~ LOGAN ~
Por um segundo, eu não entendi as palavras.
Eu entendi as sílabas — Ma-ri-a Eu-gê-ni-a Valen-ça — mas o sentido delas não encaixava em nada do que eu era capaz de admitir como realidade.
O copo escorregou da minha mão antes que eu percebesse que eu tinha soltado. Vidro no chão. Um estalo seco. O líquido se espalhando como se a noite também tivesse derramado.
Eu fiquei parado, encarando o que tinha acabado de acontecer, como se o barulho fosse o único jeito do meu corpo dizer: isso não pode ser verdade.
— Logan… — ele falou, com aquela voz que ele usava quando eu entrava em modo perigo. — Respira.
Eu respirei. Uma vez. Duas. Sem ar suficiente.
— Repete — eu disse, e minha voz saiu baixa demais para um homem que comandava um império inteiro. — Repete o que você acabou de dizer.
Ele não repetiu. Porque ele não queria me dar a chance de fingir que tinha entendido errado.
— Eu descobri no dia em que ela foi ser efetivada — ele explicou, rápido, como se isso pudesse me salvar do surto. — Ela deixou um documento cair no chão. Eu vi. Nome completo. Assinatura. RG. Tudo.
Eu senti uma coisa fria subir pela nuca.
— Você… — eu comecei, mas a frase não saía inteira. — Você está me dizendo que eu dormi com…
Eu não consegui dizer o nome.
Ele assentiu, devagar.
— Você realmente não olhou os documentos dela antes de contratá-la? O currículo? Qualquer coisa?
Minha mandíbula apertou.
E, como se o meu cérebro precisasse de provas para aceitar a culpa, eu me lembrei daquele dia.
O caos.
A sala de entrevistas parecendo um campo de batalha doméstico, Olívia entediada e brilhante demais para fingir educação, derrubando refrigerante nos currículos. William chorando com a força de quem exigia o universo inteiro naquele segundo. Eu tentando fazer perguntas, fazer escolhas, fazer o mundo funcionar.
E a verdade vergonhosa: eu não estava contratando uma babá. Eu estava contratando… uma solução.
Eu lembrei de mim mesmo, exausto, olhando para a última candidata e dizendo, sem nenhuma elegância:
Se fizer meu filho parar de chorar, o emprego é seu.
E então ela fez.
“Mareu”, ela tinha dito. Só isso. “Mareu.” Como se o resto não existisse.
Eu fechei os olhos por um segundo, e quando abri, minha voz saiu mais controlada. Mais perigosa.
— Isso é trabalho do RH — eu rosnei, automático, como se a defensiva fosse uma armadura. — Não meu.
Ele me encarou com uma mistura de incredulidade e “claro que você vai dizer isso”.
Ele se aproximou um pouco, como se estivesse tentando impedir que eu quebrasse o quarto.
— Escuta. Antes que você surte: ela não foi mandada por ninguém pra te espionar, te conquistar ou acabar com a sua vida, tá? — ele falou, com uma ironia quase defensiva. — Isso foi só… uma grande e absurda coincidência do destino.
Eu engoli a palavra como se fosse um gosto ruim.
— Coincidência… — eu murmurei. Eu nunca acreditei nisso. Eu acreditava em causa, consequência, controle. Coincidência era só o nome que as pessoas davam para o que não queriam entender.
— Eu investiguei — ele continuou, firme, sem me dar tempo de me afogar no próprio cinismo. — Ela chegou lá para outra vaga. Acabaram a mandando pra sala errada. E você… contratou.
Eu passei a mão no rosto devagar. A sensação era de estar observando minha própria vida de fora.
— Você vai me dizer que ela não sabia quem eu sou?
Ele assentiu.
— Vou.
O “vou” dele veio com uma segurança irritante.
— Assim como você, ela não queria aquele casamento. — ele falou. — Ela não quis saber nada sobre o noivo de contrato. Nem foto. Nem nome. Nem nada. Ela fugiu sem querer ver teu rosto. Sem querer ouvir teu sobrenome.
Eu senti o estômago se contrair.
— Por isso… — ele continuou, e agora o tom ficou mais sério, menos irônico. — Por isso ela ainda não faz ideia de quem você é.
— E agora, mais do que nunca, isso faz sentido.
Ele fez uma pausa pequena, e então… estragou com humor.
— Quer dizer… talvez não, visto que vocês foram bem compatíveis pra dormirem juntos...
— Henrique — eu cortei, seco, com a voz que eu usava para encerrar reunião.
Ele levantou as mãos, rendido, mas não parou.
— Incompatibilidade profissional — ele corrigiu, sério de novo. — Ela vai pensar que foi pelo que aconteceu entre vocês, claro. Mas ela não vai achar que fracassou nessa fase da nova vida a ponto de desistir de tudo e voltar pra família. Aquela família controladora. Entende?
Eu encarei o chão, onde o líquido do copo ainda brilhava fraco. Um desastre pequeno, contido. Nada comparado ao outro.
— Faz isso… pelo bem dela — ele insistiu. — Pelo bem que ela causa à Olívia.
Eu respirei devagar. O ar do quarto parecia pesado. Minha cabeça latejava, e não era só a bebida. Era a soma de tudo que eu nunca deixava somar.
Eu pensei na Olívia, apegada demais. Pensei no Liam, que se acalmava com a voz dela cantando errado em coreano. Pensei na Mareu — na Mareu, não na Maria Eugênia Valença — atravessando a minha vida como se só estivesse tentando existir do jeito dela.
E eu pensei na parte mais incômoda: na parte que queria proteger o que tinha acontecido, mesmo que eu não soubesse ainda o que aquilo significava.
Eu levantei o olhar.
Ele me observava, esperando o CEO tomar a decisão fria. Esperando o Logan fazer o que sempre fazia: cortar o problema pela raiz.
Eu balancei a cabeça, uma vez.
— Não vou fazer isso.
Ele franziu a testa.
— Logan...
Eu não o deixei continuar.
— Porque eu não vou demiti-la.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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