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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 78

~ LOGAN ~

O sol batia no convés com uma gentileza ensaiada, o gelo tilintava nos copos, e as pessoas riam como se o mundo não tivesse prazos, contratos e acionistas. O mar, ao redor, fazia o papel dele: bonito, constante, convincente.

Eu estava no meio de uma apresentação sem slides.

Do jeito que eu preferia.

Alguns homens importantes — investidores e representantes — me cercavam com sorrisos e perguntas que já vinham com a resposta dentro. Eu apontava detalhes do navio como quem aponta números em uma planilha.

— Due diligence começa amanhã — eu disse, como se eu estivesse escolhendo um vinho. — A proposta final, em quarenta e oito horas.

Eu estava no controle.

Até Henrique franzir a testa olhando para o próprio celular.

Foi um movimento pequeno. Um detalhe. O tipo de detalhe que eu aprendi a ver antes de qualquer outra pessoa, porque era assim que eu sobrevivia: lendo microexpressões antes que elas virassem incêndio.

— Me dá cinco minutos — ele murmurou, e se afastou um pouco, se virando de lado para a multidão.

Eu continuei falando com os homens à minha frente, mantendo o fluxo, mantendo o ambiente leve.

Só que eu ouvi.

A voz de Henrique estava baixa, mas o meu ouvido já tinha se calibrado para problemas antes mesmo de eu saber o nome deles.

— Clara?… Mais devagar. Eu não tô entendendo… — ele disse, com aquela paciência automática que ele usava quando alguém entrava em pânico.

Eu respondi a uma pergunta qualquer, sorri no ponto certo, e ouvi a frase que rachou o cenário inteiro.

— A Mareu?… Mareu está presa na sauna?

O mundo perdeu o som por um segundo.

Cheguei em Henrique no meio da frase seguinte e arranquei o telefone da mão dele sem pedir.

— Clara — eu falei, direto, e a minha voz saiu com uma dureza que eu não tinha usado na apresentação. — Qual sauna?

Do outro lado, eu ouvi respiração rápida, palavras atropeladas.

— Quanto tempo? — eu cortei. — Clara, quanto tempo ela está lá dentro?

Mais palavras, confusas.

Eu apertei os olhos, como se isso fizesse a informação entrar mais rápido.

— Quinze minutos? — eu perguntei, e a pergunta veio afiada. Não era só curiosidade. Era cálculo. Era limite.

Henrique já estava do meu lado de novo, e eu ouvi ele falando com alguém que eu nem tinha visto se aproximar. Segurança, provavelmente. Gente do navio que reconhecia o tipo de tom que eu estava usando agora.

Clara respondeu do outro lado com alguma coisa que soou como “mais ou menos” e “ela tá ficando tonta”, e foi o suficiente.

Eu devolvi o telefone para Henrique como se aquilo queimasse.

— Vamos até lá agora — eu disse.

Henrique nem questionou. Ele só virou e começou a andar comigo, e eu vi pelo canto do olho os investidores me encarando com surpresa.

Eu não parei para explicar.

Eu não tinha tempo para reputação naquele segundo.

— Chama engenharia — eu disse para o primeiro segurança que apareceu no nosso caminho. — Agora. E chama o chefe de segurança do navio.

O homem assentiu, já falando no rádio.

Henrique acompanhava meu passo.

— Logan, calma — ele tentou, por instinto.

Eu olhei para ele uma fração de segundo.

— Eu tô calmo.

E eu estava. Do jeito mais perigoso de todos: calmo por fora, com tudo por dentro se movendo rápido demais.

O caminho até o spa pareceu longo demais para um navio que eu conhecia como se fosse meu próprio corpo.

Quando chegamos no corredor, eu ouvi o ruído antes de ver: vozes, passos, aquele caos que se forma quando muitas pessoas tentam ser úteis ao mesmo tempo.

Clara estava ali, colada na porta, o rosto branco, o olhar preso na janelinha.

Ela me viu e foi como se alguém tivesse colocado oxigênio no corredor.

— Senhor Novak — ela disse, e a palavra saiu quase como acusação. Como “faz alguma coisa”.

Eu não parei para conversa. Eu encarei a porta.

O vapor ainda batia no vidro fosco.

— Mareu — eu chamei, alto.

Não ouvi resposta.

Clara falou rápido demais:

— Ela tá tonta. Tá suando muito. Ninguém consegue abrir. Eles ficam falando de protocolo...

— Cadê o chefe do spa? — eu perguntei.

Um funcionário apontou para outro homem, nervoso, com rádio na mão.

— Tentaram cortar o aquecimento? — eu perguntei, seco, e o homem piscou como se eu tivesse falado uma língua estrangeira.

— Estamos aguardando a engenharia, senhor…

A palavra aguardando me atravessou como um insulto.

Dois, três… quatro segundos.

Então as luzes de emergência acenderam — fracas, frias, espalhadas. Alarmes curtos soaram em algum lugar do navio. A música do spa morreu de vez. O ar pareceu parar por um momento.

E eu não pensei em investidor nenhum.

Eu só pensei nela.

— Abre essa porta — eu falei, e a minha voz saiu baixa e brutal.

O engenheiro na porta fez mais uma tentativa, e dessa vez houve um som diferente.

Um clique de alívio.

A porta cedeu.

O vapor saiu como um golpe, quente e úmido, invadindo o corredor como se a sauna tivesse explodido de dentro pra fora.

Eu entrei antes de qualquer um tentar me impedir.

Lá dentro, a Mareu estava caída de lado, encostada no banco, a pele vermelha, o cabelo grudado no rosto. Os olhos semiabertos, sem foco.

O meu peito apertou num lugar que eu não controlava.

Eu ajoelhei ao lado dela, esqueci madeira, esqueci vapor, esqueci o mundo.

— Mareu — eu chamei, mais baixo agora. — Ei.

Ela mexeu a cabeça um milímetro, como se isso custasse tudo.

Eu passei a mão pelo rosto dela, rápido, tentando trazer ela de volta só com toque e voz.

— Olha pra mim — eu falei, e eu nem sabia de onde tinha vindo aquele pedido. — Fica comigo.

Ela tentou respirar e falhou. Um som curto, quebrado.

Eu não pensei duas vezes. Enfiei um braço por trás das costas dela e outro por baixo das pernas e a levantei.

No meu colo, ela era mais leve do que deveria.

E isso me deu vontade de destruir alguém.

— Ei, ei — eu falei, grudando o rosto no dela, como se proximidade fosse âncora. — Fica comigo. Eu tô aqui. Eu tô aqui.

Eu saí com ela da sauna, atravessando o vapor e o corredor de luz fraca, ouvindo Clara soluçar alguma coisa que eu não registrei.

Eu só registrei a pele quente dela contra o meu braço.

O peso dela cedendo.

E o medo novo que eu não sabia controlar.

— Mareu — eu disse de novo, a voz falhando. — Fica comigo.

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