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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 67

~ MAREU ~

Eu me deitei. Eu apaguei a luz. Eu fechei os olhos.

E meu cérebro abriu uma reunião extraordinária.

Uma coisinha ridícula martelando por dentro, como se alguém tivesse esquecido uma torneira aberta no meu peito.

Ciúmes.

Eu estava com ciúmes de Logan Novak.

Eu, Maria Eugênia Valença, vinte e seis anos, mulher adulta, alfabetizada, vacinada, com noção mínima de dignidade social, com ciúmes de um homem que eu não tinha direito nenhum de sentir nada a respeito.

Eu virei de lado e apertei o travesseiro como se fosse um botão de desligar.

“Não é ciúme”, eu pensei, tentando me convencer com a mesma firmeza com que Olívia negociava dinheiro com a fada do dente. “É senso de responsabilidade.”

Porque Olívia estava com ciúmes.

Isso era um fato. Aquele olhar dela no almoço, aquela energia de “isso não faz parte do plano”. E, como babá responsável, eu tinha o dever moral de investigar o motivo desse ciúme — de Olívia, só pra deixar estabelecido — mais a fundo.

Pela estabilidade emocional da criança, claro.

Pela infância dela, claro.

Pela paz mundial, se necessário.

Eu respirei fundo e tentei dormir de novo.

Não funcionou.

Minha mente trouxe a imagem de Logan dançando com Paula como se fosse um comercial de algo luxuoso: ele impecável, ela perfeita, todo mundo olhando, todo mundo aprovando, como se uma pessoa pudesse ser escolhida por votação.

Eu me sentei na cama com cuidado, como se eu não quisesse acordar nem a culpa.

“Eu só vou… confirmar uma coisa.”

Sim. Confirmar. Nada de espionagem.

Eu me levantei e saí do quarto em silêncio, indo para o corredor. O carpete era macio o suficiente para que meus passos não entregassem minha vergonha. Eu caminhei na ponta dos pés, a respiração curta, me sentindo uma personagem de filme ruim — o que era irônico, considerando que eu tinha acabado de assistir um.

Lá de cima, dava para ver a sala. A iluminação estava baixa, dourada, quase íntima.

Eu me escondi atrás do parapeito como se fosse uma investigadora profissional.

Eu não era.

Eu era uma babá com insônia e falta de amor-próprio.

A voz de Paula veio primeiro. Macia. Controlada. O tipo de voz que entra num ambiente como se já estivesse nele há anos.

— …Lívia.. realmente está bem?…

Eu quase bati a testa na madeira.

Lívia.

Ela erra o nome até agora. A mulher não consegue acertar seis letras.

Eu buf… eu não bufei. Eu só soltei o ar com força. Bem baixinho.

A voz de Logan respondeu. Eu não consegui pegar tudo. O navio fazia aquele barulho contínuo de mar, como uma máquina de ruído branco que alguém ligou especificamente para impedir gente curiosa de ouvir conversas que não eram da sua conta.

O que, no caso, era uma agressão pessoal.

Eu inclinei mais o corpo. Ouvi só pedaços.

— …dente de leite…

Depois Paula de novo, mais baixa, mais perto.

— …eu entendo… luto… e o outro…

Eu congelei.

Outro o quê?

O som do mar aumentou, irritante, como se tivesse opinião própria. Eu prendi a respiração, tentando ler lábios a quinze metros de distância. Não deu. Eu não era boa em ser discreta e inteligente ao mesmo tempo.

— …contrato… — Paula disse, e eu peguei essa palavra como se fosse uma prova.

Contrato.

Meu estômago deu uma volta.

Contrato como em… Como em “papel”? Como em “arranjo”?

Eu senti uma onda de raiva que não fazia sentido com o tamanho do meu envolvimento. E eu fiquei mais irritada ainda por isso.

“Ok”, eu pensei, seca. “Então é isso.”

Logan Novak, CEO bilionário, fugindo do conselho e se reinventando… como?

Eu tentei visualizar.

Logan Novak como atendente de cafeteria? Não. Ele ia entregar o cappuccino com cara de auditoria e pedir CPF.

Logan Novak vendendo pulseirinha na praia? Também não. Ele ia montar uma planilha de estoque das pulseiras, criar metas por hora e, no fim do dia, se demitir por baixa performance.

Logan Novak trabalhando de babá…

Ah.

Meu Deus.

Eles estavam se beijando.

Ali.

Na sala.

Na minha frente, tecnicamente.

Eu levei a mão à boca por reflexo, como se eu precisasse impedir meu cérebro de fazer um comentário em voz alta.

“Quando aconteceu?”

“Como aconteceu?”

“Por que aconteceu?”

“Isso faz parte do plano do conselho ou é só uma humilhação extra pra mim?”

Eu fechei os olhos por meio segundo e senti uma raiva muito específica subir: aquela raiva que vem quando você sabe que não tem direito, mas sente mesmo assim.

Eu pensei: “Empurra.”

Eu pensei: “Separa.”

Eu pensei: “Faz cara de CEO e diz ‘não’.”

Eu pensei muitas coisas que eu não tinha direito de pensar.

Foi quando uma voz baixinha apareceu do meu lado, no corredor, como se tivesse brotado do carpete.

— O que você está fazendo?

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