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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 91

~ MAREU ~

Saímos da sala de reunião com a Olívia andando na frente, passos firmes. Eu fui atrás, tentando parecer neutra, e Logan foi do outro lado, com aquela postura de homem que finge que não está fervendo por dentro.

— Eu não vou nesse jantar — Olívia decretou, sem olhar pra ninguém.

Logan nem diminuiu o passo.

— Vai sim. Porque você ainda está de castigo por ter batido em uma coleguinha.

Olívia soltou um bufado tão perfeito que parecia ensaiado.

— Eu não tenho coleguinhas.

— Olívia.

— Eu não tenho — ela insistiu. — E, se eu tivesse, certamente a Paloma não seria uma.

Eu mordi o lado de dentro da bochecha pra não rir. Olívia tinha razão. Nem de longe ela era do tipo que usaria o termo “coleguinhas”.

Caminhamos pelos corredores da escola, aquele labirinto de portas iguais, cartazes coloridos e cheiro de limpeza recente tentando disfarçar estresse infantil. Olívia foi diminuindo o ritmo conforme se aproximava de uma sala específica.

— Essa é a minha sala — ela disse.

Depois virou o rosto devagar.

Olhou pra mim. Olhou pro pai.

Entrou.

Sem dizer mais nada.

A porta fechou com aquele clique simples que, por algum motivo, pareceu um “fim de cena”. E eu fiquei ali, no corredor, com Logan, e com um silêncio constrangedor entre nós.

Até que nós dois abrimos a boca ao mesmo tempo...

— Eu vou...

— Eu vou...

A gente travou.

Eu apontei pro lado esquerdo, por instinto.

Logan apontou pro lado direito, como se estivesse dizendo “cada um pro seu quadrado”.

Ele pigarreou.

— É… trabalho — ele disse.

— Ótimo — eu respondi rápido demais, como se “ótimo” fosse uma porta de saída.

E, sem mais nada, ele virou e foi.

Eu virei e fui também.

Só que tinha um detalhe: Logan sabia exatamente pra onde estava indo naquela escola. Eu… eu só sabia que precisava ir pra longe dele antes que meu cérebro resolvesse dizer alguma coisa idiota.

Andei com convicção.

O problema de andar com convicção é que isso não altera o fato de você estar completamente perdida.

Passei por um mural com fotos de trabalhos de arte. Passei por um corredor com portas que pareciam de clínica, passei por escadas.

Virei num corredor achando que estava indo “para a saída”.

E bati em alguém.

Foi um choque leve, mas suficiente pra eu voltar pro corpo com a dignidade em modo alerta.

— Desculpa, eu… — eu comecei, automática, já preparando a versão educada de mim.

Aí eu levantei o rosto.

E o mundo… teve a audácia de me dar um rosto do passado.

— Rafael? — eu disse, e a palavra saiu como se eu tivesse tropeçado nela.

Ele piscou uma vez, como se também estivesse conferindo se eu era real.

— Mareu?

Ele sorriu. Um sorriso fácil demais. O mesmo sorriso que, um dia, me fez achar que o mundo podia ser simples. E que depois me ensinou que “simples” geralmente vem com juros.

— Nossa… que mundo pequeno — ele falou.

Eu senti um arrepio de irriração.

— Menor do que eu gostaria — eu respondi, e fiz menção de passar direto por ele, em fuga digna.

Rafael segurou meu braço.

Não forte. Só o suficiente pra me parar.

— Ei, espera. O que você tá fazendo aqui?

Eu abri a boca.

— Eu vim trazer a… — eu comecei, e as palavras morreram no meio.

Porque a frase óbvia era “a criança de quem eu cuido”. Ou “a filha do meu chefe”.

E eu não queria que Rafael soubesse.

— Milionário — eu continuei, como se eu estivesse vendendo o produto que eu mesma não tinha certeza se queria comprar. — E lindo. Alto. Forte… olhos verdes… ombros largos…

Eu parei.

Parei porque, no meio da lista, meu cérebro finalmente percebeu que eu estava descrevendo exatamente uma pessoa específica.

E não era o meu “noivo imaginário”.

Era Logan Novak.

Meu estômago deu um nó.

Eu tossi, tentando consertar.

— Você sabe — eu disse, olhando pro teto como se a escola tivesse resposta — esse tipo.

Rafael sorriu, lento.

— Sei. Do tipo quase… perfeito demais pra existir.

— Ei — eu retruquei, irritada comigo mesma e com ele ao mesmo tempo. — Eu não tô mentindo só pra parecer que estou bem depois que você… que nós…

Ele levantou as mãos, conciliador.

— Claro que não. — O olhar dele desceu, rápido demais, e voltou. — Até porque você continua linda.

Meu corpo teve uma reação idiota de alerta. Memória querendo voltar à tona. E memória é uma coisa traiçoeira.

Rafael deu um passo pra perto, reduzindo espaço como quem reduz resistência.

— E, caso termine com seu noivo imaginário… — ele falou, casual, como se fosse um comentário sobre o tempo — meu número continua o mesmo. Vamos sair pra jantar.

Ele disse “jantar” e eu senti o universo rir na minha cara.

Como se jantar tivesse virado uma palavra amaldiçoada na minha vida.

Rafael abriu uma porta ao lado e entrou numa sala, como se aquilo fosse só uma conversa leve de corredor, como se ele não tivesse acabado de apertar um botão dentro de mim.

E eu fiquei ali, sozinha, no corredor enorme, com o coração reagindo de um jeito que não devia.

Não porque eu queria Rafael.

Eu não queria.

Mas porque meu coração, aparentemente, era um órgão burro que confundia passado com ameaça, e ameaça com adrenalina, e adrenalina com qualquer coisa que parecesse… vida.

Eu engoli seco, olhando para o nada.

E pensei, com uma clareza amarga:

Que ótimo. Além de tudo, agora o meu coração decidiu ser inconveniente.

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