~ HENRIQUE ~
Se tem uma coisa que eu odeio mais do que atraso, é incompetência.
O corredor do spa ainda tinha aquele cheiro de eucalipto que devia significar paz, mas, pra mim, só significava que uma tragédia quase aconteceu num lugar feito pra gente fingir que relaxa.
O gerador de emergência já tinha estabilizado as luzes fracas, e o barulho do navio voltava aos poucos — um zumbido distante, como se nada tivesse sido grande coisa. Só que eu tinha visto o Logan sair da sauna com a Mareu no colo.
Eu tinha visto a cor da pele dela.
Eu tinha visto o jeito como ela não estava ali inteira.
E isso era o tipo de imagem que meu cérebro não deixava “passar”.
— Onde está o responsável por isso? — eu perguntei, e minha voz saiu num tom que eu raramente usava. Sem charme, sem piada, só “vamos resolver”.
Um segurança apontou para um homem de postura rígida, rádio na mão, cara de “sou o responsável até alguém acima de mim aparecer”.
Eu fui até ele.
— Explica — eu disse.
— Senhor Alencar, nós seguimos o protocolo…
Eu senti minha mão fechar em punho.
— Ótimo. Então explica por que o protocolo falhou em todas as etapas.
O homem engoliu seco.
— A porta não deveria travar desse jeito. A sauna tem procedimentos de segurança…
— Pois é — eu cortei, sem paciência. — Não deveria. E, mesmo assim, travou.
Eu olhei ao redor. Recepcionista do spa, manutenção, dois funcionários que pareciam ter sido arrancados do almoço, seguranças. Um pequeno teatro de gente que, quando a coisa aperta, se organiza em semicírculo e espera alguém tomar a culpa por eles.
— Por que ninguém pensou em cortar o setor antes? — eu perguntei, alto o suficiente para todos ouvirem.
Um dos homens da manutenção respondeu, como se estivesse recitando um manual.
— Não temos autorização para isolar circuitos sem confirmação. Pode causar falhas maiores, senhor. Queda de sistema, blackout...
Eu dei um passo pra frente.
— Pelo amor de Deus — eu falei, e a minha voz subiu de vez. — Tinha uma mulher morrendo ali dentro. Vocês iam deixar isso acontecer porque “não tem autorização”?
O corredor ficou num silêncio feio. Não o silêncio elegante do spa — o silêncio de gente sendo obrigada a encarar a própria covardia.
O segurança tentou intervir, com aquele tom educado de quem quer evitar escândalo.
— Senhor, estamos apurando...
— Apurando depois — eu rosnei. — Primeiro eu quero entender como uma porta de sauna prende alguém dentro num navio desse. E eu quero nomes. Agora.
Eu não estava gritando por espetáculo. Eu estava gritando porque, se eu não gritasse, alguém ia usar o “evento” como uma anomalia estatística, um incidente a ser arquivado com etiqueta bonita.
E eu tinha aprendido cedo: quando você deixa gente incompetente arquivar coisa grave, ela volta pior.
Eu virei o rosto para o segurança.
— Quem autorizou o acesso VIP hoje?
Ele franziu a testa, confuso.
— A agenda do spa é com a recepção...
— Então chama a recepção — eu falei. — Agora.
A recepcionista do spa, uma mulher de uniforme impecável e sorriso que já tinha morrido, deu um passo à frente.
Eu olhei para ela.
— O navio está lotado — eu disse, e minha cabeça já trabalhava no caminho mais óbvio. — Esse spa VIP é disputado. Certo?
— Sim, senhor — ela disse. — Especialmente em dias de navegação como hoje.
Eu respirei pelo nariz, devagar.
— Então por que estava vazio?
Ela hesitou um segundo, e isso foi o suficiente pra eu saber que tinha algo ali.
— Havia uma reserva VIP Gold para hoje — ela explicou. — Exclusiva. Só as duas senhoritas.
Eu virei devagar na direção da Clara.
Clara estava encostada na parede, braços cruzados com força demais, como se tivesse que segurar a própria pele no lugar. O rosto dela ainda estava pálido, os olhos vermelhos, mas havia ali um tipo novo de lucidez — aquele olhar de quem já passou do pânico e agora só quer respostas.
— Eram só vocês duas aqui? — eu perguntei pra ela, mais baixo.
— Eu achei que era um agradecimento pela… nossa parceria — ela disse rápido, os olhos fugindo um pouco. — Enfim. Eu não pensei muito.
Eu pensei.
Pensei rápido demais.
Pensei em como uma “cortesia VIP Gold” é uma isca perfeita.
Pensei em como colocar “Henrique Alencar” num cartão é a forma mais fácil de garantir que Clara não desconfiaria.
Eu olhei para Clara.
— Não fui eu.
Ela congelou.
— Não foi? — a palavra saiu pequena, e por um instante eu vi mais do que confusão. Vi um corte rápido de decepção, que ela tentou esconder como se fosse só surpresa.
Eu dei um passo para mais perto.
— Clara. Eu não mandei flores. Eu não mandei cartão. E eu não mandei pulseira nenhuma.
A cor no rosto dela mudou, a compreensão vindo com atraso, pesada, amarga.
Ela olhou para o corredor, para a porta, para a recepção, como se o mundo tivesse virado uma coisa diferente de repente.
Eu encostei a mão na parede ao lado dela, criando um abrigo mínimo.
— Clara — eu falei, direto, sem charme, sem joguinho. — Você entende o que está acontecendo aqui?
Ela assentiu devagar, os olhos fixos nos meus.
A voz dela saiu firme, apesar de quebrada.
— Entendo.
E a gente falou ao mesmo tempo, como se a frase estivesse presa na garganta desde o primeiro “clac” da porta.
— Alguém está tentando… — começamos juntos.
— …matar a Mareu — Clara completou, no mesmo instante em que eu completei:
— …sabotar o Logan.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...