~ MAREU ~
Acordei confusa. Não de um sono normal. Não daquele tipo de acordar em que a pessoa primeiro estranha o travesseiro e depois lembra do próprio nome. Foi como se a consciência tivesse voltado aos pedaços, no meio de um corpo que doía demais e de uma luz branca tão forte no teto que parecia querer atravessar meus olhos.
Pisquei.
O teto se movia.
Não. Eu é que estava me movendo.
Os rostos acima de mim vinham e iam em borrões de máscara, touca, luvas e vozes rápidas demais. O ar tinha gosto de metal, medo e alguma coisa química. Minha barriga doía. Não como nervosismo. Não como cólica. Não como nada que eu já tivesse sentido direito. Era uma dor que tomava espaço. Que apertava tudo. Que parecia maior do que eu.
Tentei engolir.
Minha boca estava seca.
— O quê…? — murmurei, a voz saindo fraca, arranhada. — Onde eu tô…?
Um médico à frente da maca inclinou o rosto na minha direção. Eu não conseguia focar bem nele, só na faixa azul da roupa, no brilho dos olhos por trás da máscara e na calma treinada de quem não tinha tempo para pânico alheio.
— Senhora, a senhora está sob cuidados agora. Precisa tentar se acalmar.
Era tudo tão caótico. Tão asséptico. Tão branco.
Branco.
A palavra bateu em mim do jeito errado e, por um segundo, meu cérebro tentou devolvê-la ao vestido, ao altar, ao dia que eu devia estar vivendo.
Meu coração tropeçou.
— Não… — soltei, tentando erguer a cabeça. — Não… mas eu preciso me casar… eu preciso voltar lá e me casar…
Minha voz soou ridícula no corredor do hospital. Fraca demais. Pequena demais. Como se não tivesse força nem para a própria insistência. Mas aquilo era a única coisa sólida dentro da nuvem cada vez mais pesada na minha cabeça.
Eu precisava voltar.
Eu precisava ir até Logan.
Eu precisava fazer aquilo acontecer.
O médico tentou manter o tom firme e baixo.
— Senhorita Valença, por favor, se acalme.
— Logan tá me esperando — insisti, sentindo o desespero subir mais rápido do que o ar nos meus pulmões. — Ele vai achar que eu desisti… vai achar que eu fugi… eu preciso… eu preciso…
Tentei me levantar.
Ou achei que tentei.
Porque meu corpo mal obedeceu. Só senti mãos me segurando. Uma voz falando alguma coisa do lado esquerdo. Outra do lado direito. A maca não parava. A luz no teto continuava me cortando os olhos.
— Contém ela — alguém disse. — Ela está perdendo muito sangue.
Sangue.
A palavra entrou e ficou.
Meu cérebro tentou buscar o resto.
Vestido branco.
Espelho.
Vermelho.
Olívia gritando meu nome.
A dor.
Meu Deus.
Minha filha.
A bebê.
— Minha… filha... — comecei, mas a frase não terminou.
Sentia alguma coisa sendo ajustada no meu braço. Uma pressão. Um frio entrando na veia. O corpo ficando pesado de um jeito errado. Eu queria me mexer, queria pedir, queria mandar alguém fazer sentido, mas minhas mãos já não pareciam mais minhas.
O corredor virou um borrão ainda mais feio.
E, no meio desse borrão, eu ouvi.
Uma voz mais alta que todas as outras, rachada, cortando o ar com o meu nome dentro.
— MAREU!
Meu peito tentou responder antes da minha boca.
Virei o rosto do jeito que consegui, procurando, tentando encontrar alguma coisa nítida no meio das luzes, das máscaras, do teto e do medo.
— Tô… — tentei dizer. — Tô aqui…
Mas só saiu um ruído fraco, miserável.
As lágrimas vieram antes da lucidez.
Eu não queria que Logan me visse daquele jeito.
— Senhor, o senhor precisa se afastar agora.
Logan nem olhou para o médico. Continuou olhando para mim.
— Não.
Mãos ajustaram coisas ao meu redor. O corredor parecia mais frio. Mais branco. Mais longe do altar.
— Senhor, por favor — a voz insistiu. — Nós precisamos levá-la. Você precisa se afastar.
Logan ergueu a cabeça.
Vi o rosto dele endurecer daquele jeito que eu conhecia bem. O jeito do homem que não aceitava ordens.
— Eu não vou a lugar nenhum — disse, baixo e firme. — Essa é a mulher da minha vida. A mãe da minha filha. Eu não vou sair do lado dela.
Quis sorrir.
Acho que até consegui um quase nada no canto da boca.
Mas a dor veio mais forte.
Uma fisgada profunda, cruel, fazendo meu corpo inteiro se fechar por dentro.
Soltei um gemido que mais parecia um sopro rasgado.
Os médicos se moveram mais rápido. Alguém falou alguma coisa sobre pressão. Outra voz respondeu. O braço que segurava o soro foi erguido. A maca voltou a andar.
Logan tentou acompanhar.
Não deixaram.
Eu vi quando uma mão segurou o peito dele para contê-lo, e alguma coisa dentro de mim entrou em pânico de verdade.
— Logan…
Não sei se saiu alto ou não.
Não sei se ele ouviu ou leu nos meus lábios.
Só sei que ele tentou vir de novo.
E foi então que o médico parou um segundo, encarou Logan de frente e falou num tom que finalmente tinha abandonado qualquer delicadeza social:
— Senhor, o senhor não está entendendo. Estamos lidando com uma situação muito delicada aqui. Sua esposa precisa ir para o centro cirúrgico agora.
E foi nesse instante que eu entendi que ninguém mais estava tentando me levar de volta para o casamento.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...