~ MAREU ~
Kara Milani tinha a irritante capacidade de entrar em qualquer ambiente como se o ambiente tivesse sido montado para recebê-la.
Não era só beleza. Embora, sinceramente, beleza ajudasse bastante. Kara era daquelas mulheres que faziam o mundo parecer um pouco mal enquadrado em volta delas. Jovem, loira, elegante de um jeito quase ofensivo e com aquela aura específica de quem já aprendeu a existir sob todos os olhares.
Quando ela entrou no ateliê improvisado que Logan tinha montado para mim na mansão, eu quase tive vontade de levantar e rever o posicionamento de cada tecido, cada carretel, cada croqui espalhado na bancada.
Porque eu também estava começando a desenvolver uma aura.
Talvez menos “império Milani”.
Mais “costureira grávida tentando não morrer de ansiedade nem de repouso obrigatório”.
Mas ainda assim, uma aura.
— Então esse é o famoso ateliê — Kara disse, olhando em volta com um sorriso pequeno.
— “Ateliê” é um nome muito elegante para “cômodo adaptado por Logan Novak para eu não enlouquecer no repouso” — respondi.
Ela riu.
E eu gostei imediatamente disso. Porque mulheres muito bonitas, muito ricas e muito observadas às vezes desenvolvem o péssimo hábito de rir como quem está te dando um prêmio. Kara não. Kara ria como quem realmente achou graça.
O vestido estava num cabide especial perto da janela.
Eu já tinha terminado os últimos ajustes, revisado a barra três vezes, conferido o fechamento umas cinco e passado os olhos no caimento geral num nível de obsessão que provavelmente configurava namoro abusivo com tecido. Mas, ainda assim, quando Kara foi até ele e passou a mão devagar pela peça, meu coração deu um pulinho ridículo.
— Meu Deus — ela murmurou.
Tentei parecer casual.
Não consegui.
— Isso é um “meu Deus” bom ou ruim?
Kara virou o rosto para mim.
— Isso é um “meu Deus, eu quero usar esse vestido para sempre”.
Eu sorri sem conseguir evitar.
Ela tirou o vestido do cabide com mais cuidado do que muita gente tira bebê do berço e levou para perto do corpo, já imaginando o efeito no espelho.
— Eu amei. Sério. Vou usar isso no baile beneficente anual da Milani e, com toda certeza, vai ser um sucesso.
Aquilo me fez rir.
— Nenhuma pressão, então.
— Absolutamente nenhuma. Só metade da elite querendo comentar quem fez o vestido, quem eu estou usando, se é Couture, se é exclusividade e quanto tempo falta para começarem a querer o mesmo.
Aquela frase atingiu um ponto muito específico dentro de mim. O ponto onde mora a costureira, a sonhadora, a ex-babá, a noiva de bilionário e a mulher que ainda estava aprendendo a caber no próprio futuro.
Kara percebeu.
Mulheres como ela percebiam tudo.
— E falando em futuro… — ela girou um pouco para me encarar melhor. — Cath me disse que você vai se casar em dois meses.
Soltei um suspiro que era metade alegria, metade exaustão.
— Eu vou. Em teoria. Na prática, anda tudo uma loucura. Eu nem posso participar direito dos colapsos porque tenho ordem médica pra ficar quieta. O que é cruel com a minha personalidade.
Kara segurou o vestido com uma mão e apoiou a outra na cintura.
— Você pode usar o Milani, se quiser.
Eu pisquei.
— O quê?
— O Milani. Para o casamento. Temos uma equipe que cuida de tudo do jeitinho que você quiser.
Meu cérebro travou por um segundo inteiro.
— Kara… eu ouvi dizer que, pra conseguir uma vaga no Milani, era preciso marcar com meses de antecedência. Talvez anos.
Ela riu.
— Não quando você acabou de fazer um vestido perfeito para a dona do império Milani.
Eu fiquei olhando para ela como se aquela frase pudesse, sozinha, me provocar um desmaio esteticamente coerente com o ambiente.
— Você está falando sério?
— Completamente. — Ela sorriu. — Me liga. A gente combina. Horário, salão, decoração, tudo. Minha mais nova estilista favorita não vai se casar em qualquer lugar.
A alegria veio tão rápido que eu precisei apoiar as mãos na bancada para não sair pulando feito uma criança.
— Meu Deus. Kara Milani, eu acho que te amo um pouco.
— Isso é justo.
Eu ri tão alto que senti o bebê — ou talvez só meu próprio corpo dramático — reclamar discretamente. Levei a mão à barriga por reflexo, e Kara percebeu.
O olhar dela suavizou de um jeito quase imperceptível.
— Vai com calma, ok?
Assenti.
— Eu vou. Ou pelo menos vou fingir muito bem que vou.
Kara me lançou aquele tipo de olhar feminino que significa “eu sei que você está mentindo, mas vamos lidar com uma crise de cada vez”, pegou o vestido e caminhou até a porta.
Antes de sair, voltou-se para mim uma última vez.
— Amanhã eu mando mensagem. E, sério… parabéns. Pelo vestido. E por tudo.
Fiquei olhando para a porta por alguns segundos depois que ela saiu.
Então gritei, para absolutamente ninguém específico:
— O MILANI!
No instante seguinte, Logan apareceu na porta do ateliê.
— Devo me preocupar com o volume da comemoração?

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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