— Você vai adorar o restaurante — Clara disse, apertando o passo. — É a sua cara.
— Minha cara de quando? — Eu perguntei. — De antes ou de depois de eu virar CLT?
Clara riu, aquele riso de quem não pode rir alto porque ainda está em horário comercial.
— De antes. Restaurante de rica. Você vai se sentir em casa.
Eu olhei para ela, atravessando a calçada com a minha pastinha fina na mão como se fosse um diploma falso.
— Eu só não estava acostumada a uma coisa — eu disse.
— O quê?
— Pagar.
Clara fez um gesto com a mão, como se eu tivesse dito “ai, que vento”.
— Ah, não se preocupa. Eu cuido disso.
Eu parei no meio do caminho.
— Desde quando você tem dinheiro pra isso?
— Eu não tenho — Clara respondeu, com a tranquilidade de quem anuncia que não tem extintor numa casa pegando fogo.
Eu pisquei.
— Então… a gente vai escolher lavar pratos ou fugir pela janela do banheiro?
Clara sorriu. Um sorriso perigoso.
— Nenhum dos dois. O senhor Novak e o senhor Alencar sempre almoçam lá — ela explicou, como se estivesse me contando a rota de um assalto. — Isso rende crédito de fidelidade. Tipo pontos. Eles nunca usam.
Eu parei de andar de novo.
— E você usa?
Clara levantou o queixo, ofendida.
— Eu? Jamais — ela sustentou o olhar por dois segundos inteiros antes de quebrar. — Tá, eu uso. Se não usar, expira. A gente alterna entre as detentoras desse segredo: A Irmandade do Crédito do Bilionário — Clara disse, com solenidade. — Essa semana é minha.
O restaurante ficava a três quadras dali, e bastou a gente cruzar a porta para eu sentir o meu corpo lembrar de um mundo antigo. Ar condicionado na temperatura de “mulher não pode suar”, cheiro de perfume caro misturado com o de comida quentinha, garçons deslizando em silêncio, taças que brilhavam como se tivessem sido polidas com ego.
Clara cumprimentou o maître como se fosse parte do cenário.
— Boa tarde, Clara — ele disse, com um sorriso treinado. — Mesa de sempre?
Mesa de sempre.
Eu olhei para ela com a acusação pronta, mas Clara só me puxou pelo braço e sussurrou:
— Confia em mim. Hoje a gente é rica de mentira.
— Eu prefiro ser rica de verdade — eu murmurei, mas fui mesmo assim.
Sentamos num canto com uma vista bonita o suficiente pra me lembrar que eu já frequentei lugares assim sem precisar pensar em absolutamente nada além de “fica bem na foto?”.
Clara nem abriu o cardápio direito.
— Hoje você pede o que quiser. Sem olhar preço.
— Eu nunca olhava preço — eu disse, automática. — Eu só… normalmente não sou eu que descubro quanto custou depois.
Clara riu daquele jeito de quem sabe demais.
O garçom apareceu, impecável, com aquela educação que parece treinada em internato.
— Boa tarde, senhoritas. Posso oferecer algo para começar?
Eu sorri com a naturalidade de quem nasceu sendo bem atendida.
— Um vinho — eu disse, sem hesitar. — Um Bellucci. Você escolhe.
Clara arqueou a sobrancelha, divertida, e completou, olhando direto pro garçom como se assinasse um pacto:
— Pode colocar na conta… de sempre.
Ele não piscou. Só assentiu com um “certamente”, que me deu a exata medida do quanto Logan e Henrique deviam gastar ali, antes de se retirar.
Clara fez um brinde no ar, a taça ainda vazia.
— À Irmandade.
— À Irmandade — eu concordei, e só então percebi que eu tinha sentido falta disso: a gente fingindo que o mundo é leve, mesmo quando ele tá sentado no nosso peito.
Eu apoiei o queixo na mão.
— Então.
Clara me olhou.
— Então o quê?
— Aquele Henrique — eu disse, doce, perigosa. — Você nunca me disse que… tinha uma quedinha pelo seu chefe.
— O quê? Não! — Clara respondeu rápido demais, com um volume alto demais para um restaurante onde até o gelo parece sussurrar.
Eu sorri.
— Claro que tem.
Clara apertou os lábios, tentando segurar o sorriso, mas perdeu.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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