O brunch VIP parecia ter sido montado por alguém que acreditava que a humanidade só evoluiu de verdade depois de inventar salmão defumado e taças de cristal.
A mesa era grande o bastante para abrigar um acordo internacional, mas ali estávamos nós cinco e, pelo jeito que Logan Novak segurava a xícara, ele preferia estar assinando um contrato de fusão do que dividindo croissant com… convidados.
Henrique se acomodou com a facilidade de quem conhece o dono da casa (ou do navio) e todas as portas de saída. Clara, ao lado dele, estava com aquele sorriso bonito e perigoso de quem entrou num lugar errado e decidiu agir como se o lugar estivesse errado por não ser dela.
Olívia, claro, parecia a única perfeitamente no seu habitat natural.
Ela mordiscava uma uva como se estivesse analisando um relatório.
Logan não disse nada. Não precisava. A irritação estava ali, polida, encaixada no maxilar, nas pausas longas demais antes das frases.
Eu me mantive… eficiente. Invisível. As duas coisas que eu tinha aprendido a fazer desde que comecei a trabalhar como babá.
Bem, talvez eu não tivesse realmente aprendido.
— Então — Logan falou, finalmente, com o tom que ele devia usar em reuniões que envolviam acionistas e sorrisos —, o que você quer fazer primeiro?
Ele olhava para Olívia como se aquela pergunta fosse um botão capaz de ligá-la no modo “criança feliz”.
Olívia não se moveu. Mastigou com calma e respondeu:
— Deitar na minha cama e ler.
— Ler o quê? — ele insistiu.
— O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde. — ela disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo para uma criança de seis anos e meio.
Henrique fez uma expressão de admiração.
— Clássico — ele comentou.
— É adaptado. Sem partes pesadas — eu disse, antes que alguém surtasse.
Prodígio ou não, eu não ia ser a babá que entrega terror vitoriano puro pra uma criança de seis anos. E meio. Seis anos e meio.
Logan apertou a mandíbula.
— Certo… — Logan respirou. — E no navio? Tem piscina, tem cinema, tem…
— Livros. — Olívia interrompeu, seca. — E cama.
— Você não está nem um pouco animada — ele observou, ainda com aquele esforço de leveza que parecia custar caro.
Olívia deu de ombros.
— Estou animada pra ir pra casa.
A frase caiu na mesa como um talher derrubado. Não fez escândalo, mas todo mundo ouviu.
Logan engoliu o que fosse a resposta automática que ele teria dado em público. Seus olhos foram para o prato, para a xícara, para qualquer coisa que não fosse o rosto da filha. E então ele tentou de novo, como se insistir fosse um modo de amar.
— Tudo bem. Mas… alguma coisa você quer fazer aqui. Qualquer coisa. Só uma.
Olívia mordeu outra uva. Olhou pra mim de canto.
— A Mareu disse que queria ir na piscina.
Eu quase engasguei com o próprio ar.
— Eu disse que a piscina era… uma opção — corrigi, rápido, com um sorriso que eu esperava que parecesse casual e não um pedido de socorro.
— Piscina, então — ele declarou, como se estivesse fechando um cronograma. — Depois do brunch, a gente pode...
— Piscina é legal — eu interrompi, antes que ele transformasse aquilo em reunião formal com pauta e horário. — É… bom que não é programa de casal, né?
Falei olhando para Olívia, mas meu radar estava apontado para Clara como um satélite.
Clara arqueou uma sobrancelha, tentando entender se eu estava sendo engraçada ou desesperada.
Henrique soltou um riso curto.
— Programa de casal? — ele repetiu.
— Ué — eu continuei, fingindo naturalidade com a habilidade de uma atriz de novela ruim —, navio assim é cheio de casal. A gente vai ficar… normal. Pessoas normais. Fazendo coisas normais.
Olívia me encarou com um tipo de curiosidade que não combinava com uma criança. Era como se ela já tivesse concluído um diagnóstico e estivesse só observando os sintomas.
Logan, por outro lado, parecia… aliviado. Porque “piscina” era terreno neutro. Porque ali ele podia ser pai sem precisar ser CEO.
— A gente pode ir no começo da tarde — ele disse.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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