~ LOGAN ~
Eu vi Mareu desaparecer escada acima e tive um impulso ridículo de dizer “não precisa”, “fica”, “desculpa”, qualquer coisa que não fosse essa sensação de que eu estava… expulsando alguém.
Mas eu não expulsei.
Ela se retirou sozinha, eficiente, como se tivesse entendido as regras não ditas do meu mundo melhor do que eu gostaria.
Paula já estava na sala como se a cabine fosse dela por direito: postura impecável, perfume que chegava antes da voz, aquele controle treinado.
O carrinho de jantar ocupava metade do ambiente. A louça brilhava. O consommé trufado soltava vapor como se tivesse sido preparado para seduzir. O risoto cremoso, os legumes, os pães, o vinho… era, de fato, perfeito.
— Você organizou tudo isso em… minutos — eu disse, mais por educação do que por admiração.
Paula sorriu com delicadeza estudada.
— Eu gosto de ser eficiente — ela respondeu, como se aquela palavra fosse uma qualidade íntima. — E eu imaginei que você não teria comido nada de verdade.
Eu puxei uma cadeira, mas não me sentei imediatamente. O gesto de ficar em pé ainda me dava uma sensação de controle.
— Foi um susto com a Olívia — eu disse, neutro, apenas para deixar claro o motivo do meu sumiço.
— Claro — Paula assentiu. — Eu entendo. Filhos vêm primeiro. Isso… é admirável.
A palavra “admirável” veio polida demais. Ela não conhecia minha filha o bastante para admirar o que quer que fosse. Ela conhecia um conceito: “pai dedicado” funciona bem com investidores.
Eu me sentei.
Paula se sentou do outro lado, mas não longe. Tudo nela era calibrado para proximidade.
— O que aconteceu com a Lívia, ela realmente está bem? — Paula perguntou.
— Olívia — corrigi. — Foi... um drama.
Eu não consegui impedir a memória de Mareu rindo, a Olívia corrigindo valores como se fosse um contrato: duzentos e duas barras de chocolate.
Paula inclinou a cabeça.
— Drama? — ela repetiu, como se experimentasse a palavra.
— Dente de leite — eu falei.
O sorriso de Paula congelou por um microssegundo. Só um. O suficiente para eu notar.
— Ah — ela disse. — Entendo.
Não entendeu. E não se importou.
Ela ergueu a garrafa de vinho.
— Você aceita?
— Não — eu disse, automático. — Obrigado.
Paula não pareceu ofendida.
— Água com gás, então. — Ela serviu como se isso fosse uma concessão. — Eu pedi esse jantar porque… achei que você merecia uma noite menos… pública.
Eu olhei para a mesa posta e para a roupa dela. Menos pública não parecia ser o objetivo.
— Foi gentil — eu disse.
— Não foi gentileza, Logan — Paula respondeu, a voz macia. — Foi intenção.
Eu mantive o rosto neutro.
Ela apontou para os pratos.
— Come. Você precisa.
Eu peguei o garfo e provei o risoto. Estava bom. Estava muito bom. O tipo de bom que faz uma pessoa esquecer por um segundo o que está sendo comprado.
Paula observou minha reação como quem coleciona vitórias pequenas.
— A sua cabine é… muito você — ela comentou, olhando ao redor. — Tudo no lugar. Tudo pensado.
— É funcional — eu disse.
— Você sempre volta para a função — Paula sorriu. — É o que meu pai diz. Que você é… impenetrável.
Eu não respondi.
Paula tomou um gole da água com gás, como se fosse champanhe.
— Logan… — ela começou, e o tom mudou. Menos social. Mais direto. — Eu sei o que você passou nos últimos meses. O seu luto.
Meu estômago apertou. O luto é uma coisa que as pessoas falam como se fosse uma etapa de checklist: “ele sofreu, agora ele segue”.
— E eu sei sobre o outro… contrato que não deu certo — ela acrescentou, como se estivesse falando de uma fusão cancelada.
Eu mantive o olhar no prato.
— Não é um assunto que eu discuta — eu disse.



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...