~ CLARA ~
Eu saí do altar com a pior combinação possível para uma madrinha de casamento: salto alto, sorriso social e um pressentimento horrivelmente incomodo.
Fiz isso discretamente, claro. Ou pelo menos tão discretamente quanto conseguia fazer sem chamar atenção do salão inteiro.
O problema é que Logan estava certo.
Mareu estava demorando demais.
Muito além do atraso charmoso.
Muito além da tradição da noiva que quer fazer suspense.
Muito além do aceitável.
Alguma coisa tinha acontecido.
Apertei o botão do elevador com uma força que talvez fosse desnecessária, como se a violência do meu dedo pudesse convencer a tecnologia do Milani a cooperar com a minha ansiedade. O número do andar parecia subir em câmera lenta. Eu conseguia ouvir meu próprio coração batendo mais alto do que a música que vinha abafada do salão lá embaixo.
Mareu não podia ter desistido.
Não agora.
Não outra vez.
Não depois de tudo o que ela tinha vivido.
Não depois de ter conhecido Logan Novak, se apaixonado por Logan Novak e, mais importante ainda, finalmente parado de fugir de uma felicidade que ela merecia desde sempre.
Ela vinha falando daquele casamento como o dia mais feliz da vida dela.
Do vestido.
Da Olívia de daminha.
Do Milani.
Do altar.
Do “sim”.
Se Mareu tivesse surtado e resolvido fugir por qualquer motivo que fosse, eu ia matá-la.
Depois ia ressuscitá-la para apoiá-la, claro. Porque esse era o dever moral, ético e quase contratual de uma melhor amiga. Mas ainda assim, primeiro eu a mataria. E talvez, dependendo do surto específico, matasse uma segunda vez depois de todo o apoio.
As portas do elevador se abriram.
Saí no corredor já andando rápido demais para um ser humano minimamente elegante, os saltos batendo no carpete grosso num ritmo seco e irritado.
— Eu queria muito entender — murmurei para mim mesma — por que fui ter o carma de ser melhor amiga de uma doida.
Virei a esquina do corredor.
E parei.
Porque o quarto da noiva estava com uma movimentação errada.
Não “errada” no sentido de maquiagem, véu ou cerimonialista surtando com atraso.
Errada de verdade.
Tinha gente demais ali.
Médicos.
Uma maca.
Um dos profissionais saía do quarto com uma bolsa de emergência na mão enquanto outro falava alguma coisa rápida no rádio. A porta estava aberta. A luz mais forte. O ar… o ar parecia diferente.
Meu corpo inteiro gelou.
Não pensei mais.
Corri o resto do caminho.
— Mareu!
Entrei praticamente esbarrando em alguém e cheguei a tempo de vê-la sendo colocada na maca.
Pálida.
Mole.
O vestido branco arruinado por vermelho.
Meu cérebro recusou aquilo por um segundo inteiro.
— Não… não… — ouvi minha própria voz dizer, mas ela parecia vir de muito longe. — O que está acontecendo aqui?
Foi então que ouvi a Olívia.
Gritando.
Chorando.
A voz mais desesperada que eu já tinha escutado sair daquela menina.
— Não! Não! Mareu! MAREU!
Olhei para o lado e a vi agarrada à mão da Mareu com uma força quase absurda para um corpo tão pequeno, enquanto a cerimonialista tentava afastá-la sem machucá-la e sem conseguir fazer absolutamente nada.
Lá embaixo.
No altar.
— Tudo bem, mas… eu deveria ir junto com a Mareu, eu…
Ela repetiu, agora mais firme, como se precisasse me dar uma ordem para que eu não desabasse ali também:
— Cuida da menina. Nós cuidamos do resto.
Eu fiquei parada por um segundo, dividida entre o impulso de correr atrás da Mareu e o de voltar para o quarto onde Olívia, aos pedaços, provavelmente achava que o mundo tinha explodido de novo.
Escolhi Olívia.
Porque, no fundo, Mareu me mataria se eu não escolhesse.
Voltei para o quarto rápido demais e fechei a porta atrás de mim.
O quarto que, poucos minutos antes, estava cheio de perfume, tule, emoção, maquiagem e vestido de noiva agora parecia cenário de assalto. Coisas fora do lugar. Véu no sofá. Um copo de água esquecido. Maquiagem espalhada. E, no canto, encolhida, estava a Olívia.
Ela ergueu os olhos quando me viu.
Os olhos arregalados.
Vermelhos.
Tomados daquele medo cru que nenhuma criança deveria conhecer tão bem.
— A Mareu vai ficar bem, não vai?
A pergunta me atravessou.
Sem defesa.
Sem qualquer chance de resposta honesta.
Fui até ela e a puxei de novo para um abraço.
Dessa vez, mais apertado.
Mais inteiro.
Quase como se eu estivesse tentando segurar ali, ao mesmo tempo, a menina, a mim mesma e o resto da sanidade possível naquele quarto.
— Claro que vai, meu amor — menti.
Porque era isso ou cair de joelhos no chão ao lado dela e chorar também.
E, no fundo, tudo o que eu queria fazer naquele momento era exatamente isso. Me encolher ali, no carpete caro do quarto da noiva, ao lado da Olívia, e deixar o pânico me tomar inteira.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...