~ LOGAN ~
O sol batia no convés com uma gentileza ensaiada, o gelo tilintava nos copos, e as pessoas riam como se o mundo não tivesse prazos, contratos e acionistas. O mar, ao redor, fazia o papel dele: bonito, constante, convincente.
Eu estava no meio de uma apresentação sem slides.
Do jeito que eu preferia.
Alguns homens importantes — investidores e representantes — me cercavam com sorrisos e perguntas que já vinham com a resposta dentro. Eu apontava detalhes do navio como quem aponta números em uma planilha.
— Due diligence começa amanhã — eu disse, como se eu estivesse escolhendo um vinho. — A proposta final, em quarenta e oito horas.
Eu estava no controle.
Até Henrique franzir a testa olhando para o próprio celular.
Foi um movimento pequeno. Um detalhe. O tipo de detalhe que eu aprendi a ver antes de qualquer outra pessoa, porque era assim que eu sobrevivia: lendo microexpressões antes que elas virassem incêndio.
— Me dá cinco minutos — ele murmurou, e se afastou um pouco, se virando de lado para a multidão.
Eu continuei falando com os homens à minha frente, mantendo o fluxo, mantendo o ambiente leve.
Só que eu ouvi.
A voz de Henrique estava baixa, mas o meu ouvido já tinha se calibrado para problemas antes mesmo de eu saber o nome deles.
— Clara?… Mais devagar. Eu não tô entendendo… — ele disse, com aquela paciência automática que ele usava quando alguém entrava em pânico.
Eu respondi a uma pergunta qualquer, sorri no ponto certo, e ouvi a frase que rachou o cenário inteiro.
— A Mareu?… Mareu está presa na sauna?
O mundo perdeu o som por um segundo.
Cheguei em Henrique no meio da frase seguinte e arranquei o telefone da mão dele sem pedir.
— Clara — eu falei, direto, e a minha voz saiu com uma dureza que eu não tinha usado na apresentação. — Qual sauna?
Do outro lado, eu ouvi respiração rápida, palavras atropeladas.
— Quanto tempo? — eu cortei. — Clara, quanto tempo ela está lá dentro?
Mais palavras, confusas.
Eu apertei os olhos, como se isso fizesse a informação entrar mais rápido.
— Quinze minutos? — eu perguntei, e a pergunta veio afiada. Não era só curiosidade. Era cálculo. Era limite.
Henrique já estava do meu lado de novo, e eu ouvi ele falando com alguém que eu nem tinha visto se aproximar. Segurança, provavelmente. Gente do navio que reconhecia o tipo de tom que eu estava usando agora.
Clara respondeu do outro lado com alguma coisa que soou como “mais ou menos” e “ela tá ficando tonta”, e foi o suficiente.
Eu devolvi o telefone para Henrique como se aquilo queimasse.
— Vamos até lá agora — eu disse.
Henrique nem questionou. Ele só virou e começou a andar comigo, e eu vi pelo canto do olho os investidores me encarando com surpresa.
Eu não parei para explicar.
Eu não tinha tempo para reputação naquele segundo.
— Chama engenharia — eu disse para o primeiro segurança que apareceu no nosso caminho. — Agora. E chama o chefe de segurança do navio.
O homem assentiu, já falando no rádio.
Henrique acompanhava meu passo.
— Logan, calma — ele tentou, por instinto.
Eu olhei para ele uma fração de segundo.
— Eu tô calmo.
E eu estava. Do jeito mais perigoso de todos: calmo por fora, com tudo por dentro se movendo rápido demais.
O caminho até o spa pareceu longo demais para um navio que eu conhecia como se fosse meu próprio corpo.
Quando chegamos no corredor, eu ouvi o ruído antes de ver: vozes, passos, aquele caos que se forma quando muitas pessoas tentam ser úteis ao mesmo tempo.
Clara estava ali, colada na porta, o rosto branco, o olhar preso na janelinha.
Ela me viu e foi como se alguém tivesse colocado oxigênio no corredor.
— Senhor Novak — ela disse, e a palavra saiu quase como acusação. Como “faz alguma coisa”.
Eu não parei para conversa. Eu encarei a porta.
O vapor ainda batia no vidro fosco.
— Mareu — eu chamei, alto.
Não ouvi resposta.
Clara falou rápido demais:
— Ela tá tonta. Tá suando muito. Ninguém consegue abrir. Eles ficam falando de protocolo...
— Cadê o chefe do spa? — eu perguntei.
Um funcionário apontou para outro homem, nervoso, com rádio na mão.
— Tentaram cortar o aquecimento? — eu perguntei, seco, e o homem piscou como se eu tivesse falado uma língua estrangeira.
— Estamos aguardando a engenharia, senhor…
A palavra aguardando me atravessou como um insulto.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...