Henrique estava parado perto da nossa mesa como se tivesse acabado de sair de um comercial de café caro.
E eu soube. Soube do jeito mais cruel possível: do jeito que a sua alma sabe as coisas antes de você ter tempo de fingir.
Ele tinha ouvido.
O “Logan Novak é um puta de um gostoso” ainda estava ecoando dentro da minha cabeça como se eu tivesse gritado no microfone do restaurante inteiro.
Eu peguei a taça de vinho como quem agarra um colete salva-vidas e tomei um gole grande demais, rápido demais, com a elegância de uma gazela desesperada.
O vinho foi direto pro lugar errado.
Eu engasguei.
Tossi.
E aquele som saiu alto o suficiente pra virar um anúncio: “Boa tarde, eu acabo de falar bobagem e agora estou morrendo por dentro.”
Henrique inclinou a cabeça, educado, como se ele não tivesse acabado de testemunhar a minha humilhação pública.
— Tá tudo bem?
Eu balancei a cabeça afirmativamente, ainda tossindo, como se isso resolvesse.
— Tá — eu consegui dizer. — Eu só… esqueci como se bebe líquidos, aparentemente. Não que dê pra beber sólidos, mas... Sabe... eu esqueci... como calar a boca também.
Clara já estava com a mão no meu braço, pronta pra me puxar pra debaixo da mesa e declarar que eu tinha alergia a bilionário.
Henrique sorriu — aquele sorriso que parece sempre pronto, mas nunca parece forçado — e olhou por cima do meu ombro.
— Aqui — ele fez um gesto discreto, chamando alguém. — Vem cá um minuto.
Eu vi a sombra antes de ver o homem.
Logan Novak se aproximou com a cara de Logan Novak. Não era uma expressão, era um estado de espírito. Ele parecia sempre a dois segundos de dar bronca em alguém por existir.
Henrique falou com a naturalidade de quem tem intimidade suficiente pra ser imprudente.
— Vamos nos juntar às senhoritas Clara e Mareu.
A palavra “senhoritas” soou chique demais pra alguém que tinha acabado de se engasgar com o próprio orgulho.
Henrique completou, com charme calculado e absolutamente dentro dos limites do “posso flertar sem virar processo”:
— Até porque não tem como o dia ficar ruim quando tem tanta beleza sentada na mesma mesa.
Clara derreteu. Eu vi o colapso interno. Ela tentou segurar o sorriso e falhou miseravelmente — o que resultou num som estranho escapando dos lábios dela.
Logan, por outro lado, ficou com a expressão ainda mais Logan.
— Existem muitas mesas vagas — ele disse, num tom seco. — Não quero incomodar as senhoritas.
“Não quero incomodar” se traduzia como: “Henrique, eu não vou sentar aqui com subordinados.”
Henrique virou pra Clara como quem abre uma votação que já está comprada.
— A gente incomoda?
Clara piscou. Respirou. E escolheu a ruína.
— Claro que não.
Eu olhei pra ela com uma mistura de amor e vontade de processar por danos morais.
Henrique abriu um sorriso vitorioso.
— Então pronto.
E pronto mesmo: ele puxou a cadeira e se sentou. Logan ficou um segundo parado, olhando pro nada como se estivesse reconsiderando todas as escolhas que o trouxeram até ali — inclusive nascer.
Depois se sentou também, contrariado, do meu lado.
Era oficial: a mesa do almoço clandestino virou a mesa do “por que Deus me odeia?”
Eu trouxe a taça até a boca de novo, devagar, com medo do vinho me trair duas vezes no mesmo almoço.
— Mareu, né? — Henrique falou, olhando pra mim com uma curiosidade leve demais. — Eu gostei do nome.
— É apelido — eu respondi, automática.
— Apelido bom — ele comentou, elogioso. — Tem cara que pega.
— Pega de jeito.
Eu disse e só depois percebi a frase. Clara me chutou por baixo da mesa.
Henrique riu, como se eu fosse engraçada por acidente.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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