~ MAREU ~
Se alguém me dissesse, meses antes, que eu passaria a manhã do meu casamento sentada diante de um espelho sendo maquiada enquanto tentava não desmaiar, não chorar, não borrar o rímel e não entrar em colapso estético, eu diria que parecia plausível.
Talvez até otimista.
O quarto da noiva no Milani estava cheio, mas de um jeito bom. Não de um jeito sufocante. Tinha cheiro de laquê, perfume caro, flores e nervosismo feminino bem administrado. Cath e Clara circulavam em volta de mim como minhas madrinhas, minhas amigas, minhas fiscais emocionais e, em certos momentos, minhas sequestradoras legais. Minha mãe estava ali. Gabriella também. Samira entrava e saía com aquela calma de quem parecia capaz de organizar o mundo com um copo d’água e um olhar severo.
Olívia, claro, parecia a criatura mais importante do ambiente.
E, sendo justa, talvez fosse mesmo.
Ela já estava vestida de daminha, com o cabelo impecável, o vestido caindo perfeitamente no corpo magrinho e aquela expressão de quem estava entre “estou lindíssima” e “espero que todos tenham consciência da seriedade institucional deste evento”.
— Não pisa aí — Clara avisou, apontando para um pedaço do véu.
— Eu não ia pisar.
— Você claramente ia pisar — Cath rebateu.
— É o meu véu.
— Exatamente por isso você pisaria.
Revirei os olhos e continuei parada enquanto a maquiadora dava os últimos retoques.
Meu vestido estava finalmente no meu corpo. E, por mais que eu mesma o tivesse desenhado, costurado, feito, refeito, adaptado e sofrido por cada mudança que a barriga impôs ao projeto original, ainda parecia um pequeno milagre vê-lo inteiro. Branco, elegante, caindo do jeito certo, abraçando tudo o que eu era agora: noiva, costureira, grávida, apaixonada, apavorada.
Minha mãe se aproximou primeiro.
Ficou me olhando por alguns segundos longos, como se tentasse me encaixar ao mesmo tempo na menina que eu tinha sido e na mulher que eu tinha virado.
— Você está linda — ela disse, por fim.
A voz saiu baixa. Mais baixa do que a de Vivian Valença costumava sair.
Eu sorri.
— Obrigada.
Ela assentiu, alisando o tecido na altura do meu braço com um cuidado que me atingiu num lugar delicado demais para aquela hora da manhã.
Gabriella veio logo depois.
Minha futura sogra estava impecável, como sempre, mas havia alguma coisa diferente no olhar dela. Menos defesa. Menos superioridade automática. Menos Gabriella Novak em modo guerra.
Ela me observou por um instante e então disse:
— Eu realmente admiro você.
Pisquei.
Talvez porque eu não esperasse aquilo nem em cem anos e várias vidas reencarnadas.
— Isso foi… surpreendentemente gentil.
O canto da boca dela subiu e ela continuou, agora com uma honestidade que me deixou quieta:
— Eu tentei fazer você sair da vida do meu filho. E você não saiu. Nem por ameaça, nem por dinheiro, nem por cálculo — Ela respirou fundo. — Você ficou por amor. E eu vejo isso agora. Com ele. Com as crianças. Com essa família inteira.
Meu peito apertou.
— Obrigada — falei, dessa vez sem nenhuma brincadeira para me proteger.
Gabriella fez um gesto pequeno com a cabeça, como se aceitasse a emoção alheia, mas não a própria.
— Cuide deles.
Olhei para ela por um segundo.
— Sempre.
Foi justamente nesse momento que a cerimonialista entrou.
Ela tinha cara de eficiência encarnada e um sorriso treinado para lidar com gente surtando em roupa branca.
— Senhoras, estamos no tempo.
Clara imediatamente se levantou.
Cath pegou a própria clutch.
Minha mãe respirou fundo.
Gabriella endireitou os ombros.
Era a hora.
A cerimonialista foi organizando tudo com a calma de quem claramente já tinha impedido colapsos maiores do que o meu.
— As mães, por favor. Madrinhas, comigo.
Clara passou por mim e apertou meu ombro.
— Não desmaia antes de entrar.
— Isso é uma recomendação médica ou estética?
— As duas.
Cath beijou minha bochecha.
— Você está perfeita.
— Eu sei — respondi. — Estou tentando ser humilde, mas o vestido dificultou muito.
Ela riu e saiu.
Minha mãe me deu um último olhar.
Gabriella também.
E então elas foram.
A porta se fechou atrás delas.
E, de repente, ficamos só eu e Olívia.
O silêncio mudou de temperatura.
Não ficou pesado. Ficou… íntimo.
Ela veio até mim devagar, ainda muito composta, e me observou como quem analisava uma obra importante antes da inauguração.
— Você está nervosa?
Eu soltei um suspiro tão comprido que quase desmontei o penteado.
— Eu sinto como se o meu coração fosse sair pela boca.
Olívia fez uma pequena careta de lógica contrariada.
— Você não deveria ficar nervosa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...