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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 76

~ MAREU ~

Eu estava de folga naquela tarde.

Olívia tinha ficado numa atividade infantil do navio. Uma daquelas coisas com monitores treinados, pulseirinhas coloridas e um cronograma perfeitamente pensado. Ela tinha ido com a postura de quem estava indo pra uma reunião do conselho, óbvio. Nem “tchau” ela deu. Só um aceno curto, como quem diz: estou sob controle; volte em duas horas.

E Logan tinha saído pra uma reunião. Porque até no meio do oceano o mundo corporativo encontrava um jeito de subir a bordo, sentar numa sala bonita e cobrar “alinhamento”.

Eu, então, tinha… tempo.

Então, quando Clara apareceu, eu aceitei o convite sem discutir demais, porque eu estava cansada de discutir até com as coisas boas.

— Vem comigo — ela anunciou, surgindo na porta como se fosse dona do meu calendário.

Eu levantei os olhos do sofá e fiz a cara que eu usava quando queria parecer difícil só pra manter a reputação.

— Isso é um sequestro?

Clara levantou o pulso e balançou um bracelete dourado, discreto, que brilhava do jeito certo.

— É um convite VIP. Pro spa. Mimo de bordo.

Eu encarei aquilo como se fosse um animal exótico.

— Como você conseguiu isso?

— Ganhei — ela disse, simples, com um sorriso que dava raiva. — Ser sociável tem suas vantagens.

— Tá — eu cedi, porque naquele dia eu não tinha energia pra ser teimosa. — Mas se eu virar um camarão, a responsabilidade é sua.

Clara sorriu, satisfeita, e saiu me puxando pelo corredor como se a vida dependesse disso.

O spa era uma parte do navio que parecia um outro universo. Luz baixa, cheiro de coisa cara (eucalipto, lavanda, dinheiro aromatizado), gente andando devagar e falando baixo.

Clara mostrou o bracelete e a atendente nos olhou como se eu não fosse uma babá com olheiras e sim uma herdeira entediada.

A sauna ficava num corredor de portas de madeira clara, tudo tão limpo e perfeito que dava nervoso. Como se qualquer falha ali fosse impossível.

A funcionária abriu a porta e o vapor suave imediatamente nos envolveu. O ambiente era bonito. Claro. Madeira, bancos alinhados, aquele cheiro de eucalipto que prometia paz.

Eu sentei e respirei fundo.

Era bom.

E justamente por ser bom, meu corpo demorou um segundo pra relaxar. Relaxar parecia perigoso demais.

Clara se sentou ao meu lado e me olhou com aquela expressão de “viu?”.

— Eu te disse — ela falou.

— Você diz muita coisa — eu respondi. — Nem tudo eu confio.

Clara riu. Ficou ali mais um minuto, até olhar de novo pra fora, como quem teve uma ideia.

— Espera aqui — ela disse. — Eu vou buscar umas taças. Tem uma bandeja ali fora. Parece vinho. Ou espumante.

Eu sentei mais ereta.

— Vinho na sauna é o cúmulo do luxo irresponsável.

Clara apontou pra mim com um dedo, rindo.

— Perfeito! Fica aqui. Eu volto já.

E saiu.

Eu fiquei sozinha.

O vapor parecia mais espesso sem a Clara falando. O silêncio no spa era tão polido que eu quase ouvi o meu coração.

Eu respirei fundo, tentando aproveitar.

Do lado de fora, ouvi o som da porta fechando.

Um “clac” pequeno, elegante.

Eu olhei pra porta.

Só… porta. Madeira. Vidro pequeno na parte de cima.

Eu levantei e fui até ela, sem pressa, mais por hábito do que por medo. Girei a maçaneta, querendo só confirmar que estava tudo normal.

Não abriu.

Eu tentei de novo, rindo baixinho.

— Claro — eu murmurei. — Claro.

— Clara! — eu gritei.

Ela viu meu rosto no vidro e veio na hora. Puxou a maçaneta. Empurrou. Puxou de novo.

Nada.

O alívio virou outra coisa dentro de mim. Uma coisa que apertou a garganta.

Clara tentou mais uma vez, com força, e o corpo dela já estava em pânico. Eu vi pelos ombros tensos, pela mão tremendo.

— Não tá abrindo — ela disse, com a voz alta demais pro corredor silencioso.

— Eu sei — eu respondi, tentando manter a minha no lugar. — Eu tentei.

Clara encostou a mão no vidro, bem onde eu estava, como se pudesse me tocar.

— Respira comigo — ela pediu, e começou a respirar exagerado, só pra eu copiar.

Eu copiei. Não porque ajudava muito, mas porque eu precisava de alguma coisa pra obedecer.

O calor aumentava e eu sentia a cabeça ficando leve. Suor escorrendo pelo pescoço, cabelo grudando, a sensação de que o ar não entrava completo.

— Tá quente demais — eu falei, e odiei o tremor na minha voz.

Clara arregalou os olhos.

— Olha pra mim — ela disse rápido, desesperada. — Fica perto da fresta. Respira pelo nariz, solta pela boca. Eu vou buscar ajuda.

Eu engoli.

— Vai — eu murmurei. — Vai logo.

Clara saiu correndo pelo corredor.

Eu fiquei olhando o vazio do lado de fora pela janelinha.

A solidão voltou.

Eu encostei a testa na madeira e puxei ar, devagar, tentando segurar o corpo no lugar.

Tudo que eu consegui pensar foi: eu não queria morrer ali. Eu tinha coisas demais pra resolver e zero interesse em virar o fantasma do spa de um navio de luxo.

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