~ PAULA ~
Eu nunca tive problema com silêncio.
Silêncio sempre foi uma coisa que eu controlava. Uma pausa bem colocada. Um olhar bem sustentado. A certeza de que, se eu ficasse firme, o mundo cederia primeiro.
Só que o silêncio que veio depois do “não” de Logan Novak tinha outra textura.
Não era pausa estratégica.
Era recusa.
E eu senti isso como quem sente um erro de etiqueta — não em mim, claro. No ambiente. No universo. Em qualquer lugar que não fosse a minha própria execução.
Eu não mexi o rosto. Não deixei o sorriso cair. Eu só respirei como se nada tivesse acontecido, como se eu tivesse apenas testado um limite e encontrado uma resposta… aceitável.
Logan estava ali, impecável, mas com o olhar já longe. Não em mim. Não no jantar.
— Minha filha está na cabine, no andar de cima — ele falou, como se estivesse informando o horário de uma reunião. — E a babá…
— Eu entendo — eu disse, doce, encaixando a palavra na boca como se ela tivesse sido feita pra mim.
Claro.
Sempre a filha.
Sempre a babá.
Eu segurei o pensamento com as unhas por dentro. Não era hora de parecer irritada. Irritação é para quem não tem vantagem. Eu tinha o conselho. Eu tinha meu pai. Eu tinha um contrato prestes a nascer.
Eu tinha, em teoria, tudo.
Então eu sorri do jeito certo. O jeito que não mostra dentes demais. O jeito de quem se importa.
— Talvez… — eu disse, arrastando a frase como sugestão, não pedido — a gente pudesse ir pra minha cabine.
Simples. Direto. Um passo lógico.
Ele me olhou com aquela calma irritante.
— Não vamos pular etapas.
Eu pisquei.
Pular etapas?
A frase bateu em mim como se eu tivesse tentado cortar fila num lugar onde eu mesma tinha comprado o ingresso VIP.
Eu senti uma ponta de irritação subir, mas eu não deixei escapar. Eu ri baixinho, como se aquilo fosse quase engraçado.
— Etapas? — eu repeti, delicada demais. — Logan… nossa próxima etapa é o casamento.
Ele não se mexeu.
Eu continuei, mantendo a doçura com a força de uma mão apertando uma taça sem quebrar.
— Assim que sairmos desse navio, você e meu pai vão assinar um contrato. — Eu inclinei a cabeça. — Que etapas, exatamente, eu estou “pulando”?
Logan respirou, e por um instante eu vi um cansaço real no rosto dele. Não cansaço de sono. Cansaço de pessoa.
— Paula — ele disse, e o tom dele era educado, mas fechado. — É natural nos conhecermos, sim, mas...
Eu aproveitei.
— Exatamente — eu falei, como se ele estivesse finalmente concordando comigo. — Então vamos nos conhecer. Antes de… tudo.
— Mas não nesse navio — ele completou, cortando a linha que eu estava puxando. — Não nessa viagem.
Meu sorriso ficou parado no lugar, impecável.
— Por quê? — eu perguntei, ainda doce, ainda calma, ainda civilizada. — É o lugar perfeito. Discreto. Sem imprensa. Sem ruído.
Logan olhou para a mesa posta, para a comida que eu tinha mandado, para mim, e eu senti que ele via o que eu estava fazendo.
E ele não queria jogar.
— Meus planos aqui não são esse tipo de… distração — ele disse. — Eu preciso focar nos negócios e na minha filha. Foi pra isso que eu vim.
Eu ouvi o subtexto como se fosse alto:
E não foi por você.
Eu mantive o rosto perfeito. Perfeito demais.
— Entendo — eu disse. — Então vamos fazer assim...
Eu apoiei as mãos na mesa e me inclinei um pouco, numa postura de acordo, não de derrota.
— Temos um encontro marcado assim que voltarmos para o Rio.
Logan hesitou por um segundo.
E eu vi, logo atrás, a outra presença.
A babá.
Ofegante. Tensa. Com aquela postura de quem sempre está a meio passo de quebrar a própria regra e dizer o que pensa.
— Desculpa — ela começou, a voz rápida. — Ela acordou e…
Eu quase não ouvi o resto.
Porque, quando eu vi o rosto dela sob aquela luz, alguma coisa encaixou.
Não era só o episódio da água.
Não era só o “pijama no baile”.
Era outra coisa.
Um rosto em um cenário diferente.
Um sobrenome que não devia estar ali.
Eu senti o sangue esfriar com uma clareza absurda.
Eu conhecia aquela babá.
E isso…
isso não fazia sentido.
Eu olhei de novo, tentando confirmar. O mesmo maxilar. O mesmo olhar. A mesma presença que não combina com “funcionária invisível”.
Meu cérebro começou a puxar o fio com cuidado, como quem não quer acreditar no que vai encontrar.
E eu sorri — não com doçura.
Com certeza.
Porque, de repente, eu não estava mais lidando com uma babá inconveniente.
Eu estava lidando com uma peça fora do tabuleiro.
E eu finalmente sabia de onde.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...