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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 56

~ MAREU ~

O jantar começou do jeito que eu mais gostava: íntimo. Só Logan, Olívia e eu — e um cardápio chique demais para admitir que era, no fundo, só comida.

O deck executivo estava bonito de um jeito discreto. Luz baixa. Tecidos claros. Copos que faziam aquele som fino quando encostavam. O mar escuro lá fora como se fosse parte da decoração.

Logan passou os olhos pela carta de vinhos com a seriedade de quem lê um contrato.

E então, para minha surpresa, ele ergueu o olhar para mim.

— Você gosta de tintos mais encorpados ou mais leves?

Eu pisquei, pega no contrapé. Ele me perguntar aquilo, ali, com aquela calma… parecia uma gentileza intencional. E eu não sabia o que fazer com gentilezas intencionais.

— Eu… gosto de leves — eu respondi, sincera. — Mas eu não sou exatamente uma especialista.

Logan assentiu como se eu tivesse dado uma informação útil, não uma confissão de ignorância social.

O dedo dele parou numa opção.

— Um Bellucci Rosso — ele disse, quase para si. Depois olhou para mim de novo. — Frutado, leve. Acho que combina com… você.

A frase pareceu querer dizer outra coisa e se segurou na última sílaba.

Eu senti o rosto aquecer num lugar específico: a fronte do autocontrole.

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa potencialmente criminosa, Olívia se inclinou sobre a mesa e apontou para o nome.

— Eu prefiro o suco de uva Bellucci — ela anunciou, no tom de quem informa uma decisão do conselho.

— Claro que prefere — ele disse. E fez um gesto para o garçom. — E claro que eu fiz questão de ter no cardápio especialmente pra você.

Olívia arqueou uma sobrancelha, analisando o pai como se ele tivesse acabado de revelar um traço de personalidade inesperado.

— Isso foi… atencioso — ela concedeu, como se estivesse carimbando um relatório.

Logan inclinou a cabeça.

— Obrigado.

Eu assisti aquilo como quem assiste a uma coisa rara: um homem poderoso tentando acertar o básico.

Quando as bebidas chegaram, Olívia segurou o copo de suco com as duas mãos e cheirou como se estivesse avaliando qualidade.

— É bom — ela concluiu, satisfeita. — Parece… verdadeiro.

— É suco — Logan disse, mas havia humor na voz.

— Ainda assim — Olívia insistiu, séria. — Tem sucos que são mentirosos.

Eu mordi o lábio.

Logan me olhou, como se quisesse entender por que eu achava graça das coisas que ela dizia.

E eu, como sempre, fiquei sem saber agir normalmente.

O jantar seguiu leve por alguns minutos. Olívia comentou sobre a ponte de comando, sobre o jantar ter uma “logística eficiente”, sobre como o garçom caminhava em linha reta e isso era “tranquilizador”.

Logan fez perguntas. Eu vi ele fazer perguntas como quem aprende um idioma novo.

E, em algum ponto, Olívia inclinou o corpo para o lado, varrendo a mesa com os olhos, e decidiu:

— Eu vou pegar uma sobremesa.

Eu automaticamente endireitei a coluna.

— Eu vou com você, Liv.

Olívia me olhou como se eu tivesse sugerido que ela precisava de rodinhas para andar.

— Eu não preciso de babá pra isso — ela disse. — Eu sei andar. Eu sei falar. Eu sei escolher. Eu sei pagar, se necessário.

— Você não tem cartão — eu lembrei.

— Eu tenho meu pai — ela respondeu, como se fosse o mesmo tipo de recurso. — Além do mais, aqui tudo é de graça.

Eu abri a boca para insistir, mas Logan fez um movimento mínimo com a mão. Um pedido silencioso de “deixa”.

Eu olhei para ele.

Ele estava com os olhos na filha, atento, mas permitindo. Aquele tipo de vigilância discreta.

Olívia escorregou da cadeira com a praticidade de quem não precisa anunciar nada para se mover, e foi até a estação de sobremesas com o vestido balançando como se aquilo fosse apenas mais um item da agenda dela.

Quando ela se afastou, o silêncio que ficou entre Logan e eu não foi vazio.

Foi cheio. Cheio do que a gente não dizia.

Logan pegou o copo de vinho, girou uma vez, mas não bebeu.

— Eu fico pensando… — ele começou, e parou como se estivesse escolhendo o que era seguro dizer.

Meu coração apertou um pouco. Não de medo. De reconhecimento.

— Pensando o quê?

Ele olhou na direção onde Olívia estava, ainda de costas, decidindo uma sobremesa como se fosse um investimento.

— Eu tenho medo de ela estar perdendo a infância — ele disse, e a frase saiu baixa, quase íntima. — Ela é tão esperta. Tão inteligente. Tá em uma turma avançada pra idade, na melhor escola que o dinheiro pode pagar… mas…

— Agora, se me dá licença — eu falei, com um tom mais leve, tentando puxar a conversa de volta para o chão — eu vou ajudar a Liv. Porque ela pode ter decorado um dicionário e saber se comunicar melhor do que eu, mas ela ainda é uma criança de seis anos e meio tentando cortar um pedaço de cheesecake sem sucesso.

Logan soltou um som que foi quase uma risada.

— Seis e meio — ele repetiu, como se fosse um mantra.

Eu dei um passo.

E cometi a gafe mais idiota possível.

O salto prendeu no tapete — ou no meu karma — e eu perdi o equilíbrio com uma dignidade que tentou existir e não conseguiu.

Eu caí.

Não no chão.

No colo do Logan.

Foi rápido, quente, real demais.

O braço dele me segurou instintivamente, firme ao redor da minha cintura, e eu senti o corpo dele reagir ao meu como se a gente ainda estivesse naquele quarto, naquela noite, naquele lugar que não devia existir.

Eu congelei.

A boca dele estava perto demais. O perfume dele perto demais. A respiração dele perto demais.

E eu só conseguia pensar: ótimo. Excelente. Normalidade.

A mão dele apertou um pouco, como se por um segundo ele tivesse esquecido que o mundo existia.

Eu ia me levantar. Eu juro que ia.

Mas então alguém arranhou a garganta perto da mesa.

Um som discreto, educado, cruel.

Logan e eu levantamos o olhar ao mesmo tempo.

Um homem de uns sessenta anos estava ali, impecável, com um sorriso treinado e olhos que não sorriam.

— Logan Novak — ele disse, como se meu corpo no colo dele fosse um detalhe irrelevante. — Sempre um prazer vê-lo.

O maxilar de Logan endureceu. O braço em volta de mim ficou firme por um segundo a mais antes de me soltar.

— Antônio Rizzo — Logan respondeu, no mesmo tom polido. — Igualmente.

E eu entendi, sem ninguém precisar me explicar nada, que o jantar íntimo tinha desmoronado.

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