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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 83

~ MAREU ~

No dia seguinte, eu acordei com duas certezas.

A primeira: meu corpo tinha sido substituído por uma versão de mim feita de gelatina.

A segunda: eu estava viva o suficiente pra odiar isso com convicção.

A ala hospitalar tinha me liberado com um discurso que soava simples demais pra quem tinha passado a noite anterior quase virando notícia de jornal: hidratação, sombra, nada de calor, nada de álcool, nada de “esforço desnecessário”. O que, no vocabulário médico, significava: nada divertido.

Só que o Asteria estava atracado.

E a vista que entrava pela janela da cabine era indecente de bonita: praia de água clara, areia branca, aquelas palmeiras que parecem cenografia de comercial de turismo. O tipo de lugar onde até o trauma tenta fingir que está de férias.

Olívia apareceu no corredor com um chapéu enorme na cabeça, óculos escuros e uma garrafinha térmica abraçada como se fosse um bebê.

— Bom dia — ela disse. — Plano de ação: praia.

Eu levantei uma sobrancelha.

— Plano de ação. Claro. Porque chamar de “vamos nos divertir” seria informal demais.

Ela ignorou.

— Você vai beber água antes de falar qualquer coisa.

— Eu já estou falando.

— Exatamente — ela retrucou. — E está fazendo isso desidratada.

Eu abri a boca pra discutir, mas Logan apareceu atrás dela com uma expressão que eu reconheci imediatamente: “não me dá trabalho”.

Ele estava com a camisa aberta no colarinho, óculos escuros, e aquele jeito de homem que nunca parece casual de verdade. Mesmo quando ele tentava, parecia um CEO disfarçado de turista.

Na mão dele, uma água de coco.

— Antes que você argumente — ele disse, me estendendo — isso não é negociável.

Eu peguei, porque eu não tinha força moral pra brigar com duas pessoas ao mesmo tempo — uma delas sendo uma criança de seis anos e meio que ainda me assustava.

A praia parecia uma extensão do luxo do navio, só que com areia no lugar de mármore. Tinha guarda-sóis alinhados, equipe circulando, caixas térmicas, toalhas dobradas com perfeição irritante. Tripulação, passageiros, segurança — todo mundo espalhado pela orla.

Logan colocou protetor solar na Olívia com um cuidado concentrado demais, como se passar protetor fosse um compromisso vitalício.

— Pai — Olívia reclamou. — Você está aplicando como se estivesse impermeabilizando um iate.

— Ótimo — ele respondeu. — É exatamente o objetivo.

Ela revirou os olhos e olhou pra mim, buscando cumplicidade.

Eu levantei as mãos.

— Eu não posso opinar. Eu estou sob tutela.

Logan virou pra mim com o protetor na mão.

— Vira.

Eu fiquei parada.

— Logan.

— Vira, Mareu.

Olívia cruzou os braços, observando como se estivesse vendo um episódio novo de uma série favorita.

— Eu não sou criança — eu falei.

— Eu sei — ele respondeu, e a voz saiu calma demais. — Por isso você vai colaborar sem drama.

Eu respirei fundo e virei, resignada. O protetor estava frio quando ele encostou na minha pele, e o toque dele — firme, cuidadoso — fez uma coisa absurda acontecer: eu arrepiei.

Não era pelo protetor frio.

Era pelo fato de que ele estava tocando em mim em público, sem pressa, como se fosse normal. Como se aquela intimidade não fosse perigosa. Como se meu corpo não lembrasse de outras versões daquele toque.

Eu engoli seco e olhei pro mar com muita atenção, como se o mar tivesse respostas e não apenas água.

— Você está bem? — Logan perguntou, baixo, perto demais.

Eu quis responder “não”, mas eu já tinha decidido que hoje era um dia de fingir bem o suficiente.

— Estou — eu menti, com dignidade.

Olívia soltou um som de desprezo infantil.

— Ela está nervosa — ela disse. — Porque sabe que eu vou ganhar dela no stand up paddle.

— Stand up o quê? — eu repeti, ainda tentando acompanhar.

— Paddle — Olívia falou devagar, como se eu fosse uma senhora de idade avançada. — Você fica em pé numa prancha e rema. É simples. Só exige equilíbrio, coordenação, força e autocontrole emocional. Ou seja… nada que você tenha.

Eu olhei pra Logan.

— Ela está me intimidando com currículo.

— Ela faz isso — ele respondeu, como se estivesse falando do clima.

O caiaque veio primeiro, numa versão “passeio”, como ele tinha decretado. Olívia se sentou na frente, eu atrás, Logan em outro caiaque ao lado — perto o suficiente pra vigiar, longe o suficiente pra fingir que não era vigilância.

A água era tão transparente que parecia falsa. Peixes pequenos passavam perto, e Olívia narrava tudo como se fosse documentário.

— Ali, um exemplar de… algo — ela disse, apontando. — Ele claramente não sabe que eu sou superior.

— Liv… você acabou de declarar superioridade pra um peixe?

— Depende do peixe. Mas sim.

Olívia olhou de cima da prancha, sem nenhum traço de pena.

— Nota técnica — ela disse. — Foi uma queda feia.

— Obrigada, avaliadora.

Logan me sustentou mais um segundo do que precisava, e o polegar dele passou de leve pela minha pele, como se estivesse confirmando que eu estava ali inteira. Meu estômago deu aquele pequeno salto indecente.

— Você está bem mesmo? — ele perguntou de novo, agora com a preocupação real atravessando o tom.

Eu forcei um sorriso.

— Estou.

Olívia bateu o remo na água, impaciente.

— Podemos voltar ao esporte? — ela perguntou. — Eu estou tentando construir uma memória feliz.

Eu quase ri, porque aquilo era tão Olívia: planejando felicidade como se fosse item de checklist.

Eu subi na prancha de novo, com ajuda, e dessa vez fiquei de joelhos, o que foi meu jeito de dizer “eu respeito o mar”.

Logan ficou ao lado, mão pronta — não tocando o tempo todo, mas perto. Às vezes a ponta dos dedos roçava minha panturrilha quando eu perdia o equilíbrio. Às vezes ele segurava a prancha por um segundo. Toques pequenos, discretos, porém suficientes pra meu corpo lembrar que ele existia.

E Olívia, entre uma remada e outra, olhava pra nós com aquela expressão calma demais para uma criança. Como se estivesse registrando a cena em algum lugar interno e carimbando:

A gente ficou ali até o sol começar a mudar de posição, até minha energia acabar de verdade, até o cansaço virar algo aceitável.

Quando voltamos pra areia, Olívia se jogou na toalha com um suspiro dramático.

— Foi satisfatório — ela decretou. — Hoje nós fomos… funcionais.

— Funcionais — eu repeti.

Logan se agachou ao lado dela, ajeitou o chapéu na cabeça da filha, e eu vi o jeito como ele fazia isso com naturalidade agora. O pai voltando ao corpo.

Eu devia estar feliz.

Eu estava feliz.

Foi por isso que o frio na minha espinha me irritou tanto.

Eu levantei o olhar por acaso — só um movimento simples, instintivo — e meus olhos encontraram os de Paula.

Na praia, como se pertencesse ao cenário. Óculos escuros, postura perfeita, um sorriso mínimo que não tinha nada de praia paradisíaca. Nada de descanso.

Era o sorriso de quem espera o próximo movimento.

E, naquele segundo, apesar do sol, da água clara, da Olívia sorrindo, eu senti como se uma nuvem tivesse passado por dentro de mim.

Como se a tempestade estivesse só… escolhendo a hora de cair.

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