~ MAREU ~
Olívia chamou de laboratório com a mesma naturalidade com que outras crianças chamariam de parquinho.
— Não é “acampamento” — ela me corrigiu pela terceira vez, enquanto eu ajeitava a pulseirinha de acesso no pulso dela. — É um programa de imersão noturna em atividades estratégicas.
— Claro — eu disse, segurando o riso. — E eu sou uma astronauta temporária.
Ela me olhou como se estivesse me dando a chance de reformular essa falta de respeito.
— Você não precisa fazer piada com tudo.
— Eu não faço piada com tudo — menti.
O “laboratório” ficava numa área do navio que parecia ter sido desenhada para convencer pais culpados de que deixar os filhos com monitores desconhecidos era, na verdade, uma escolha educacional. Luz indireta, placas bonitas, gente com crachá sorrindo como se a felicidade fosse um requisito de contratação.
Logan tinha deixado Olívia ir por dois motivos que eu reconhecia mesmo sem ele dizer.
Um: o clima entre os dois estava ruim.
Dois: ele não tinha energia para mais uma guerra. E, naquele momento, “outra atividade” parecia uma solução prática.
Olívia caminhava à minha frente com a mochila mini-executiva dela: nada de ursinho, nada de pijama fofo. Parecia que ia passar a noite auditando adultos.
Na entrada, um monitor se abaixou para falar com ela.
— Boa noite, Olívia! Preparada?
— Preparada — ela respondeu, séria. — Eu quero a mesa com melhor visão para o projeto de engenharia.
— Temos uma estação de construção naval — o monitor disse, animado.
Olívia virou o rosto pra mim só um segundo.
— Tá vendo? Não é acampamento.
Eu ergui as mãos.
— Nunca duvidei do seu… projeto de engenharia.
Ela hesitou na hora de entrar. O orgulho dela era grande, mas ainda era uma criança. E eu vi o segundo em que ela pensou em voltar e dizer “na verdade, eu quero ir pro quarto”.
Em vez disso, ela só soltou:
— Você vai embora?
— Vou — eu respondi, mantendo a voz leve. — Mas eu volto amanhã cedo pra te buscar. E, se você quiser, pode me ligar a qualquer momento.
Olívia finalmente entrou. O monitor acenou, a porta fechou, e eu fiquei ali, do lado de fora, com uma sensação estranha: alívio por ter resolvido uma coisa… e um vazio porque eu sabia que o alívio ia durar cinco segundos.
Respirei fundo e virei no corredor, rumo à cabine.
O navio à noite tinha outra cara. Menos “showroom corporativo”, mais “luxo silencioso”. Pessoas indo para jantares, risadas baixas, perfume caro no ar.
Eu estava tão distraída registrando tudo ao meu redor que nem vi a mulher até esbarrar.
Não foi um esbarrão dramático. Foi aquele toque de ombro que poderia virar “desculpa” e pronto.
Só que eu estava com um copo de água aromatizada na mão, e a água fez uma curva desgraçada e caiu — uma quantidade pequena, mas suficiente — no vestido impecável da mulher.
— Meu Deus… — eu disse, rápido, já levando guardanapo pra cima como se eu pudesse apagar o erro com papel. — Desculpa, eu não vi você, foi sem querer, eu...
— Sem querer — ela repetiu, com uma calma que não tinha nada de calma.
Ela olhou para a mancha como se fosse uma agressão pessoal. Abaixou o olhar, depois levantou para mim.
Foi quando eu reparei melhor nela também. Cabelo loiro impecável. Joias discretas e absurdamente caras. Maquiagem bem-feita. A postura de quem jamais pede licença.
— Você sabe quanto custa esse vestido? — ela perguntou, ainda naquele tom controlado, educado demais para ser inocente.
Eu engoli seco. Porque eu sabia. Eu sabia exatamente.
— É só água. Eu posso mandar lavar, eu...
Ela sorriu. Um sorriso curto.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...