~ LOGAN ~
O bar do deck executivo estava vazio do jeito que eu gostava: silencioso, limpo, eficiente. Um espaço desenhado para conversas que valiam dinheiro.
Eu tinha chegado alguns minutos antes do horário combinado com Antônio e pedi uma água com gás.
Nada de bebida naquele horário. Nada de bebida para falar de negócios.
Ainda assim, um sorriso idiota insistia em tentar invadir meu rosto — um desvio mínimo, quase imperceptível — sempre que a memória me traía e me devolvia a cena da noite anterior.
Mareu no meu colo.
O peso leve do corpo dela contra o meu, o calor atravessando o tecido do meu terno como se roupa fosse uma sugestão. O segundo em que a gente ficou imóvel demais. E o minuto seguinte, quando o mundo voltou a existir e tudo ficou… perigosamente concreto.
Depois veio o resto.
O rasgo. O vento indevido. A frase da minha filha, dita com a serenidade de quem entrega um laudo:
“Sua calcinha está.”
Eu tinha emprestado meu blazer para Mareu amarrar na cintura. Não por cavalheirismo. Por lógica. Por urgência. Por sobrevivência social.
E eu tinha feito questão de esperar alguns minutos antes de voltar para a cabine, inventando uma desculpa qualquer — sobremesa, café, qualquer coisa — enquanto, na verdade, eu esperava o meu próprio corpo lembrar que não podia continuar reagindo como um adolescente.
Quando finalmente voltamos, Mareu tagarelou o caminho inteiro, como se palavras fossem a forma dela de se manter de pé.
— A indústria moderna do tecido diminuiu a qualidade — ela disse, irritada de um jeito quase fofo. — E aí eles colocam uns penduricalhos ridículos, umas rendas que agarram em tudo… porque, claro, se rasgar, você compra mais. É um esquema. Um esquema mundial. É um esquema indecente.
Eu não respondi. Não porque eu não achasse graça. Porque eu achava. E eu não queria dar esse prazer para ela.
Mareu falava como se o mundo conspirasse para humilhá-la. E, na maior parte do tempo, o mundo parecia concordar.
Eu tomei um gole de água com gás e me obriguei a voltar ao presente.
Dez e meia.
Antônio Rizzo tinha forçado esse encontro. E Antônio Rizzo não pedia nada por capricho.
A sombra dele apareceu antes do som. Passos firmes, sem pressa, como se o deck executivo fosse uma extensão natural do sobrenome dele.
Ele se aproximou e se sentou sem perguntar.
O mesmo gesto que a filha dele fizera na tarde anterior. Eu registrei e guardei no mesmo lugar onde eu guardava padrões.
— Logan — ele cumprimentou. — Obrigado por me receber.
Eu inclinei a cabeça.
— Você pediu.
Ele sorriu de leve, aceitando a frieza como se fosse parte do contrato social entre nós.
— Sei que o seu tempo é valioso, então vou direto ao ponto — ele disse. — Henrique me informou que você autorizou o conselho. Que pretende dar continuidade ao… seu casamento.
Eu mantive o rosto neutro. A mão em volta do copo. A postura no lugar.
Um “sim” simples seria o suficiente.
Mas eu ouvi a palavra “casamento” e minha mente, traidora, tentou me devolver uma imagem que não tinha nada a ver com ata, conselho ou estabilidade: Mareu segurando o blazer na cintura com raiva, falando de penduricalhos e esquemas mundiais, como se o universo fosse pessoal.
Eu engoli o pensamento como quem engole algo amargo.
— Sim — eu respondi.
Antônio assentiu, satisfeito.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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