~ MAREU ~
Tá, sejamos honestos. Não que eu não sabia como agir normal, é mais para se “agir normal” fosse uma modalidade olímpica, eu teria sido eliminada na fase classificatória.
O que era humilhante, porque, tecnicamente, eu era uma profissional. Eu já tinha lidado com criança birrenta, com diretora de escola arrogante, com socialite venenosa, com funcionária invejosa, com bebê chorando e com a minha própria mãe no telefone. E ainda assim, bastava Logan Novak me olhar por meio segundo para eu virar uma mistura de piada ruim com pane no sistema.
Eu tentei me concentrar no objetivo do dia: Olívia. Tempo de qualidade. Pai tentando. Eu, babá, cumprindo função. Tudo lindo.
Nós estávamos a caminho do tour “por trás do navio”, o tipo de visita guiada VIP que mostrava áreas técnicas, bastidores, e… sim, a ponte de comando. Uma atividade real. Uma atividade normal. Uma atividade que não envolvia… lembranças físicas.
Olívia caminhava na frente, segurando o folheto como se fosse um relatório anual.
— Isso aqui inclui a ponte? — ela perguntou, já exigindo.
— Inclui — o guia respondeu, sorrindo com aquele entusiasmo treinado. — Mas depende da operação no momento.
— Se não incluir, eu considero propaganda enganosa — Olívia avisou, séria.
O guia piscou, sem saber se ria.
Logan, ao lado dela, tentou o que para ele devia ser um gesto de aproximação:
— Se não der hoje, a gente tenta outro horário.
Olívia nem olhou pra ele.
— Eu vou anotar isso como “plano B”. Mas eu prefiro “plano A”.
O guia parou e abriu a pequena porta de acesso do tour. Antes de entrarmos, ele cumprimentou Logan com formalidade:
— Senhor Novak, por aqui.
Logan assentiu.
Eu fui atrás, pronta para ser invisível.
Então Logan virou o rosto para mim, e perguntou:
— Mareu, ela tomou o remédio do enjoo?
Eu respondi sem pensar, no reflexo da noite anterior:
— Sim, Logan… quer dizer, senhor Novak… ela tá bem.
Ele levantou os olhos, calmo demais para alguém que deveria estar tão desconfortável quanto eu.
— Logan está bom.
Eu travei no meio do corredor, com a sensação de que todo o navio podia ouvir meu cérebro derrapando.
— Logan. Certo. Logan, então… — eu forcei, e o nome dele saiu estranho na minha boca. — Senhor… Logan.
Olívia não tirou os olhos do folheto do tour, mas o tom dela veio seco, cirúrgico:
— Eu prefiro “pai”. Não que acertar um nome não seja algo simples.
Eu senti meu rosto esquentar até a raiz do cabelo.
Logan… não riu. Não sorriu. Mas o olhar dele desviou por uma fração de segundo, como se ele estivesse segurando uma reação.
O que foi pior.
Porque eu queria que ele fosse um ogro formal e distante. Eu não queria nenhuma nuance.
O guia abriu o caminho, e nós entramos em um corredor técnico onde tudo tinha cara de “isso custa milhões”. Tubulações, painéis, portas com avisos, luzes discretas. Olívia ia absorvendo tudo como se fosse dela.
— Isso é redundância? — ela perguntou, apontando para dois sistemas iguais.
O guia arregalou os olhos, impressionado.
— É… sim. — ele respondeu. — Você entende bem.
— Eu entendo o básico — Olívia disse, sem falsa modéstia. — É ter mais de um pra garantir. Meu pai gosta de garantir tudo… inclusive com adultos.
Eu engasguei com o ar.
Logan olhou para o teto, como se estivesse contando até dez.
— Olívia — ele falou, num tom que tentou ser repreensão, mas saiu… cansado.
Ela deu de ombros.
— É um elogio. Você sempre tem três alternativas pra tudo.
Eu mordi a parte de dentro da bochecha para não rir. Ri por dentro. E, claro, o meu corpo decidiu rir por fora também.
Um riso pequeno escapou.
Logan me olhou.
Eu parei de rir na mesma hora e fingi interesse profundo em uma plaquinha.
— Muito interessante — eu murmurei, como se eu estivesse em um museu.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...