~ MAREU ~
Os dias seguintes tiveram uma qualidade estranha de “normalidade vigiada”.
A rotina se ajustou do jeito que rotinas se ajustam quando alguém com dinheiro decide que a realidade vai obedecer.
Mais segurança discreta no portão.
Mais olhares que eu fingia não notar.
Mais comida “verificada” com um zelo que faria uma mãe de primeira viagem parecer relaxada.
E, no meio disso, Olívia sendo Olívia: uma criança de seis anos e meio que caminhava pela casa como se estivesse assinando contratos invisíveis com o universo.
Na segunda-feira, Logan avisou que a reunião na escola finalmente aconteceria.
A tal reunião com os pais da menina do bullying.
A reunião que, em teoria, era sobre “convivência”, mas que, na prática, sempre vira um teatro onde adultos tentam parecer civilizados enquanto crianças observam e guardam tudo.
— Você vai comigo — ele disse, naquela voz que não abre margem pra negociação.
— Eu vou com você — eu respondi, porque eu sabia que se eu deixasse a Olívia sozinha naquela sala, eu não teria paz nem no meu próprio velório.
Olívia apareceu pronta dez minutos antes do horário, com a mochila organizada e a expressão de quem estava prestes a conduzir uma audiência pública.
— Eu vou dizer só o necessário — ela anunciou.
Eu levantei a sobrancelha.
— “Só o necessário” na sua língua pode significar quinze minutos de jurisprudência infantil.
Logan olhou pra mim, rápido, como se estivesse tentando decidir se aquilo era uma crítica ou um elogio.
A diretora nos recebeu na escola com um sorriso treinado e um “obrigada por virem”, como se Logan Novak estivesse fazendo um favor ao sistema educacional só por existir naquele prédio.
A sala de reunião era pequena, mesa retangular, cadeiras desconfortáveis. Um jarro de água que parecia ali só pra fingir que alguém se importava com o conforto alheio.
Logan se sentou de um lado, postura impecável.
Eu me sentei um pouco atrás, não porque eu era menos importante, mas porque eu ainda tinha a humildade de lembrar que eu era a babá. Uma babá com cláusula de aprovação de noiva, mas ainda assim babá.
Olívia se sentou ao lado do pai, coluna reta, mãos cruzadas.
A diretora começou com a voz de mediadora:
— Estamos aqui para entender o que aconteceu e construir um plano de convivência saudável entre as alunas… A irmã da Paloma já deve estar chegando. Ela vem para representar os pais que estão trabalhando nesse horário.
Eu pensei: ok. Irmã mais velha. Nada demais.
Até a porta abrir.
Primeiro entrou Paloma.
Uma menina da idade da Olívia, mas com aquele tipo de postura que parece treinada pra vencer no grito. Ela evitou olhar direto para a Liv. E, mesmo assim, eu vi o jeito como ela endureceu o rosto.
Atrás dela entrou a irmã.
Paula.
Impecável, como sempre, com aquele tipo de beleza que vem com manual de instruções. Eu reconheci o perfume antes da presença completar o movimento — e meu corpo, traidor, deu aquele arrepio que eu já tinha aprendido a odiar.
Paula parou na porta por um segundo, avaliando.
O olhar dela passou por Logan.
Por mim.
Por Olívia.
E eu vi, com clareza assustadora, o instante exato em que ela entendeu o que estava acontecendo ali e a postura dela mudou como se alguém tivesse apertado um botão “modo família”.
— Diretora — ela cumprimentou, doce. — Desculpe o atraso. Eu tive um imprevisto… familiar.
Ela disse “familiar” olhando pro Logan. Como se a palavra já tivesse dono.
Logan não se mexeu. Não sorriu. Só fez aquele aceno mínimo de quem se mantém civilizado por obrigação.
Olívia inclinou a cabeça.
— Ah — ela disse, com uma serenidade perigosa. — Você.
Paula sorriu para ela com um sorriso tão bonito que dava vontade de lavar com água sanitária.
— Olívia, não é? — Paula disse. — Que prazer ver vocês nov…
— Não — Olívia interrompeu. — Não é prazer.
— “Tá” não é pedido de desculpas — ela corrigiu. — Mas eu aceito como início de reeducação.
A diretora se apressou.
— Então podemos estabelecer um acordo. Paloma, você se compromete…
Paula interrompeu com a mesma naturalidade de quem toma uma sala.
— Eu acredito que esse é o tipo de situação que melhora com convivência — ela disse, e eu vi o brilho estranho no olhar dela. — Se as meninas se aproximarem, se tiverem oportunidade de… criar laços, isso pode virar amizade.
Olívia e Paloma fizeram exatamente a mesma coisa ao mesmo tempo: reviraram os olhos.
Foi tão sincronizado que, por um segundo, eu pensei: ok, talvez convivência funcione mesmo. Porque elas claramente tinham talento em comum: desprezo.
Paula continuou, agora olhando direto pro Logan, como se eu não existisse.
— E como a gente vai ser família… — ela disse, leve, como quem comenta o tempo — faz sentido facilitar isso.
Eu senti o ar mudar na sala. Um frio fino correndo pela minha nuca.
Logan não respondeu.
A diretora olhou pra ele como quem pede autorização pra respirar.
Eu olhei pra Olívia. Olívia olhou pra mim.
E eu vi ali um brilho conhecido: “isso é guerra”.
Paula sorriu mais.
— Então eu vou resolver de um jeito simples — ela decretou, já levantando a mão como se estivesse assinando algo invisível. — Um grande jantar em família no próximo final de semana. Vocês vêm até a minha casa.
Paloma fez uma careta discreta.
Olívia fechou o rosto.
Paula ignorou as duas com a facilidade de quem não enxerga criança como pessoa completa.
— Paloma vai adorar receber a Olívia — ela disse.
Então, ela olhou para o Logan e o sorriso ficou perfeito demais.
— E eu vou adorar receber você, Logan.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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