~ PAULA ~
Eu nunca fui rejeitada.
Não do jeito real. Não do jeito que deixa marca.
Eu já ouvi “agora não”, “talvez depois”, “minha agenda está cheia”. Eu cresci num mundo em que essas frases significavam “insista com a pessoa certa” e não “aceite e suma”.
“Não” era uma palavra que existia para os outros.
Por isso, quando Logan Novak saiu do salão — e, pior, saiu por causa de uma mulher descalça, de pijama, e descabelada — o meu corpo reagiu como se tivesse sido traído pelo próprio chão.
Eu fiquei plantada no mesmo lugar por um segundo longo demais.
O som da música continuava. As pessoas continuavam dançando, fingindo que nada tinha acontecido, como gente bem treinada faz quando algo inconveniente acontece perto demais.
Eu olhei na direção da porta por onde ele tinha sumido e tentei colocar a cena numa moldura lógica.
A mulher era a do corredor.
A da água.
A babá da menina.
E Logan Novak tinha dito: ela está comigo.
“Comigo.”
Como se fosse uma frase que ele usaria para alguém que importava.
Eu puxei o ar com cuidado, mantendo o rosto intacto. Eu sabia sorrir até por dentro de um terremoto.
Não era a primeira vez que algo fora do roteiro acontecia.
Mas era a primeira vez que acontecia com a minha dignidade no meio do salão.
Meu pai apareceu ao meu lado com a velocidade de quem fareja crise a quilômetros. Minha mãe veio junto, postura perfeita, o tipo de mulher que não precisava levantar a voz para mandar alguém se encolher.
— O que está acontecendo? — meu pai perguntou, baixo.
Eu mantive o sorriso social.
— Acho que foi um problema com a criança — eu respondi, como se fosse uma nota de rodapé. — A filha dele.
Minha mãe apertou a boca num traço fino, como se “criança” fosse uma palavra feia.
— E você vai ficar aí parada sendo humilhada?
Eu olhei para ela com calma.
Humilhada.
A palavra era grande, mas não era errada.
Eu podia correr atrás dele naquele instante e exigir explicações. Podia fazer uma cena. Podia invocar o nome do meu pai e transformar aquilo numa obrigação pública.
Mas eu não era amadora.
E eu não gostava de crianças. Eu não gostava, principalmente, daquela menina específica. A metidazinha que corrigia tudo, que falava comigo como se eu fosse uma estagiária inconveniente.
Se eu invadisse a cabine dele agora, a cena seria sobre a filha.
E eu não queria ser coadjuvante numa história de “pai dedicado”.
Eu queria ser a história.
Eu ajeitei a postura e decidi no mesmo instante: eu não ia disputar atenção com uma criança.
Eu ia esperar o momento em que ele estivesse vulnerável. Cansado. Grato.
Porque homens como Logan Novak podiam ser frios com o mundo inteiro, mas sempre tinham um ponto fraco: a sensação de dever. De responsabilidade. De “eu preciso resolver”.
Eu me virei para meus pais.
— Eu vou cuidar disso — eu disse, simples.
Minha mãe me analisou como se tentasse decidir se eu era madura o bastante para não estragar tudo.
Meu pai só assentiu, porque ele sabia: quando eu dizia que cuidaria, eu cuidava.
Eu saí do salão com passos tranquilos, sem pressa. Pressa é para quem tem medo. Eu não tinha medo. Eu tinha estratégia.
No corredor, eu puxei o que eu sabia.
A história da primeira pretendente por contrato. Uma Valença.
Claro que não era pública. Logan Novak era protegido por camadas de profissionais que impediam qualquer coisa feia de virar notícia. Mas eu era filha do presidente do conselho. Eu ouvia conversas que ninguém ouvia. Eu soube de detalhes que ninguém soube. Eu sabia, inclusive, que ele detestava a ideia de “casamento por imagem” — e que, mesmo assim, tinha aceitado.
Porque aceitou o que o negócio exigia.
E agora o negócio exigia uma esposa.
Uma mulher adequada.
A babá intrometida, de novo. Sempre no lugar errado, sempre perto demais.
E, de repente, a sensação voltou. A de que eu conhecia aquele rosto de algum lugar que não era o corredor. Não era a água. Era outra coisa.
— Foi só um susto — ele disse, direto, como se fosse um comunicado de empresa.
Eu suavizei o rosto imediatamente.
— Que bom — eu respondi, macia. — Eu fiquei preocupada.
Deixei minha voz cair naquele tom que homens confundem com cuidado.
— Onde ela está?
Ele hesitou meio segundo, olhou para cima, como se a resposta fosse algo íntimo demais.
— Dormindo.
Perfeito.
Eu inclinei a cabeça, compreensiva. Devota. A mulher ideal de anúncio.
— Ótimo. — Eu respirei, como se estivesse aliviada de verdade. — Já que nós mal conseguimos comer no baile… eu tomei a liberdade de pedir um jantar mais… intimista.
Eu deixei a frase no ar e, com o canto do olho, olhei para a babá.
— Já entendi — ela murmurou, e desligou a TV com um clique seco. Levantou-se e começou a subir as escadas como se estivesse fugindo da cena antes que eu a expulsasse.
Eu fiz um sinal discreto para o garçom entrar com o carrinho.
Ele passou por mim com respeito. Serviu como se estivesse montando uma mesa de negociação: pratos alinhados, talheres impecáveis, vapor subindo do risoto, o brilho do consommé na louça fina. Pães quentes em cesta de pano. Manteiga com ervas que cheirava a casa e luxo ao mesmo tempo.
Quando o garçom se retirou, o silêncio ficou mais… particular.
Eu sorri para Logan.
— Espero que goste — eu disse, apontando para a mesa. — Uma coisa simples, e… confortável.
Então eu tirei o casaco devagar, como se aquilo fosse só para me sentir melhor — e não para lembrá-lo de que eu estava ali por ele.
O decote apareceu com naturalidade estudada.
Eu me aproximei mais um passo.
— E eu prometo que a sobremesa… — eu pausei, olhando para ele como se compartilhasse um segredo — vai ser muito especial.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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