~ LOGAN ~
Eu não pensei.
Foi isso.
No instante em que Mareu disse “é… a Liv…”, o salão deixou de existir. A música, as taças, os olhares, o conselho, Paula atrás de mim com a indignação engomada — tudo virou ruído de fundo.
Eu só vi uma coisa: minha filha em algum lugar, em algum tipo de colapso, pedindo por mim.
Eu virei o corpo e comecei a andar rápido. Rápido demais para parecer educado.
Eu senti a mão de Paula tocar meu braço, como se ela pudesse me prender com etiqueta.
— Logan...
— Depois — eu cortei, sem olhar.
E foi aí que eu ouvi o som dos passos de Mareu atrás de mim, seguindo sem hesitar.
Quando atravessamos a porta e entramos no corredor, o ar pareceu mudar. Menos perfume. Menos música. Mais silêncio. Mais realidade.
Eu aumentei o passo.
— O que aconteceu? — eu perguntei, já correndo. — Ela se machucou?
— Eu não sei — Mareu respondeu, tentando acompanhar. — Ela não quis me dizer. Só queria você. Disse que precisava de contenção de danos e que você é especialista nisso.
Eu engoli seco.
Especialista em contenção de danos.
Eu já tinha feito contenção de danos com ações caindo, com manchetes, com acidentes técnicos. Eu já tinha segurado crises com a frieza de quem não pode desmoronar.
Mas contenção de danos com uma criança…
Isso era outra escala.
— Ela estava bem? — eu insisti, o coração batendo mais rápido do que a corrida justificava.
— Ela parecia bem — Mareu disse, e eu ouvi a seriedade na voz dela. — Ou eu não teria saído. Mas ela parecia… desesperada. Desesperada pela sua presença.
A frase doeu em algum lugar que eu não nomeei. Porque era verdade. Porque eu sabia. Porque eu tinha escolhido “depois” muitas vezes.
Eu destranquei a cabine com pressa. Entramos como dois fugitivos.
— Liv? — eu chamei, atravessando a sala sem tirar o paletó. — Meu amor?
Não houve resposta.
Eu fui direto para o corredor interno e parei diante da porta do quarto dela.
A mão na maçaneta. Um segundo de controle.
Eu bati de leve.
— Olívia… a Mareu disse que você…
— Aconteceu uma tragédia — a voz dela veio de dentro, abafada, dramática o suficiente para me deixar em alerta e, ao mesmo tempo, confuso.
Eu abri a porta.
O quarto estava escuro, só com a luz do corredor entrando de lado. E Olívia estava exatamente como Mareu descrevera: enfiada embaixo do lençol, de bruços, como se estivesse se escondendo do mundo inteiro.
Meu estômago apertou.
Eu me aproximei devagar, abaixei o tom.
— Meu amor, você está com dor? — eu perguntei. — Precisa de um médico? A gente pode ir agora.
Do fundo do lençol, veio a resposta, com a firmeza de uma CEO de seis anos e meio:
— Um médico não vai resolver isso.
Eu respirei uma vez, fundo, e me sentei na beira da cama.
— Tudo bem — eu disse, controlando a urgência. — Então me diga como eu posso resolver.
Um silêncio.
O tipo de silêncio que, em Olívia, significava que vinha exigência.
— Vocês precisam me prometer que não vão rir.
Eu olhei para Mareu. Ela estava parada perto da porta, braços cruzados, os cabelos bagunçados, os pés descalços no carpete caro como se aquilo não fosse a coisa mais absurda do mundo.
Eu voltei para Olívia.
— Eu prometo — eu disse.
— Desculpa — eu disse. — Liv… por que você não avisou que o dente estava mole?
Ela me encarou como se eu tivesse sugerido demolir a cabine.
— Porque eu não autorizei uma reforma estrutural no meu rosto.
Atrás de mim, Mareu fez um som estranho.
Um som que começou como esforço de controle e terminou como rendição total.
Ela virou de costas por meio segundo — inútil — e então caiu na gargalhada.
Gargalhada de verdade. Daquelas que fazem a pessoa se dobrar levemente, perder o ar e esquecer por um instante que o mundo tem conselhos e bailes e protocolos.
— Eu não acredito — Mareu disse, entre risos. — Eu invadi um baile de gala de pijama por algo que se resolveria com uma fada do dente e uma nota de cinquenta.
Olívia respirou fundo, ofendida, mas não resistiu ao impulso de corrigir.
— Duzentos — ela disse, seca. — E duas barras de chocolate. Se eu vou passar por essa humilhação, que ao menos seja bem paga.
Eu olhei para ela.
Olívia estava tentando manter a seriedade, mas o canto da boca dela tremia.
Eu finalmente me permiti rir.
Não aquela risada controlada do jantar, não o sorriso mínimo do corredor.
Eu ri de verdade, com alívio, com culpa se dissolvendo por um momento, com uma ternura que eu quase tinha esquecido que ainda sabia sentir.
Eu puxei Olívia para mim e ela veio, primeiro rígida, depois cedendo no abraço como se o corpo dela reconhecesse o lugar antes da mente.
— Viu? — eu murmurei, beijando o topo da cabeça dela. — Você sabe conter os danos melhor do que ninguém.
Olívia fez um som pequeno, entre orgulho e emoção, e se apertou um pouco mais no meu peito.
Mareu ainda ria baixinho, enxugando um canto do olho, e eu percebi que ela estava ali como se fosse parte disso.
Não do drama.
Da vida real.
E, por um instante raro, eu pensei que talvez a coisa mais perigosa daquele navio não fosse o conselho.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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