~ LOGAN ~
Eu corri com ela nos braços.
Não foi uma corrida elegante. Não foi uma corrida de CEO que controla o próprio pulso e a própria imagem. Foi uma corrida de homem que só enxerga um ponto fixo no corredor e vai até lá como se a vida dependesse disso — porque dependia.
O vapor ainda estava na minha roupa, no meu peito, na minha garganta. A Mareu estava quente demais contra mim. Leve demais. E o jeito como a cabeça dela tombava, como se o corpo tivesse desistido de sustentar o próprio peso, fazia um tipo de raiva subir pelo meu sangue que eu não tinha onde colocar.
— Ei — eu murmurei, perto do rosto dela. — Fica comigo.
Os olhos dela estavam meio apagando, mas ela virou o rosto um milímetro na minha direção. A boca mexeu como se ela estivesse achando engraçado que eu estava pedindo isso com tanta seriedade.
— Fico — ela respondeu, quase um sopro.
Eu apertei os braços ao redor dela, como se isso garantisse alguma coisa.
A ala hospitalar do navio parecia longe demais para existir no mesmo lugar que o bar da piscina, os sorrisos, os investidores e a minha voz vendendo futuro com calma. Aqui tinha cheiro de antisséptico, luz fria, passos rápidos. Aqui tinha gente olhando pra mim sem interesse em cargo. Era só urgência.
Coloquei Mareu em uma cadeira de rodas. Ela abriu um olho, confusa.
— Ah… — ela murmurou, a voz falhando num sorriso. — Eu tava gostando.
Ela foi examinada rápido demais e, ao mesmo tempo, devagar demais. Pressão, temperatura, perguntas que ela respondeu pela metade. Eu fiquei perto o suficiente para ouvir o ar entrando e saindo dela, mas longe o suficiente para não atrapalhar.
— Ela vai ficar bem — uma médica disse, firme, como quem sabe que eu preciso de frases objetivas. — Foi calor excessivo e desidratação. Agora a gente precisa resfriar o corpo dela de maneira adequada e reidratar. Monitorar. Mas vai ficar bem.
Vai ficar bem. Eu ouvi as palavras e tentei aceitar.
A enfermeira guiou a cadeira para uma sala e eu acompanhei por instinto.
— Senhor, por favor — ela falou, levantando a mão. — O senhor não pode entrar agora. Precisamos fazer o procedimento e ela precisa descansar.
Eu parei. O corpo inteiro querendo avançar e a realidade inteira dizendo “não”.
Eu odeio hospitais.
Eu odeio o jeito como a imprevisibilidade mora aqui dentro. O jeito como tudo pode mudar num minuto enquanto pessoas de uniforme dizem “vai ficar bem” com a mesma naturalidade com que dizem “precisa assinar aqui”.
Eles tinham dito que a Mareu ia ficar bem.
Mas ninguém também imaginava que a Laura não ficaria, imaginava?
Ninguém imaginava que ela ia entrar para um parto e ia sair para um caixão.
Eu fechei os olhos por um segundo e me forcei a não ir por esse caminho. Era um caminho que me engolia rápido. Eu abri os olhos de novo, encarei o corredor e puxei o celular.
Digitei para Henrique com os dedos que ainda tremiam.
“Olívia deve estar saindo da recreação a qualquer momento. Pode pegar ela pra mim?”
A resposta veio quase imediata.
“Claro, chefe. Vou levar a pequena para tomar um sorvete.”
Eu guardei o celular e fiquei ali, parado no corredor, ouvindo portas abrindo e fechando, passos indo e vindo, e a minha mente tentando calcular o que eu não conseguia controlar: tempo, risco, consequência.
Quando uma enfermeira apareceu, eu endireitei o corpo como se a postura pudesse me preparar para qualquer notícia.
— Senhor Novak? — ela perguntou.
— Sim.
Ela olhou para uma prancheta e depois para mim, com um tipo de confusão profissional que eu não via desde… nunca.
— A paciente está melhor — ela disse. — Ela está… pedindo para ver… — a enfermeira hesitou, como se não quisesse falar a frase. — “O ogro de braços fortes”.
Eu pisquei.
Uma risada quase escapou da minha garganta, mas eu segurei.
— Eu não sei muito bem o que isso significa — ela completou, sem graça.
— Eu também — eu respondi.
Ela virou o rosto na minha direção, com um brilho mínimo de provocação aparecendo por baixo da névoa.
— Medo de me perder? — ela perguntou.
— Claro — eu falei, e a desculpa veio rápido demais. — A Olívia jamais me perdoaria se eu deixasse algo te acontecer e… você sabe. Eu tô… eu tô tentando ficar bem com a minha filha.
O canto da boca da Mareu subiu num sorriso pequeno, daqueles que sabem demais.
— Claro — ela murmurou. — Liv.
Eu respirei pelo nariz, derrotado e aliviado ao mesmo tempo por ela conseguir me ler daquele jeito.
Eu olhei para o soro, para o braço dela, para a fita, e senti o impulso de transformar tudo em ação.
— Escuta… — eu comecei, e a minha voz ficou mais firme. — Eu não sei o que aconteceu ainda, mas eu vou... Vou descobrir.
Mareu se mexeu um pouco e a mão dela alcançou meu punho. Um toque leve. Quase nada.
E, mesmo assim, me prendeu.
— Depois — ela disse, a voz fraca, mas clara. — Agora… fica aqui.
Eu olhei para ela. Para a bagunça do cabelo, para o rosto cansado, para os olhos tentando não fechar de novo.
E eu entendi que, naquele segundo, resolver podia esperar.
Eu encaixei minha mão na dela com cuidado.
— O quanto você quiser — eu respondi.
E fiquei.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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