~ LOGAN ~
Eu voltei para o hospital antes de o dia nascer direito.
Na verdade, tecnicamente o dia já tinha nascido. O céu tinha deixado de ser preto e assumido aquele azul pálido e sem coragem das manhãs que ainda não decidiram se vão ser bonitas ou cruéis. Mas, para mim, tudo continuava preso no dia anterior.
Eu tinha dormido pouco. Mal. Dormido nem era a palavra certa. Fechar os olhos por intervalos curtos enquanto o corpo desligava à força parecia uma definição mais honesta.
Mesmo assim, eu precisava estar de pé. Precisava estar ali. Precisava continuar fazendo o que eu vinha fazendo desde que o mundo saiu do eixo: andar entre portas automáticas, corredores silenciosos e notícias que nunca vinham inteiras.
Passei primeiro pela neonatal.
Não me deixaram entrar naquele momento. Era cedo demais para a troca do plantão terminar, e a enfermeira, embora gentil, foi firme ao pedir que eu esperasse. Ainda assim, permitiu que eu me aproximasse do grande vidro.
Foi o suficiente para parar tudo dentro de mim outra vez.
A “menina Novak” estava ali.
Tão pequena que ainda me parecia absurdo chamá-la de bebê sem algum adjetivo de proteção junto. Pequena, frágil, minúscula. Cercada por aparelhos, luzes suaves e monitores que piscavam com uma calma técnica que eu invejava. Havia qualquer coisa de irreal em vê-la daquele lado, separada de mim por um vidro transparente, como se o universo tivesse decidido me mostrar o milagre e a impotência na mesma imagem.
Eu encostei a mão no vidro por puro reflexo, sabendo perfeitamente que ela não sentiria.
— Bom dia, pequena — murmurei, embora ninguém do outro lado pudesse ouvir.
Ela não abriu os olhos. Não mexeu um dedo. Continuou ali, lutando de um jeito silencioso, infinitamente mais digno do que muito adulto que eu conhecia.
Meu peito apertou com força.
Eu queria entrar. Queria chegar perto. Queria segurar aquela criança nos braços e, ao mesmo tempo, tinha medo do simples pensamento de que ela coubesse inteira neles.
Mas havia outra porta me esperando.
Mareu.
A enfermeira me indicou a sala de espera onde eu deveria aguardar o médico. O corredor da UTI adulta estava mais quieto naquela hora, menos povoado, como se até a dor respeitasse o horário da manhã e falasse mais baixo antes das oito.
Sentei, levantei, tornei a sentar. Conferi o celular sem realmente ler nada. Henrique tinha mandado uma mensagem, Cath outra, Clara outra. Samira avisava que Olívia tinha acordado mais tranquila. O mundo seguia me enviando informações em pequenas caixas organizadas enquanto a única coisa que eu queria saber estava atrás de uma porta fechada.
Quando o médico apareceu, eu já estava de pé antes mesmo de perceber.
Ele me cumprimentou com a expressão séria de quem aprendeu a dosar esperança para não parecer imprudente.
— Senhor Novak.
— Doutor.
Ele fez um gesto discreto com a cabeça. Eu já conhecia aquele ritual. Más notícias, boas notícias, notícias em suspensão... todas costumavam começar com o mesmo cuidado medido.
Mas, dessa vez, a voz dele veio menos dura.
— Ela está estável. Nós já começamos a reduzir a sedação aos poucos.
O ar pareceu entrar melhor nos meus pulmões, embora ainda doesse.
— Ainda é cedo — ele continuou. — Então ela pode continuar bem sonolenta e confusa, mas existe a chance de responder a estímulos simples. Pode ser um movimento dos dedos, um piscar, talvez abrir os olhos por alguns segundos. Se isso acontecer, é um bom sinal.
Eu prendi a respiração de uma vez.
— Pode conversar com ela. Mesmo sedada, a sua voz pode ajudar.
Por um segundo, tudo o que consegui fazer foi assentir.
— Eu posso vê-la agora? — perguntei, e odiei a urgência quase infantil da minha própria voz.
— Pode. Mas eu preciso que o senhor entenda que ela ainda está intubada. Pode haver alguma reação, ou pode não haver nenhuma. Nenhuma dessas possibilidades, neste momento, é necessariamente um retrocesso.
Assenti de novo.
Eu estava começando a odiar a quantidade de vezes que assentia sem realmente ter controle de nada.
Uma enfermeira veio me buscar poucos minutos depois. Eu a segui por aquele corredor limpo demais, iluminado demais, organizado demais para conter tanta desordem humana. O som dos meus próprios passos pareceu alto. Ou talvez fosse o meu coração.
Quando ela abriu a porta, eu entendi, de novo, que nenhuma preparação verbal era suficiente.
Eu tinha acabado de olhar para a minha filha viva atrás de um vidro.
Viva.
Pequena, prematura, cercada de cuidados, mas viva.
E agora Mareu estava ali.
Também viva.
Só que a palavra parecia funcionar de outro jeito naquele quarto.
Mareu estava deitada no leito, pálida demais, imóvel demais, o cabelo parcialmente preso e parcialmente espalhado pelo travesseiro de um jeito cruelmente doméstico para um cenário tão hospitalar. O tubo saía da boca, fixado com cuidado técnico. Os braços tinham acessos. Havia uma fragilidade em tudo aquilo que me bateu no peito com a violência de um soco.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...