Clara me mandou o número da sala onde trabalhava e eu fui até lá como quem vai até um porto seguro. A sede da Novak era um monstro de vidro e metal, mas o andar onde Clara ficava tinha um ar mais humano: mesas juntas, gente falando baixo, alguém rindo em algum canto, um cheiro de café que não era de máquina milionária — era de gente.
Clara estava numa mesa, com duas telas abertas e uma cara de “eu prometi que ia entregar isso ontem”.
— Mareu! — ela sussurrou, levantando só o olhar. — Eu tô terminando uma coisa. Cinco minutos e a gente almoça.
Eu me joguei na cadeira ao lado dela, olhando ao redor.
— Isso aqui é… normal — eu murmurei, como se tivesse acabado de descobrir uma espécie rara.
Clara riu sem tirar os olhos da tela.
— Bem-vinda ao mundo onde as pessoas têm chefe, boleto e crise de Excel.
Eu observei os colegas dela: ninguém me olhando como “a babá”. Ninguém sabendo que eu tinha acabado de virar CLT por desespero e com ajuda de uma criança. Era só… uma sala. Um lugar.
— Deu tudo certo? — Clara perguntou, finalmente olhando para mim com atenção.
— Sim — eu disse. — Eu assinei uns vinte papéis prometendo não respirar perto de ninguém com câmera.
— Isso é o Novak sendo o Novak — ela disse, satisfeita. — Ele deve ter um termo de confidencialidade pra abrir a geladeira.
— Eu poderia te confirmar isso, mas talvez eu tenha assinado um termo de confidencialidade.
Ela riu e ia responder quando um vento de caos elegante entrou pela porta da sala.
Ele não entrou; ele invadiu. Sem bater, sem pedir, com paletó no braço e um copo de café na mão, como se fosse dono do andar inteiro. E, quando Clara levantou a cabeça, eu vi: ela ficou… diferente.
Não era uma mudança grande. Era só um ajuste mínimo: endireitou a postura, passou a mão no cabelo como se não tivesse passado, engoliu em seco como quem engole uma frase.
Ah.
Entendi.
Eu mordi o canto da boca para não sorrir.
Ele veio direto na mesa dela.
— Clara, meu amor corporativo, preciso de você por dois minutos — ele disse, casual, como se “amor corporativo” fosse uma categoria no imposto de renda.
— Oi, Henrique. — Clara respondeu rápido demais. Profissional demais. Sem graça demais.
Eu olhei para o outro lado com a expressão mais inocente do mundo, porque eu era uma boa amiga.
Mentira. Eu estava me divertindo.
Henrique falou alguma coisa de trabalho — números, prazo, uma assinatura, um “o Logan quer pra ontem” — e Clara concordou com a cabeça como se estivesse numa reunião de conselho, não numa sala comum.
Aí ele finalmente me viu de verdade. O olhar dele passou por mim e parou, curioso.
— Então você é a nova babá, hein?
Eu endireitei a coluna instintivamente.
— Ah… sim. Eu mesma, a “nova babá”. Mas pode chamar de Mareu também.
Henrique sorriu com aquele ar de quem conhece todos os segredos do mundo, mas escolhe quais contar.
— Boa sorte — ele disse, como se estivesse me entregando um capacete antes de eu entrar numa arena. — E, olha… se o Logan for muito cruel com você, tem um jeito de ganhar ele.
Eu me inclinei, como quem não quer nada. Mentira. Eu queria desesperadamente a fofoca.



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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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