~ MAREU ~
Olívia pediu uma coisa simples para o aniversário.
O que, vindo de Olívia Novak, era muito mais impressionante do que parecia.
Nada de festa. Nada de convidadas estrategicamente selecionadas. Nada de animadores, nem decoração, nem bolo do tamanho de uma instalação artística. Ela só queria passar o dia com a gente.
Comigo.
Com Logan.
Com Liam.
Em família.
E, honestamente, depois da tensão das últimas semanas, da casa sempre meio em alerta e do meu corpo transformado numa operação especial de risco monitorado, aquilo pareceu perfeito.
Ou o mais perto de perfeito que a gente conseguia fabricar sem desafiar diretamente a equipe médica.
Como eu não podia me movimentar muito, o “dia inteiro fora” da cabeça da Olívia precisou ser adaptado até caber num formato que não fizesse Logan infartar e nem me mandasse de volta para um hospital em vinte minutos. No fim, chegamos a uma versão aprovada por todos os setores regulatórios da família Novak.
Saímos ainda de manhã, num daqueles dias de céu claro que fazem o mar parecer ter sido polido durante a madrugada. Logan foi dirigindo com o nível habitual de atenção com que ele fazia tudo agora: como se o carro, a estrada, os filhos, eu, o banco, o ar-condicionado e a pressão dos pneus estivessem todos sob responsabilidade emocional dele.
Olívia estava atrás com Liam, no seu papel de irmã mais velha especializada em opinar sobre tudo.
— Se a gente for tomar sorvete, eu já gostaria de registrar que chocolate continua sendo um sabor superior — ela declarou.
— Errado — respondi do banco da frente. — Pistache é superior. Chocolate é só… popular.
— Pistache tem gosto de rica tentando parecer natural — retrucou ela.
Logan riu.
— Isso foi estranhamente específico.
Quando chegamos à praia, eu quase desci do carro com a mesma animação de uma criança. Porque, claro, antes de qualquer movimento, Logan já tinha dado a volta no carro, aberto a minha porta e me olhado com a expressão de quem estava prestes a negociar uma operação de resgate em área de guerra.
— Devagar.
— Você fala comigo como se eu fosse uma senhora centenária.
— Eu falo com você como alguém que, estatisticamente, toma decisões ruins o tempo todo.
Olhei para ele, ofendida.
— Isso é um ataque pessoal.
— É uma observação baseada em fatos.
Eu ia responder, mas Olívia passou por nós e decretou:
— Vocês dois têm energia de casal de dorama na terceira temporada. Muito cansaço emocional e zero objetividade.
Mareu: humilhada.
Logan: rindo.
Liam: completamente alheio, babando no próprio punho com a serenidade de um bebê que ainda não sabia o privilégio que era não entender conversa de adulto.
Andamos pouco. Muito pouco. O suficiente para que eu sentisse a areia fofa sob os pés e o vento no rosto. Depois fomos até a beira da água, onde Logan me segurou pelo braço como se o mar pudesse ter assinado um acordo secreto para me derrubar.
— Eu só vou molhar os pés, Logan.
— Foi exatamente assim que várias tragédias começaram ao longo da história.
— Você é muito dramático.
Olívia já tinha entrado um pouco mais, com a barra do vestido dobrada, correndo da espuma. Liam, no colo do pai, batia as perninhas para alcançar a água.
Eu fechei os olhos por um segundo quando a onda gelada tocou meus pés.
Aquilo fez alguma coisa em mim afrouxar.
Uma tensão pequena. Invisível. Daquelas que vão se acumulando sem barulho.
Quando abri os olhos, Logan estava me olhando.
Não com preocupação dessa vez.
Só com… carinho.
Um carinho tão inteiro que eu quase desviei o rosto por pudor.
— O quê? — perguntei.
— Nada.
— Logan.
— Nada. Só estou te vendo feliz.
Sorri.
— Eu estou mesmo.
Tomamos sorvete depois numa sorveteria de esquina, dessas antigas e boas, com mesinhas apertadas e um balcão que parecia existir desde que o açúcar foi inventado. Olívia pediu chocolate, obviamente, e comeu com o ar de quem se sentia moralmente validada pela escolha. Liam ganhou umas colheradas da e fez uma sujeira tão grande no rosto que Logan precisou desistir da ideia de mantê-lo minimamente apresentável depois da terceira tentativa de limpar.
Eu fui de pistache, como manda a civilização.
— Continua com gosto de rica tentando parecer natural — Olívia comentou, me vendo provar.
— E continua delicioso.
Ela fez uma careta muito séria.
À tarde, voltamos para casa e partimos para a programação que Olívia chamou de “a melhor parte de um aniversário bem administrado”: doramas no sofá.
Logan reclamou antes mesmo de sentar-se.
— Eu realmente não entendo por que todo mundo nessas séries cai desacordado, leva tapa na cara, chora na chuva e ainda assim termina bonito.
— Isso se chama arte — respondi.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...