~ HENRIQUE ~
— O quê? — eu repeti, porque às vezes o cérebro precisa ouvir a própria voz pra acreditar no absurdo. — Por que alguém tentaria matar a Mareu?
Clara deu de ombros, mas foi um gesto ruim, sem leveza. Um ombro que não diz “tanto faz”. Diz “eu ainda tô tentando encaixar as peças e nenhuma cabe”.
— Eu não sei — ela falou, e a voz dela saiu seca. — Eu só sei que… tudo foi armado pra que fosse ela naquela sauna.
Clara respirou e completou, como se a ideia tivesse chegado com atraso e mordido.
— Talvez… talvez comigo como efeito colateral.
Aquilo me acertou num lugar que eu não gostei.
Eu aproximei um pouco a mão e apertei de leve o ombro dela, um toque curto, mais pra ancorar do que pra consolar. Clara estava de pé, mas parecia com a sensação de estar prestes a cair.
— Você não é “efeito colateral”, Clara — eu disse, baixo. — Você é… você.
Ela me olhou de lado, e eu vi a raiva passando rápido pelo olhar dela. Raiva de tudo. Raiva de ter sido usada. Raiva de ter acreditado.
— E por que alguém estaria tentando sabotar o Logan? — ela mudou o tom do assunto, e a pergunta veio com aquela urgência limpa de quem não tem vocabulário pra esse tipo de mundo, mas aprende rápido.
Eu soltei um ar pelo nariz e olhei pro corredor, para o vai-e-vem de uniforme, para as pessoas fingindo normalidade depois de um quase desastre.
— Porque é isso que as pessoas fazem no nosso mundo — eu falei. — Quando você não consegue fazer melhor… você tenta fazer o outro parecer pior.
Clara franziu a testa, como se estivesse ouvindo uma língua que não conseguia aprender.
— Sabe o tamanho das negociações que estão acontecendo nesse navio, Clara? — eu perguntei.
Ela balançou a cabeça, negativa, e eu senti um desconforto curto. Porque eu tinha colocado ela aqui no meio sem explicar o que “meio” significava de verdade.
— Milionárias — eu disse. — E quando tem dinheiro demais em jogo, nem sempre todo mundo fica feliz com o resultado.
Clara ficou em silêncio um segundo, absorvendo.
— Tá — ela falou, devagar, como quem pisa em vidro. — Mas… e a Mareu com isso?
Eu respirei.
— Efeito colateral — eu respondi, porque era a linha mais lógica. — Como você mesma disse. Um escândalo de alguém morrendo nesse navio… seria incontrolável. Manchete, investigação, ruído, desvalorização, medo. É o tipo de coisa que derruba confiança mais rápido do que qualquer concorrente.
Clara balançou a cabeça de novo, mas agora era diferente. Não era discordância. Era… insistência.
— Mas aí poderia ser qualquer pessoa — ela murmurou. — Qualquer passageiro. Qualquer funcionário.
Ela levantou o pulso, e o bracelete dourado pareceu mais feio do que valioso.
— Eu recebi os convites. Dois convites. Provavelmente quem fez isso calculou que eu levaria a Mareu comigo. Não acha que isso foi calculado?
Eu senti uma raiva fria voltar.
— Sim, acho — eu concordei. — Porque ela é a babá dos Novak. O impacto é maior. “Babá do bilionário morre em sauna VIP durante negociações.” É uma frase pronta. Uma bomba com legenda.
Clara mordeu o lábio, e eu vi o pensamento dela correndo numa direção que ainda não tinha palavra.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...