Entrar Via

Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 59

~ LOGAN ~

A gravata estava correta. O nó, simétrico. O paletó, no caimento exato. O tipo de perfeição que eu conseguia controlar sem esforço.

Era o resto que eu não controlava.

Eu ajustei a manga, conferi o relógio, respirei como quem se prepara para uma reunião.

Um baile de gala não era uma reunião.

Mas eu ia tratá-lo como se fosse.

Quando saí da suíte e desci para a sala, o som da TV me puxou antes de qualquer coisa: uma música dramática, vozes intensas, uma cena que parecia ter sido escrita por alguém que nunca conversou com um ser humano de verdade.

Olívia e Mareu estavam no sofá.

Olívia sentada com postura perfeita, como se até relaxar fosse um cargo. Mareu mais solta, com as pernas dobradas, o rosto atento demais para algo que claramente não merecia atenção.

Eu parei por um instante na porta. Aquilo… aquilo parecia normal. Quase.

E talvez por isso eu tenha ido até elas.

— O que vocês estão assistindo? — eu perguntei, me sentando por um segundo na poltrona de frente.

Olívia nem tirou os olhos da tela.

— Um dorama muito ruim que a Mareu escolheu.

Mareu me lançou um olhar ofendido sem desviar do episódio.

— Não é ruim.

— É sim — Olívia corrigiu, com tranquilidade científica.

Eu franzi a testa.

— Se é ruim, por que você está assistindo?

Olívia virou o rosto para mim com a expressão de quem explica algo óbvio para um adulto lento.

— Porque é mais divertido assistir a Mareu assistindo.

A frase me pegou desprevenido.

Olívia voltou para a tela e murmurou, quase como quem anota um dado de pesquisa:

— Ela chora às vezes.

Mareu girou o rosto na direção dela, indignada.

— Eu não choro.

— Chora sim — Olívia devolveu, sem maldade. Só fato.

Mareu abriu a boca para se defender, mas na tela alguém declarou amor em um telhado sob chuva artificial e eu vi a garganta dela se mexer, como se estivesse engolindo uma emoção que não queria admitir.

Eu olhei para Olívia.

Olívia olhou para mim.

E, por um segundo, nós trocamos um sorriso pequeno — cúmplice demais para um pai e uma filha que, até pouco tempo, mal sabiam ficar no mesmo cômodo sem uma pauta.

Eu pigarreei, como se aquilo precisasse de correção.

— Eu tenho trabalho agora — eu disse, e as palavras soaram como desculpa e sentença ao mesmo tempo. — Mas vou tentar chegar cedo… e aí nós dois podemos assistir juntos a Mareu chorar… digo, ao dorama ruim.

Mareu me encarou.

Eu não devolvi o olhar por tempo suficiente para ela usar isso contra mim.

Olívia, por outro lado, sorriu.

— Acho ótimo — ela respondeu.

Eu me inclinei e dei um beijo rápido na testa dela. Depois, sem pensar muito — porque pensar era perigoso —, encostei a mão de leve no ombro de Mareu ao passar.

Um toque curto. Quase nada.

Mas eu senti o corpo dela reagir.

E isso foi o bastante para eu sair antes que eu fizesse algo estúpido. Algo humano.

O baile estava exatamente como eu imaginava: luzes calculadas, música impecável, gente demais sorrindo como se sorrir fosse investimento. O navio inteiro parecia ter virado vitrine — e eu era, mais uma vez, o produto principal.

Paula já estava lá.

Ela usava um vestido que tinha sido feito para parecer inevitável. Bonita, sim. Elegante, sim. Perfeitamente adequada ao tipo de fotografia que o conselho gostaria de ver.

E completamente errada para mim.

Eu hesitei por dois segundos.

Mas ela tinha razão sobre uma coisa: estavam olhando.

Antônio estava olhando. Outros conselheiros estavam olhando. Investidores estavam olhando. Pessoas que não tinham nada a ver com a minha vida estavam olhando como se tivessem.

Eu me levantei.

Peguei a mão dela.

E fui para a pista como quem vai para uma audiência.

Paula dançava bem. Controlada. Treinada. O tipo de mulher que sabia exatamente onde colocar a mão para parecer íntima sem ser vulgar.

Ainda assim, ela tocava mais do que deveria.

A mão dela subiu um pouco demais. A distância diminuiu um pouco demais. O perfume dela tentava ocupar o espaço que não era dela.

Eu mantive o rosto neutro.

Até que ela aproximou a boca do meu ouvido, com a confiança de quem já se considerava dona.

— O que acha de tomarmos um drink na minha cabine? — ela perguntou. — Aqui está muito… barulhento.

Eu abri a boca para responder.

Para recusar. Para encerrar aquilo com uma frase educada.

Mas, como se o universo tivesse decidido endossar a palavra “barulhento”, um estrondo atravessou o salão.

Bandeja no chão.

Garrafa quebrando.

Taças de cristal se estilhaçando em sequência.

O som foi tão alto que a música pareceu recuar.

Eu não fui o único a olhar. Todo mundo olhou.

E eu deixei escapar, baixo, antes de filtrar:

— Mas que merda?

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva