar para alguém deslizar gel gelado na sua barriga e te dizer se seu útero está colaborando com o futuro.
Quando nos chamaram, eu ainda tentei parecer uma pessoa madura e centrada.
Fingi até entrar na sala.
Mas, no instante em que me deitei na maca e a médica se aproximou com o aparelho, meu coração começou a bater feito louco. Não pelo sexo do bebê, exatamente. Ou não só por isso. Era o pacote inteiro. A imagem. O som. A prova de que aquilo tudo era real de um jeito impossível de negar.
— Vamos ver essa mocinha ou esse mocinho? — a médica perguntou, simpática.
Logan segurou minha mão imediatamente.
Nem comentou.
Nem perguntou se eu queria.
Só segurou.
O gel na pele estava gelado o bastante para me arrancar uma careta.
— Isso devia ser aquecido por lei.
A médica riu.
— Ouço isso quase todos os dias.
O aparelho deslizou sobre a minha barriga, a imagem apareceu na tela, e tudo dentro de mim ficou em silêncio.
Lá estava.
Nosso bebê.
Pequeno e, ainda assim, tão absurdamente inteiro. A cabeça. O perfil. A curvatura do corpo. O movimento. Um bracinho. Um pedaço de coluna. Um coração batendo com a indiferença dos organismos que ainda não fazem ideia do estrago emocional que causam nos adultos.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...