~ HENRIQUE ~
Assim que a porta do elevador engoliu Logan Novak, o andar pareceu respirar de novo.
Não porque ele fosse um monstro — embora muita gente no prédio apostasse que sim —, mas porque Logan carregava um tipo específico de gravidade. Ele entrava num ambiente e as coisas se alinhavam: papéis, pessoas, intenções. Até o ar ficava mais eficiente.
Eu voltei para a minha sala com essa sensação grudada na nuca e fechei a porta atrás de mim.
Sentei, encostei os dedos na mesa e fiquei olhando para o nada por exatos três segundos, como se isso fosse uma pausa. Não era. Pausa de verdade é quando a cabeça para de trabalhar. A minha não parava.
O nome tinha batido na minha retina como placa de trânsito: rápido, inevitável, impossível de “desver”.
Eu não tinha visto de propósito. O RG tinha escorregado da pasta da Mareu, eu me abaixei, peguei, entreguei… e meu cérebro, maldito, fez o que sempre fez: leu. Registrou. Catalogou.
Maria Eugênia Valença.
Eu tinha fingido normalidade, porque a alternativa era gritar no meio de uma sala cheia de funcionários e eu gosto de manter meus surtos em ambientes privados.
Valença não era sobrenome que você via em crachá. Valença era sobrenome que você via em placa de doação, em matéria de revista, em “gala beneficente” com foto de gente bonita fingindo que não nasceu milionária.
E Maria Eugênia… Maria Eugênia Valença era um nome diferente demais para ser uma simples coincidência.
Eu apoiei o cotovelo na mesa.
Certo. Eu podia fazer duas coisas.
A primeira era correr atrás do Logan e despejar a informação no colo dele como uma bomba. “Surpresa, chefe: você contratou uma babá e ela a sua noiva fugitiva.” Isso seria divertido por… vinte segundos. Depois seria um desastre.
A segunda era confirmar antes de falar qualquer coisa. Porque se tinha uma regra número um na vida, era essa: não mexer com a cabeça do Logan sem ter certeza de que o chão estava firme.
Eu peguei o telefone interno.
— Clarice? — chamei, e a voz da minha secretária veio carregada de profissionalismo.
— Pois não, Sr. Alencar.
— Me faz um favor? Chama a Clara Ribeiro aqui. Agora.
— Sim, senhor.
Eu desliguei e me recostei na cadeira, pensando em como eu ia conduzir aquilo sem parecer… aquilo.
Porque eu podia ser muitas coisas, mas “investigador mal disfarçado” não era uma delas. Eu era o cara que faz piada. Eu era o cara que entra sem bater. Eu era o cara que consegue informação porque as pessoas esquecem que ele está fazendo perguntas.
Dois minutos depois, Clara bateu na minha porta com a delicadeza de quem sempre pede desculpas por existir.
— Com licença, senhor Alencar... Pediu para me ver?
Ela entrou com a postura de “será que eu fiz algo errado?”. Eu sorri.
— Clara. Senta.
Ela olhou a cadeira como se ela pudesse morder.
— É… é sobre algum documento do Sr. Novak? Porque eu posso...
— Clarinha — eu interrompi, num tom leve, e vi a micro expressão dela: incômodo e, ao mesmo tempo, o reflexo automático de achar o apelido simpático. — Você sabe que pode me chamar de Henrique.
— Estamos em horário de trabalho, Sr. Alencar — ela respondeu, correta, mas eu peguei o canto da boca tentando subir.
Ah. Então ela tinha limites. Perfeito. Limites são bons. Limites tornam tudo mais divertido.
— Relaxa. Não é nada demais. É sobre a sua amiga.
Clara piscou, a palavra “amiga” chamando atenção.
— Mareu?
— Ela. — Eu apoiei os braços na mesa. — O RH me pediu para confirmar umas informações para a ficha dela.
Clara franziu a testa.
— Mas… vocês têm o telefone dela, né?
— Temos, temos — eu sorri como se isso fosse normal. — Só que ela não está atendendo e o pessoal tá com pressa pra fechar a documentação. E… — eu abri as mãos, teatral — nada que a melhor amiga dela não saberia, certo?
Clara hesitou. Eu vi o cuidado. Ela não era ingênua. Isso era bom também.
— Eu posso tentar ajudar no que eu puder — ela disse, por fim, com aquela lealdade de quem protege a amiga até em formulário.
— Ótimo. — Eu peguei uma caneta e um bloco, fingindo burocracia. — Data de nascimento.
— Quatro de dezembro de mil novecentos e noventa e oito.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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