~ MAREU ~
Eu não estranhei a palavra “contrato”.
Olívia chamava metade da vida de contrato.
Chocolate era contrato. Horário era contrato. Até “promessa de não rir” vinha com termos e condições.
O que me deu um nó por dentro foi perceber qual era o contrato dessa vez.
Porque ela ainda estava com o rosto molhado, com a voz quebrada nas pontas, e mesmo assim já estava fazendo aquilo que fazia melhor: tentar transformar um sentimento que doía em uma coisa que pudesse ser assinada.
Eu vi a decisão endurecendo o que o choro tinha amolecido. Vi a criança tremendo por baixo e, por cima, aquela mini executiva puxando uma prancheta imaginária pra dentro da cama.
Eu não tive coragem de interromper.
— Um… contrato?
— Sim — ela falou, firme, como se fosse óbvio. — Porque ele não está sendo confiável.
Eu abri a boca. Fechei. A vontade de rir veio por reflexo. Não do choro, não da dor, mas do jeito como ela tinha acabado de carimbar o próprio pai como “não confiável”, como se ele fosse um fornecedor que atrasou a entrega. Mas, naquele momento, qualquer riso errado podia soar como traição.
— Tá — eu disse, com cuidado. — Um contrato.
Olívia esticou o braço e puxou a gaveta da mesinha de cabeceira. Remexeu dentro com a pressa de quem já tinha feito isso antes, e tirou um caderno pequeno e uma caneta.
Eu vi que as mãos dela tremiam um pouco. Mas ela segurou a caneta como se fosse uma arma.
— Eu preciso que você seja testemunha — ela disse.
— Testemunha?
— Sim — ela confirmou. — Porque você viu. E porque ele respeita você.
Eu quase engasguei.
— Ele respeita…?
— Respeita — ela cortou. — Ele te escuta. Ele não escuta todo mundo.
Eu senti um gelo na nuca. Não pelo elogio. Pelo peso escondido nele.
— Liv…
— E você vai entregar pra ele — ela continuou, ignorando meu tom. — Porque se eu entregar, ele vai… — ela fez uma careta de desgosto — tentar me convencer com voz de pai triste.
Eu segurei o impulso de dizer “ele é o pai”.
Porque eu sabia o que ela queria dizer: se ele falasse, ele ia transformar aquilo em conversa. E ela não queria conversa. Ela queria regra.
Olívia apoiou o caderno no joelho e começou a escrever com letras grandes, tortas, mas decididas.
No topo, ela escreveu:
CONTRATO DO PAPAI
E eu, honestamente, senti vontade de chorar e rir ao mesmo tempo.
Ela começou a listar, falando enquanto escrevia, como se ditasse para uma secretária invisível.
— Regra 1: Eu e o Liam sempre vamos ser prioridade — ela disse, e escreveu “PRIORIDADE” com tanta força que quase rasgou o papel.
— Regra 2: Você não pode esquecer a mamãe. Nunca. Nem se você perder a memória em um acidente. Isso não conta como desculpa.
Ela parou, apertou a caneta, e completou em voz alta:
— Regra 3: Você vai falar da mamãe quando eu perguntar. Sem mudar de assunto.
Eu mordi o lado de dentro da bochecha.
— Regra 4: Se você beijar outra mulher de novo… — ela respirou fundo, dramática, e eu vi o tremor voltar — eu não sou mais sua filha.
Meu estômago afundou.
— Liv… — eu falei, a voz saindo baixa demais.
Ela não me olhou. Continuou escrevendo como se aquilo fosse um fato jurídico.
— Regra 5 — ela disse, e agora a voz estava mais fina — você não vai trocar a mamãe. Você não vai trocar. Você não vai.
Ela repetiu “não vai” três vezes no papel, como se a repetição fosse uma trava.
Depois ela escreveu:
ASSINATURA DO PAPAI: _______________________________
E fez um espaço enorme, exigente.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...