~ CLARA ~
Eu corri.
Corri até a recepção como quem corre de um incêndio. E, quando eu cheguei, a atendente me olhou com aquele sorriso treinado, limpo, perfeito.
— Com licença — eu disse, e a minha voz já saiu cortada pela urgência. — Minha amiga está presa na sauna VIP. Ela não consegue sair.
O sorriso da atendente tremeu. Um milímetro.
— Senhora, calma…
— Não dá pra calma — eu cortei. — Ela tá lá dentro. Está quente. Ela tá ficando tonta.
A atendente piscou, processando.
— Eu vou… eu vou acionar o protocolo — ela disse, pegando o rádio.
Eu senti raiva. Uma raiva seca, imediata, porque “protocolo” sempre vinha com “aguarde”.
— Protocolo? — eu repeti, sentindo o sangue subir. — Que porra de protocolo você precisa pra abrir uma porta? VEM COMIGO!
A atendente hesitou um segundo, presa na regra invisível de “não saia do balcão”. Então pegou o rádio e veio atrás de mim com passos pequenos, como se ela estivesse entrando num lugar proibido.
No caminho de volta, eu já gritava:
— Segurança! Tem alguém preso! Agora!
A música relaxante continuava.
Eu queria socar a caixa de som.
Quando eu voltei para a porta da sauna, a Mareu estava mais suada. O rosto mais vermelho. O olhar tentando focar.
Eu encostei a mão no vidro.
— Eu tô aqui — eu falei, firme, porque eu precisava que ela ouvisse firmeza, mesmo se eu não tivesse. — Eu tô resolvendo. Respira comigo.
Eu respirei exagerado, do jeito mais ridículo possível. Mareu tentou copiar. Ela fez um som que parecia uma risada fraca e isso me partiu.
— Clara… — ela chamou, e a voz veio abafada. — Isso é… sério.
— Eu sei — eu respondi. — Mas você vai ficar bem.
Eu precisava acreditar no que eu estava dizendo. Precisava.
A atendente falou no rádio, e eu ouvi um amontoado de palavras técnicas: “porta… sauna… área VIP… travamento…”.
Poucos segundos depois, dois funcionários apareceram. Um homem com cara de manutenção e outro com crachá de segurança. Os dois com a expressão de quem entrou num problema que não era da escala deles.
— O que aconteceu? — o da segurança perguntou.
— Ela tá presa aí dentro — eu falei, apontando como se eu tivesse que provar o óbvio. — A porta não abre.
Ele tentou a maçaneta. Tentou de novo. Testou outra coisa que eu não vi direito porque eu estava com os olhos na Mareu.
Nada.
O homem da manutenção se abaixou, olhou a base da porta, falou alguma coisa para a atendente, e a atendente respondeu no rádio.
E foi aí que eu comecei a ouvir o idioma do inferno:
— “Precisa do responsável.”
— “Já foi acionado.”
— “Aguarde.”
Eu senti meu sangue ferver.
— Ela não tem tempo pra aguardar — eu disse, e a minha voz saiu mais alta do que eu queria. — Vocês não estão entendendo. Ela tá passando mal. Ela tá presa no calor.
O segurança levantou as mãos, num gesto automático de apaziguar.
— Senhora, estamos seguindo o procedimento…
— O procedimento não tá lá dentro com ela — eu rosnei.
Mareu encostou a mão na madeira do lado de dentro, como se estivesse tentando me alcançar.
Eu voltei para a janelinha, grudando o rosto no vidro.
— Mareu, escuta — eu falei, bem perto. — Senta. Bem baixinho. Encosta as costas. Respira devagar. Se ficar mais tonta, me fala. Me fala na hora.
Ela assentiu, e a cabeça dela pareceu pesar.
— Mareu — eu chamei de novo, voltando para a janelinha antes que minha mente fosse longe demais. — Eu tô aqui. Você tá indo bem. Me olha.
Ela abriu os olhos e assentiu, mas o olhar dela parecia mais distante.
Mareu mexeu os lábios, e eu vi ela tentando fazer piada.
— Clara… Se eu morrer… você…
— Cala a boca — eu interrompi, imediatamente, porque eu não suportava. — Você não vai morrer.
Atrás de mim, eu ouvi mais passos. Mais gente chegando. Mais “responsáveis”.
E ainda assim… ainda assim ninguém abria.
Era isso que me enlouquecia: todo mundo tinha crachá, rádio, protocolo, mas a porta continuava lá, fechada, tranquila, como se não houvesse uma pessoa lá dentro.
Foi aí que deu um estalo. Se gente com crachá e rádio não podia abrir uma porta, então eu precisava de alguém que não pedisse permissão. Eu tinha esse número no meu celular.
Eu puxei o celular do bolso com a mão suada e tremendo, e meus dedos foram no contato que eu sabia que ia se mover.
Eu apertei chamar.
O telefone chamou duas vezes e ele atendeu.
— Clara?
A voz dele veio fácil, como sempre — e eu quis odiar a facilidade por meio segundo. Depois eu engoli isso.
Minha voz saiu quebrada, mas firme, como se eu estivesse segurando um prédio inteiro.
— Henrique, é a Mareu.
Um silêncio curto do outro lado. O tipo de silêncio que acontece quando o mundo sai do modo piada e entra no modo sério.
Eu continuei, atropelando a própria respiração.
— Ela tá presa na sauna. A porta travou. Tá quente demais. Eu não sei o que tá acontecendo, ninguém consegue abrir.
Eu engoli, sentindo a garganta arder.
— Alguém precisa fazer alguma coisa, AGORA.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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