~ MAREU ~
Eu subi as escadas quase correndo, mas tentando não parecer que eu estava correndo. Porque, aparentemente, eu ainda tinha uma parte do cérebro preocupada com etiqueta, mesmo quando a criança da casa tinha acabado de declarar guerra ao próprio pai.
Quando eu cheguei no corredor de cima, a porta do quarto da Olívia estava encostada. Não fechada com força. Encostada. Como se ela tivesse entrado correndo demais para lembrar de bater.
Eu empurrei devagar.
— Liv…? — eu chamei, baixo. Do jeito que a gente chama alguém quando sabe que a pessoa pode estar desmoronando e não quer assustar mais.
A resposta veio em forma de som.
Um choro abafado, esquisito, como se ela estivesse tentando engolir as lágrimas para não deixar ninguém ver. Como se chorar fosse contra as regras internas dela.
Ela estava na cama, encolhida, o lençol puxado até o queixo. O rostinho virado para a parede. Os ombros tremendo com pequenos soluços indignados.
Eu parei no meio do quarto. Porque, por mais que eu tivesse vivido metade da minha vida vendo adultos chorarem em festas bonitas, aquilo era diferente.
Olívia não chorava assim.
Olívia calculava, negociava, corrigia gramática. Olívia não… tremia.
— Ei — eu disse, me aproximando devagar. — Eu tô aqui.
Ela não virou. Mas eu senti o corpo dela reagir ao som da minha voz, como se meu “tô aqui” fosse uma coisa sólida.
Eu me sentei na beirada da cama, a uma distância cuidadosa, porque eu não sabia se ela queria abraço ou se abraço seria invasão.
Olívia soluçou mais forte.
— Ele… — ela tentou, e falhou. Engoliu ar. Tentou de novo. — Tava beijando...
Eu fechei os olhos por meio segundo.
— Eu vi — eu respondi, honesta.
Ela virou o rosto para mim num movimento rápido, quase raivoso, como se a confirmação doesse mais.
Os olhos dela estavam vermelhos. Molhados de verdade. A expressão… quebrada. E ainda assim havia ali um esforço heroico de parecer forte.
— Você viu — ela repetiu, e a voz saiu fina. — Então você sabe.
— Eu sei — eu disse.
Ela ficou me olhando como se eu fosse um tribunal.
— Isso é… — ela começou, procurando uma palavra grande. Não achou. E a falta da palavra fez a raiva aparecer. — Isso é errado.
A voz dela falhou no final, e ela apertou a própria camiseta por baixo do lençol como se estivesse tentando segurar alguma coisa dentro do peito. O rosto dela estava manchado, vermelho, e tinha um brilho molhado no nariz — aquele tipo de choro que não tem elegância nenhuma. Eu nunca tinha visto Olívia sem elegância.
Eu respirei, escolhendo cuidadosamente o que dizer. Porque qualquer frase mal colocada poderia virar uma bomba.
— Liv, eu entendo que você esteja com raiva. E triste. E… confusa.
— Não é confuso — ela disparou, com um soluço no meio. — É simples. Ele não pode.
Ela falava como se estivesse apresentando uma tese, mas o que saía era um soluço travado, desesperado, que não obedecia a lógica nenhuma. O contraste era quase cruel: a cabeça dela queria controlar, o corpo dela estava desobedecendo.
Eu senti o peito apertar com uma coisa que eu não queria nomear. Não era só pena. Era aquela pontada de “eu não deveria estar aqui”.
Porque eu também era parte do problema. Eu estava tentando acalmar a filha de um homem que eu tinha acabado de… complicar.
Eu tinha beijado o pai dela.
Eu tinha dormido com Logan Novak e… céus, eu tinha gostado.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...