~ LOGAN ~
A frase da Olívia não saía da minha cabeça.
Eu já tinha assinado contratos com oito zeros, fechado aquisições em ligação de quinze minutos e decidido destinos de centenas de pessoas com um “sim” ou “não” dito no tom certo. Mas nada disso exigia o tipo de coragem que aquela frase exigia.
“E às vezes eu acho que… não tenho pai também.”
Eu abri o mesmo documento pela terceira vez. Li as mesmas linhas. Não absorvi nada. O cursor piscava na tela como um deboche.
Era isso que eu fazia. Eu ocupava a mente até ela ficar cheia demais para qualquer coisa que importasse entrar. Transformava dor em agenda, culpa em reunião, luto em planilha.
Meu nome foi dito ao longe. Uma vez. Duas. Três, até a palavra atravessar o vidro da minha concentração e me puxar de volta ao escritório.
— Logan.
Levantei os olhos.
Henrique estava sentado na cadeira em frente à minha.
— Você entrou sem bater — eu observei.
— Eu bati. Você ignorou. — Ele apontou para a tela. — Tá, vamos fazer uma pausa. Você tá com a mesma cara desde ontem.
Eu passei a mão pela nuca, tentando afrouxar um nó que não era físico.
— Acho que é uma boa. Eu não tô lembrando nem mais o meu nome.
Henrique inclinou a cabeça, como se tivesse acabado de receber autorização para mexer com algo perigoso.
— Por falar em nome… qual é mesmo o nome da babá? Da moça que almoçou com a gente ontem?
Eu empurrei as folhas para o canto, alinhando sem necessidade.
— Henrique, eu já disse que isso é fora de cogitação. E da próxima vez que você me fizer sentar numa mesa pra fingir que eu sou amiguinho de funcionárias, eu mando o compliance auditar a sua vida amorosa. Linha por linha.
Ele riu, porque Henrique ria de ameaças como quem as coleciona.
— Não é isso. É só curiosidade. Ela disse “Mareu”. Mareu de quê?
— Sei lá — Eu dei de ombros, o gesto mais próximo de desinteresse que eu conseguia oferecer.
Henrique ergueu uma sobrancelha.
— Você não investiga seus funcionários? Especialmente as que aparecem do nada e deixam você… menos previsível.
— Ela não apareceu do nada — eu corrigi. — Ela veio por indicação do RH. Eles fazem verificação, antecedentes, referências. Eu não preciso brincar de detetive com a babá dos meus filhos, como você estava fazendo ontem ao enchê-la de perguntas.
— Meu interesse é profissional — Henrique disse, e a palavra “profissional” na boca dele tinha um brilho suspeito. — Ontem eu fiz umas perguntas? Sim. Eu queria ter certeza de que ela não era um tipo de psicopata simpática.
— E concluiu o quê?
Henrique abriu a boca, mas antes que qualquer coisa saísse, a batida na porta veio.
— Com licença, senhor — a minha secretária entrou com um tablet na mão, postura impecável. — A escola conseguiu intermediar uma reunião com os responsáveis pela aluna com quem Olívia teve a briga física. Para segunda-feira que vem. Posso confirmar?
Eu senti um músculo no meu maxilar se contrair.
— Confirma. Coloca na minha agenda. — Olhei para o relógio como se o tempo fosse um inimigo pessoal. — E bloqueia esse horário.
— Sim, senhor.
Ela saiu e voltou a fechar a porta.
Henrique ficou me encarando como se eu tivesse acabado de confessar um crime.
— A Olívia bateu numa menina na escola? — ele perguntou, devagar. — Bateu?
— Briga física — eu disse, sem querer repetir as palavras da diretora e, ao mesmo tempo, preso nelas.
Henrique soltou uma risada curta, quase orgulhosa.
— Essa é minha garota.
Eu levantei o olhar para ele.
Ele levantou as mãos, como se não entendesse minha irritação.
— O quê? Você preferia que ela ficasse apanhando calada? Que ela virasse estatística? Ela fez o que tinha que fazer.
— Ela tem seis anos — eu respondi, mais baixo do que pretendia. — Seis. E eu não sei o que fazer com isso.
Henrique me olhou por um segundo sem piada nenhuma no rosto.
— Ela tá sofrendo bullying — eu disse, e a palavra ainda tinha gosto de ferrugem.
Henrique assobiou, agora sim preocupado.
— Ela parece ter doze — eu continuei, a voz dura. — Ou mais. Fala como adulta. Suspira como adulta. Segura tudo como… como se fosse responsabilidade dela.
— Vou.
— Num… cruzeiro corporativo? Em um navio cheio de investidor chato? — Henrique apontou, incrédulo. — Só você e ela?
Eu apertei o botão do elevador.
— Claro que não.
Henrique respirou aliviado por meio segundo.
— Então quem?
Eu não olhei para ele quando respondi, porque a resposta era simples e, ao mesmo tempo, carregava uma complicação que eu ainda não tinha nomeado.
— A babá vai junto.
Henrique soltou um suspiro longo, resignado, e então a expressão dele mudou. O tipo de mudança que eu odiava: a de quem tem informação.
— Tá. Ok. Mas tem uma coisa sobre a Mareu que você precisa saber...
As portas do elevador abriram.
Eu entrei.
— Qualquer coisa que eu precise saber sobre trabalho pode esperar até segunda-feira.
Henrique deu um passo para dentro do elevador, insistindo.
— Mas não é sobre tra...
— Henrique. — Eu o interrompi no tom que eu usava quando eu precisava que o mundo obedecesse. — Segunda-feira.
Ele ficou parado no corredor, a mão no vão da porta, como se medisse se valia a pena desobedecer.
— Logan… — ele tentou, baixo, urgente.
Eu encarei o olhar dele por um segundo.
E apertei o botão.
A porta fechou.
Fosse o que fosse, iria esperar.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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