~ LOGAN ~
Eu cheguei em casa cedo demais para o que eu estava habituado.
A mansão estava naquele silêncio de fim de tarde — ar-condicionado perfeito, piso que não range, funcionários que se movem como se tivessem sido treinados para não existir. Em dias normais, eu apreciaria. Hoje, parecia incomodo.
Eu atravessei o hall e encontrei Olívia na sala, sentada com um caderno aberto e uma caneta na mão, como se “suspensa” fosse só um detalhe administrativo.
Mareu estava perto, com aquele jeito dela de estar presente sem parecer submissa: atenção no ambiente, mas sem pedir permissão para ocupar espaço.
Olívia levantou o olhar primeiro. E eu vi ali, ainda antes de qualquer palavra, o eco do que ela tinha me dito. A frase que vinha me atormentando o dia inteiro.
Às vezes eu acho que não tenho pai também.
Eu engoli. Não era o tipo de coisa que se resolve com “filha, me desculpa”. Eu não era bom com o que não tinha protocolo.
Então eu fiz o que eu sempre fazia: comecei pela logística.
— Amanhã nós viajamos.
Olívia piscou.
— Nós quem?
— Eu. Você. Mareu.
O silêncio durou um segundo. Depois, Olívia soltou o ar pelo nariz do jeito mais dramático que uma criança de seis anos e meio consegue.
— Uau. Você realmente caprichou no castigo.
Mareu virou o rosto para disfarçar um sorriso. Eu ignorei os dois.
— Não é castigo. É uma viagem de trabalho.
— Pior — Olívia respondeu, como se fosse óbvio. — Castigo com palestra.
— Não vai ter palestra — eu disse.
— Vai ter você em reuniões — ela retrucou. — O que é uma palestra. Só que mais cara.
Mareu mordeu o canto do lábio com força, segurando o riso. Eu senti, com uma irritação absurda, que ela se divertia demais com a insolência da minha filha.
— Você está suspensa — eu lembrei Olívia, no meu tom de “isso encerra a discussão”.
Ela ergueu o queixo.
— Eu já percebi. Obrigada por relembrar meu histórico criminal.
Eu respirei.
— Eu preciso de você perto de mim essa semana.
As palavras saíram antes que eu as revisasse. Eu quis arrancá-las do ar.
Olívia ficou quieta por um instante, como se estivesse tentando entender se aquilo era… sentimento. Aí ela fez a coisa mais Olívia possível:
— Isso vai estar por escrito?
— Não.
— Então eu vou considerar que você pode “desprometer” a qualquer momento — ela decretou.
— Olívia.
— Tudo bem. Eu vou. — Ela levantou do sofá com o peso de quem está indo para uma sentença em regime fechado. — Mas eu quero deixar registrado que sou contra.
Eu virei para Mareu.
— Arruma as malas. A dela e a sua. Você vai com a gente.
Mareu abriu a boca como se fosse perguntar “por quê”, mas teve bom senso e trocou por outra pergunta, mais prática.
— E o Liam?
— Ele é muito pequeno para esse tipo de viagem. — Eu disse a frase como se eu não tivesse pensado nela mil vezes. — Vai ficar com a minha irmã. Ela chega amanhã cedo.
Mareu assentiu.
— E… a Helen?
— Vai estar aqui também — eu respondi, breve. — Minha irmã vai precisar de apoio com ele.
Olívia, já a caminho da escada, olhou por cima do ombro.
— Então eu fico cinco dias num navio chacoalhando e o Liam fica aqui com a parte legal da família.
Mareu esperou Olívia sumir no segundo andar para falar, num tom que soava casual demais para ser casual.
— Ela vai reclamar a viagem inteira, só pra constar.
— Eu sei.
— É a forma dela de processar — Mareu deu um meio sorriso. — Eu vou subir.
— Ele só quer uns dias perto de você, Liv.
— A não ser que ele precise de conselhos meus pra fechar algum contrato, a gente nem vai se ver nesse navio — Olívia respondeu. — Ele vai fingir que eu não existo e eu vou fingir que não me importo.
Eu senti a frase bater num lugar que não era confortável.
Mareu demorou um segundo antes de responder.
— Eu acho que você se importa mais do que finge.
Eu devia entrar. Eu devia dizer alguma coisa. Eu devia, talvez, ser pai.
Só que eu fiquei parado, com a mão no batente, ouvindo minha filha dizer a verdade com a crueldade inocente de quem ainda acredita que os adultos deveriam ser melhores.
Mareu se mexeu e eu vi, pela fresta, um gesto simples: ela prendendo o cabelo num coque torto, braços erguidos, pescoço exposto por um segundo.
Foi ridículo, mas meu corpo registrou antes de qualquer pensamento.
A pele dela era só pele. Um pescoço era só um pescoço. E ainda assim… havia naquele movimento uma naturalidade que eu tinha esquecido que existia em pessoas adultas. Como se a vida pudesse ser feita de pequenas coisas sem consequência.
Eu desvie o olhar como se fosse proibido.
— Pelo menos tem piscina — Mareu disse, tentando puxar a conversa de volta para algo que uma criança pudesse aceitar.
Olívia respondeu na hora, sem dó.
— Nós temos três piscinas nessa casa.
— Mas nenhuma delas tem gente chata de terno — Mareu retrucou.
— Você não sabe. Talvez tenha.
Mareu riu de novo e eu senti uma coisa incômoda: alívio. Não por mim. Por Olívia.
Eu devia entrar ali e dizer que tinha ouvido. Eu devia dizer que me importo com ela e quero recuperar nosso relacionamento de pai e filha.
Em vez disso, eu só fiquei mais um segundo, olhando minha filha dobrar roupas com raiva e Mareu tentar transformar o caos em algo manejável, como se arrumar uma mala fosse também arrumar um coração.
E eu entendi, com uma clareza irritante, que se eu estava levando Olívia comigo para “me reaproximar”, eu também estava levando Mareu porque… eu precisava.
Não de uma babá. Não de uma funcionária. De um amortecedor entre mim e o que doía.
Eu recuei da porta antes que elas me notassem.
Se dependesse de Olívia e de Mareu, eu ia ter uma semana muito, muito difícil.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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