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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 46

~ MAREU ~

Eu andei pelo corredor como quem acabou de fugir de um incêndio que, tecnicamente, eu mesma comecei.

O carpete era macio demais pra uma pessoa em crise. As luzes eram baixas demais pra uma pessoa com vergonha. E o pior: eu estava sóbria o suficiente pra lembrar de tudo e ainda assim… com o corpo inteiro conspirando contra a minha dignidade.

Minha mão tremia no celular. Eu digitei o nome da Clara como se fosse um botão de pânico.

Liguei.

Chamou uma vez.

Duas.

Três.

Eu ia desligar quando ela atendeu com a voz de quem acordou no susto e já odiou o mundo antes mesmo de abrir os olhos.

— Mareu?

— Eu fiz merda.

Do outro lado, silêncio. Aqueles dois segundos em que você sente a pessoa avaliando “merda” em categorias.

— Você matou alguém? — Clara perguntou, a voz mais alerta.

— Não!

— Você foi presa?

— Não!

— Então você transou.

Eu parei no corredor.

— Clara...

— Vem pra minha cabine. Agora — ela cortou. — Agora, Maria Eugênia. Antes que você tenha uma crise e pule no mar ou faça uma coletiva de imprensa no corredor do navio.

— Eu não vou pular no mar.

— Você está no navio de um bilionário e acabou de dizer “eu fiz merda” às… — ela olhou o relógio do outro lado, eu ouvi o movimento — de madrugada. Você vai sim. Anda.

Ela desligou antes que eu pudesse discutir.

Eu encarei o celular como se ele tivesse me traído.

Ok.

Cabine da Clara.

Eu caminhei rápido, tentando não lembrar de nada que me fizesse corar, o que era impossível porque o corredor inteiro parecia feito de gatilhos: perfume caro, silêncio íntimo, e o meu pescoço… quente. Eu levei a mão ao pescoço e senti um ponto mais sensível.

Não.

Eu acelerei.

Quando a porta da Clara abriu, eu quase caí pra dentro, e ela me puxou pelo braço como se eu fosse uma criança prestes a atravessar a rua correndo.

— Entra. — Ela olhou pros dois lados do corredor antes de fechar. — Meu Deus, você está com a cara de quem saiu de um filme proibido.

— Eu não saí de filme nenhum — eu retruquei, ofendida, porque orgulho é uma doença. — Eu… eu tive um sonho.

Clara ficou parada, me analisando do alto abaixo.

Ela estava de pijama, cabelo preso de qualquer jeito, mas com aquela postura de “eu vou resolver isso porque você não tem condições”. Na mão dela, uma bandeja.

— Eu sabia — ela disse, indo até a mesa. — Eu trouxe kit pós-caos.

— Kit pós-caos?

Ela colocou a bandeja como se fosse um altar.

Tinha água, dois comprimidos, um saquinho de gelo, um chocolate, um elástico de cabelo e um pacotinho de biscoito.

— Isso aqui é… impressionante — eu murmurei, sinceramente comovida.

— Eu sou amiga de uma mulher que toma decisões ruins com convicção — Clara respondeu. — Eu me preparo.

Eu me sentei na beirada da cama como se minhas pernas não fossem mais confiáveis.

— Eu tive um sonho — eu repeti, já agarrada na narrativa como se fosse uma boia.

Clara pegou a água, me entregou, e cruzou os braços.

— Mareu.

— Eu juro.

— Você está descalça.

— Eu gosto de andar descalça.

— Você está com a blusa do avesso, e o seu cabelo tá com cara de… — ela apontou pra mim, procurando a palavra — …noite mal administrada.

— Clara.

Ela suspirou.

— Ok. Conta o sonho.

Eu dei um gole de água, ganhando tempo.

— Eu sonhei que… eu estava na cabine com ele. Sozinhos.

Clara ergueu as sobrancelhas, como quem diz “uau, que inesperado”.

— Aí eu sonhei que ele falou uma coisa de bebida curar feridas… E aí… — eu continuei, mais rápido, porque a vergonha estava tomando o controle — eu sonhei que eu fui pra cima dele. E ele… e eu…

Clara mordeu o lábio pra não rir.

— Ok. Então vamos pro problema prático. — Ela pegou o chocolate da bandeja e colocou na minha mão. — Come isso. Você está tremendo.

Eu dei uma mordida sem vontade, mas meu corpo aceitou como se Clara tivesse acabado de descobrir a cura de todas as doenças da humanidade.

— E agora? — eu perguntei, a voz ficando pequena. — Ele vai me demitir.

Clara me olhou com cuidado.

— Não entra nessa espiral.

— Clara, eu transei com o meu chefe. Com o pai da Olívia.

Clara ficou séria.

— Tá. Isso é a parte delicada.

— Eu vou ser… uma decepção — eu soltei, e a palavra saiu carregada de coisa antiga. — Eu fugi de casa pra ser dona de mim, e agora eu virei… sei lá. Um clichê. A babá que...

— Ei. — Clara segurou meu queixo com firmeza. — Não.

Eu respirei.

— E se a Olívia descobrir? — eu sussurrei. — Ela vai achar… que eu traí ela. Ou que eu tô roubando o pai dela. Ou que eu… — minha garganta fechou — …que eu vou embora.

Clara apertou a minha mão.

— Ninguém vai descobrir nada. Amanhã você vai agir normal.

Eu a encarei como se ela tivesse acabado de me pedir pra pilotar o navio.

— Normal como? Eu mal sei andar.

Clara não sorriu. Só foi prática, do jeito que ela sempre era quando eu começava a desmoronar.

— Normal como: você acorda, veste uma roupa decente, prende esse cabelo, cuida da Olívia como sempre cuidou. Sem drama. Sem sumir. Sem fugir.

Eu abri a boca para protestar.

Ela levantou o dedo.

— Promete.

Eu olhei pro gelo no meu pescoço, pro chocolate na minha mão, pro kit pós-caos na bandeja, e pensei que talvez Clara fosse o único adulto de verdade na minha vida.

— Eu prometo — eu disse, com a dignidade de uma mulher que acabou de fazer a promessa mais difícil do mundo.

Normal.

Eu podia agir normal.

Não podia?

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